Previsão de “estiagem” no Cão

Ontem à noite, no Twitter, o Idelber Avelar comentou sobre o fim do blog do Pedro Doria e perguntou “o que está acontecendo com os blogs?” – afinal, é mais um a anunciar o encerramento. No dia 6 de agosto, A Nova Corja teve seu último post. E o próprio Idelber anunciou que  seu ótimo blog O Biscoito Fino e a Massa entrou em “hibernação” por tempo indeterminado, já que nos próximos meses ele se dedicará a um trabalho acadêmico, que impossibilitará a atualização do blog e a resposta a comentários.

Aqui no Cão, os próximos meses deverão ter uma significativa redução das postagens – assim como no caso do Idelber, os motivos são acadêmicos: minha monografia de conclusão do curso de História na UFRGS. Não coloco o blog em “hibernação” por temer não cumprir a “promessa”. Ainda mais que há assuntos interessantes a serem tratados de hoje até janeiro – como os 20 anos da queda do Muro de Berlim, em novembro, fato que merece uma reflexão.

Mas a prioridade, será o meu trabalho de conclusão. Tem de ser prioridade. Até porque o ganho será não apenas meu, mas também dos próprios leitores do Cão, já que a monografia – depois de pronta, claro – certamente será tema de vários posts. É sobre futebol, mas não será simplesmente sobre o esporte, mas sim, sobre como ele pode refletir outros aspectos sociais. Ainda mais num país como o Brasil.

(A propósito, dois anos atrás cursei um seminário sobre História Social do Futebol no Brasil ministrado pelo professor Cesar Guazzelli, meu orientador no TCC. O trabalho final – que rendeu um post – tratou sobre a “trégua” na rivalidade Gre-Nal no primeiro semestre de 1967. Sinceramente, acho que consegui ser imparcial, apesar de não acreditar na existência dela.)

Talvez eu poste novamente alguns textos antigos que sejam interessantes de serem relidos – afinal, é só “copiar e colar” – para que o blog não fique muito parado, principalmente de novembro ao início de janeiro, quando finalizarei e revisarei a monografia, além de preparar a apresentação para a banca. E se for o caso de “congelar” o blog, farei “anúncio oficial”.

Existem amigos que torcem para outro time

Foto tirada antes do Gre-Nal 181, em 05/03/1967. Fonte: "Folha da Tarde Esportiva", 06/03/1967.

Foto tirada antes do Gre-Nal 181, em 5 de março de 1967. Fonte: "Folha da Tarde Esportiva" do dia seguinte.

Como bom gremista, quero que o Inter se exploda. Sempre. Comigo não tem essa de “tira, Índio!”. Detesto babação de ovo.

Mas eu quero a desgraça dos vermelhos apenas no campo de futebol, é claro. Infelizmente, nem sempre isso acontece. Fazer o quê?

Ser gremista nunca me impediu de ter grandes amigos colorados. E é sensacional tirar sarro deles: dizemos que são podres, toscos, mas a amizade continua, porque sabem que é de brincadeira.

É possível até se rir junto quando se leva flauta – desde que ela seja criativa, sem “pifações”, é claro. Tem colorados que sabem debochar de uma maneira divertida, sem arrogância. E não perdem o bom humor quando a “gangorra” inverte e é a minha vez de tirar sarro.

Já houve momentos em que meu coração até esqueceu que é tricolor. Isso se deu quando algumas coloradas “fizeram eu subir pelas paredes” – claro que não por causa de futebol, né? Há uns dez anos cheguei ao cúmulo de dizer que uma guria era “perfeita”, e isso mesmo sabendo que ela torcia pelo Inter! Que heresia! Tudo bem que ela era muito bonita, mas é uma vergonha mesmo assim… Menos mal que ela teve o senso crítico que me faltou, e me deu um fora (afinal, ela percebeu que eu estava mentindo, não se enganou). Aprendi a lição.

Mas não se pode esquecer a frase dita nos anos 60 pelo então presidente gremista Rudy Armin Petry: “O Grêmio é grande devido à grandeza do Internacional”. Nada mais do que a verdade. A rivalidade e o desejo de sempre ser melhor que o adversário fez com que ambos os clubes crescessem e se tornassem os gigantes que são, o que é um orgulho para Porto Alegre.

Claro que, como eu falei, há aqueles que não são dignos de torcerem para um grande clube – e se verifica isso dos dois lados. São os arrogantes, que não vêem que futebol pode até ser “dentre as coisas menos importantes, a mais importante”, mas não resolve os problemas de ninguém. São aqueles que agridem – tanto verbalmente quanto fisicamente – quem veste uma camisa de cor diferente. Simplesmente lamentável. Há tanto dirigentes quanto torcedores (felizmente, uma minoria) que agem dessa forma.

Só que esse post não é para os arrogantes, e sim dedicado aos que, mesmo não sendo perfeitos (não sou mais um adolescente de 17 anos apaixonado por uma colorada, então posso tocar flauta livremente!), não são pessoas de menor valor apenas por torcerem para o grande rival. Me deram muitas alegrias com as derrotas do seu Inter (assim como também ficam felizes com as desgraças do meu Grêmio). Porém, acabou o jogo, tiramos um sarro, tomamos uma cervejinha e esquecemos que por 90 minutos “nos odiamos”.

Um fraternal abraço aos amigos e leitores colorados, e parabéns pelo centenário de seu time!

Mas, só para não perder o hábito, abaixo vai um vídeo lembrando que, terça-feira, temos jogo mais importante do que o de amanhã… Afinal, é da flauta que vive a rivalidade Gre-Nal, que não tem igual no mundo inteiro.

1967: uma rara união

Quem acompanha futebol sabe que talvez não haja no Brasil maior rivalidade do que a existente entre Grêmio e Internacional. A ponto de, na última rodada da primeira fase do Brasileirão de 1996, o Grêmio (já classificado) jogar uma péssima partida e perder por 3 a 1 para o Goiás, mas a torcida sair feliz da vida por causa da derrota do Inter para o Bragantino que eliminou o time colorado da competição.

Porém, nem sempre foi assim. Em 1967, pela primeira vez a dupla Gre-Nal participava do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que reunia os maiores clubes cariocas e paulistas desde 1950, e que em 1967 foi estendido a Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. O torneio, disputado até 1970, foi o “embrião” do Campeonato Brasileiro, que foi realizado pela primeira vez em 1971.

Como o critério para a participação no “Robertão” para os clubes de fora do eixo Rio-São Paulo era o convite – a princípio seriam convidados apenas os clubes mineiros, visto que as viagens a Belo Horizonte não eram dispendiosas para cariocas e paulistas – era preciso que as partidas em Porto Alegre fossem rentáveis, para que a dupla Gre-Nal continuasse a ser convidada para o “Robertão”. Os dois clubes jogavam no Olímpico, visto que o Inter ainda não tinha um estádio em condições de sediar jogos importantes – o Beira-Rio seria inaugurado somente em 1969.

Para obterem boas rendas, os clubes decidiram adotar o sistema de caixa único, e foi também conclamada uma união entre as duas torcidas para o “Robertão”, pela “afirmação do futebol gaúcho”. Surgia assim a “Torcida Gre-Nal”.

Parecia maluquice, mas a idéia vingou! Gremistas iam aos jogos do Inter e apoiavam o time vermelho, e colorados iam às partidas do Grêmio e apoiavam o Tricolor. E a união deu certo: os dois clubes se classificaram para o quadrangular final, junto com Corinthians e Palmeiras (que foi o campeão). O Inter foi vice-campeão, e o Grêmio acabou em quarto lugar.

As imagens abaixo, de edições do jornal Folha da Tarde Esportiva em 1967, dizem tudo.