Desistir também é para os fortes

Existem momentos decisivos na vida, nos quais temos de admitir que aquele sonho que tanto acalentamos não se realizará.

É algo muito doloroso. Afinal, investimos muito nele – e não falo de dinheiro.

Quantas noites mal-dormidas? “Quebrando a cabeça”, pouco importando se era três da manhã e o despertador tocaria às seis, pensando em uma maneira de transformar em realidade o que existe apenas em ideias. E insistindo nisso, mesmo quando tudo indicava que não ia dar.

Dizem que desistir é para os fracos. Concordo parcialmente. Há quem desista diante da primeira dificuldade.

Agora, não é nada sábio seguir por um caminho que, está na cara, vai dar em nada ou em um lugar nada agradável. Sábios são os que percebem o erro e o corrigem antes do estrago ser maior. E assim têm a oportunidade de buscar outra coisa, não necessariamente possível, mas que ao menos corresponde a um novo sonho.

Desistir de algo no qual muito se investiu e do qual não se obteve nenhum retorno, e que não dá a menor perspectiva de ser diferente, isso sim é para os fortes. Que terão de aguentar os olhares desaprovadores dos metidos a otimistas, que acreditam cegamente naquele papo furado de que “basta se esforçar muito para chegar lá”. Mesmo que o objetivo fosse algo do tipo o seu time fazer um gol tendo o Barcos como centroavante.

O que está acontecendo com parte da juventude?

Não acho a juventude dos dias de hoje “sem noção”, mesmo com a onda de preconceito no Twitter após a eleição (eram jovens destilando ódio). Afinal, generalizar a partir do que alguns racistas disseram, é também ser preconceituoso, é ignorar que há sim muitos jovens que não aceitam a estupidez reinante.

Mas, não podemos negar que há uma tendência ao crescimento do percentual de jovens de classe média (que está em expansão) que não são simplesmente conservadores, mas sim reacionários, raivosos. Que não têm vergonha de expressarem opiniões totalmente preconceituosas (e que eles não acham ser isso, mas sim “a verdade”). Não fazem uma reflexão crítica sobre o que ouvem, o que lêem.

Engana-se quem pensa que eles não são rebeldes, “coisa típica da juventude”. O problema, é que hoje em dia até a rebeldia foi “enquadrada”, virou “produto”, “moda”, como prova uma loja em um centro comercial de Porto Alegre especializada em “rock e cultura alternativa”. Agora é assim: quer ser “alternativo”, vá ao shopping… E, por favor, isso não é culpa dos jovens. Eles não se tornam consumistas “ao natural”, e sim, porque são compelidos a isso. Afinal, praticamente vivem dentro do shopping, ouvem o tempo todo que “a rua é muito perigosa”. É muito difícil resistir a este verdadeiro terrorismo que é praticado pela “grande mídia”.

Além disso, eles refletem um problema sério de nossa época, que é a aparente falta de uma utopia, de um ideal pelo qual lutar, como lembra muito bem o excelente documentário Utopia e Barbárie, de Sílvio Tendler. Tanto que, a quem acha que a vida dos jovens de hoje é melhor por não estarmos mais sob uma ditadura, o meu amigo Diego Rodrigues lembra em um ótimo texto escrito em seu antigo blog Pensamentos do Mal (clique aqui para ler na íntegra):

Os que dizem que a vida dos jovens hoje é mais fácil não têm idéia do que é viver sem causa, numa época que não pensa, que não reflete. Faço parte da juventude mais revolucionária de todos os tempos, mas que não tem inimigo. Não sabemos contra o que lutar. Vivemos na era da descrença: as religiões são uma farsa; a política, uma hipocrisia; e os sonhos, ilusões. Isso é que a juventude pensa, e de forma cada vez mais individualista.

Assim, quais são os principais sonhos de boa parte dos jovens? Ganhar dinheiro, “subir na vida”… Uma luta extremamente solitária, o que fortalece o individualismo e faz com que eles não descubram o quão podem ser revolucionários. Enquanto quem luta por algum ideal se insere num grupo de pessoas com objetivos semelhantes, laços que reforçam a solidariedade e a motivação para seguir sonhando.

Não devemos deixar os sonhos de lado

Semana passada, assisti ao excelente documentário Utopia e Barbárie, de Sílvio Tendler. O filme tem como tema o mundo e, principalmente, o Brasil pós-Segunda Guerra Mundial. Fala sobre os sonhos que tinham muitas pessoas, as utopias que guiavam suas vidas, e também sobre as frustrações, que não foram poucas.

Nem vou me estender demais falando simplesmente sobre o documentário (a Cris e a Camila já fizeram isso muito bem), apenas recomendo a todos que o assistam.

Sinceramente, o que seria de nossas vidas se não pudéssemos sonhar? Temos os sonhos pessoais, que variam de pessoa a pessoa, mas dá para dizer que para a maioria, correspondem a um trabalho bacana, o “amor da vida”, filhos etc.

Em geral, acreditamos que basta realizarmos os nossos sonhos pessoais e assim “encontraremos a felicidade”. Será? É possível ser uma “ilha de felicidade” no meio de muitas pessoas infelizes, sem que a maioria acabe por puxar os poucos felizes para baixo? Não seria melhor que fossem todos mais felizes?

Mas a maioria embarca nessa canoa furada. Parece que é proibido desejar um mundo mais justo e, consequentemente, mais feliz. Isso é “perda de tempo”, ainda mais em uma época em que as pessoas vivem correndo. É preciso ter pressa em tudo: para passar no vestibular (no curso que mais agrade, desde que o “agrado” seja igual a “dinheiro”), arranjar um emprego (afinal, “o trabalho dignifica o homem”), comprar um carro (mesmo que não se precise de um), namorar (quando mal se conhece a pessoa), noivar (sem ter muito tempo de namoro), casar (imaginem só que horror, os amigos casando e eu não, sou um fracassado!) e ter filhos (quando mal se tem tempo de brincar com eles).

Já a única urgência que eu enxergo é a de se voltar a ter utopias. Deveríamos ter pressa para resolver os problemas do mundo, e não para adquirirmos bens de consumo.

Algum conformista poderá dizer que o comunismo, utopia que guiou os sonhos de muitos, resultou em muitas mortes. Não é verdade. O comunismo jamais chegou a ser implantado, o que existiam eram países onde o poder estava nas mãos do Partido Comunista, mas onde o Estado era autoritário e burocrático, pois a ideia de “mundo melhor” de uma vanguarda (e por que não dizer “elite política”?) foi imposta a todos, com pouca discussão, sem a participação do povo. Mesmo assim, por ser “o socialismo que existia”, era ingenuamente exaltado pelos que sonhavam com um mundo mais justo, sem um olhar mais crítico. E assim, muitos comunistas acabavam apoiando – mesmo que involuntariamente – situações que eram contrárias ao que realmente acreditavam, e que jamais defenderiam se conscientes disso. Como mostra o filme: a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, exaltada por intelectuais de esquerda no Ocidente que jamais tinham ido à China, foi uma verdadeira tragédia para milhões de chineses. Onde se pensava estar em construção uma nova sociedade, mais feliz e justa, na verdade encontrava-se muito medo e injustiça. E a fraternidade entre os povos, tão sonhada, era impedida pelo Muro de Berlim.

Em 1989, parecia que as utopias estavam sepultadas, com o “fim da História” e a “vitória irreversível” do capitalismo. As pseudo-revoluções que varreram o Leste da Europa naquele ano obviamente respingaram no Brasil, que elegia diretamente o presidente depois de 29 anos: Fernando Collor de Mello, utilizando-se do “anti-comunismo” e do apoio da Globo, derrotou Luís Inácio Lula da Silva, o candidato da “bandeira vermelha”. O medo vencia a esperança. Anos depois, Lula ganhou, mas não era mais aquele de 1989; e o PT, que parecia representar os sonhos de um Brasil mais justo, caiu na “vala comum” dos partidos tradicionais.

Mesmo assim, ficou claro que a História não acabou: enquanto houver humanidade, haverá História. E haverá lutas. Só que hoje em dia elas são fragmentadas. Parece faltar uma utopia em comum para milhões de pessoas em todo o planeta.

Planeta… Não seria uma boa ideia todos lutarmos para que continuemos podendo habitá-lo? Já passou da hora de o tratarmos melhor, né?

Porém, uma pessoa sozinha não consegue melhorar o mundo. O importante é que cada um faça a sua parte. Tanto pela preservação do meio ambiente, como pela diminuição das injustiças – luta que jamais deve ser abandonada. Agindo localmente, mas pensando globalmente: se todos fizerem um pouco em seu bairro, na sua cidade, a soma resultará numa grande mudança para melhor em toda parte.

Mas, acima de tudo, é preciso acreditar que é possível, sem desanimar. Não adianta nada passar por insucessos e só por conta disso passar a achar que “não tem jeito, o negócio é se adaptar para se dar bem”. Lembremos a frase dita por Apolônio de Carvalho em Utopia e Barbárie: “Se perdemos hoje, não quer dizer que não podemos vencer amanhã”.

Por um 2009 utópico

mafalda

A mensagem acima foi enviada pela amiga Cláudia Cardoso, do Dialógico. Considero-a perfeita para a época em que vivemos.

Pois pensar em um 2009 de paz parece difícil, diante da barbárie perpretada pelas forças israelenses na Faixa de Gaza. Prosperidade, depende de qual tipo se quer: se o objetivo é só ganhar dinheiro, isso nunca foi possível para todos, e com a crise será privilégio ainda mais restrito. Amor, é algo cada vez mais em falta. Justiça e igualdade parecem piada. Recompensa pelo esforço, assim como o Guile (irmãozinho da Mafalda), eu nunca vi. Desejos cumpridos, nunca se consegue todos – e na maioria dos casos, não dependem apenas de nós. E um mundo em que se realizem as utopias… Bom, é mais uma utopia.

Então, que tal pelo menos fazermos nossa parte para que tenhamos um pouco de tudo o que citei acima?

Que haja prosperidade não só em termos materiais: tem coisa muito mais importante que dinheiro. O ano de 2008 foi a prova disso para mim, quando conheci pessoas fantásticas, que fazem sua parte na luta por um mundo melhor. Posso dizer que enriqueci muito nesse ano que termina, mesmo sem ganhar muito dinheiro.

Diante da guerra e da injustiça, manifeste seu repúdio, não faça de conta que “não é da sua conta”: hoje é no Oriente Médio; no futuro, quem garante que não será aqui?

Já que o amor está em falta, contribua para que falte menos.

Lute por mais justiça e igualdade.

Tenha desejos, sonhos, mas não esqueça de fazer o necessário para que se tornem realidade.

E, quanto às utopias, passo a palavra para Mario Quintana:

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

Um abraço a todos os leitores do Cão Uivador, e feliz 2009!