A secada de uma vida

No dia 5 de janeiro de 1998, o meu pai me chamou para uma conversa “de homem para homem”. No caso, de um homem experiente para um inexperiente.

Eu havia acabado de levar “o fora da minha vida”.

O meu pai disse que “paixões duram sete dias”. De início, achei que havia acabado com a “teoria” dele, visto que no dia 12 de janeiro eu continuava apaixonado pela guria. Mas, de fato, o pior já havia passado. Eu saíra da fossa. A vida recuperara o sentido. Não tinha mais aquela sensação de “apocalipse” de uma semana antes.

Ainda levaria mais de um ano para me sentir totalmente “curado” daquela paixão desgraçada. Mas a sensação de ter me livrado dela foi tão marcante que, se alguém pedir que eu descreva a palavra “liberdade”, direi que é o que senti no momento em que me vi livre daquele tormento.

Mesmo após a “liberdade” – que seria perdida ainda muitas outras vezes, e por mais de sete dias – eu continuei considerando o dia 5 de janeiro de 1998 como o pior da minha vida. Era um verdadeiro dogma para mim. Mesmo que eu passasse por outros foras, jamais haveria um dia tão terrível.

Bom, era o que eu pensava até o…

1. Inter 1 x 0 Barcelona (17/12/2006)

Na véspera do (agora sim!) pior dia da minha vida, fui tomar um chopp no Boteco Natalício. Bebi com meu amigo Diego, gremistaço. E já o convidei para que na manhã do dia seguinte, fosse olhar o jogo decisivo do Mundial de Clubes – digo, secar o Inter – na minha casa. Ele disse que ia: “vamos fazer uma corrente pró-Barcelona!” – já sabíamos que o meu irmão, colorado mais chato da face da Terra, não estaria lá, iria assistir o jogo junto com colorados.

Na manhã daquele domingo terrível, já fazia um calor insuportável. Oito da manhã, e a temperatura já devia estar em 30°C. Porra!

O Diego não me surpreendeu e chegou atrasado, o jogo já tinha começado. Formamos os três – minha mãe, ele e eu – a “corrente pró-Barcelona” que mais honestamente pode ser chamada “anti-Inter”.

Mas nem nos preocupávamos muito, considerando os resultados da semifinal. Afinal, o Inter sofrera um bocado para ganhar do Al-Ahly do Egito, enquanto o Barcelona metera 4 a 0 no América do México ao natural. Seria mais tranquilo do que se imaginava.

O primeiro sinal de preocupação veio quando o juiz apitou o fim do primeiro tempo. O Barcelona não marcara sequer um gol! Aquilo não estava certo. Não era normal.

Veio o segundo tempo. Tínhamos esperanças de que o Barça acordasse e desandasse a marcar gols. Confiávamos no Clemer: ele não tinha levado o frango da vida dele na final da Libertadores, para levar na do Mundial.

Mas as coisas não mudaram. Na verdade, pioraram. Sentimos que a situação estava feia quando em um lance o Barcelona fez cera e foi possível ouvir os colorados gritando “Timinho! Timinho!”. Era o fim do mundo! Se eu fosse religioso, na mesma hora ajoelharia e começaria a rezar…

Senti um pouco de esperança quando vi o anúncio de uma substituição: saiu Fernandão, entrou Adriano Gabiru. Ou seja: saía o melhor do Inter e entrava o pior… Agora as coisas iam dar certo! Avante Barça!

Porém, alguns lances depois…

Ainda haveria uma chance. Não apenas do Barcelona, como também de Ronaldinho. O ex-ídolo gremista poderia se redimir com a Nação Tricolor. Era uma falta daquelas, do jeito que ele gosta.

Não entrou. A bola passou a centímetros da trave. De raiva, mutilei meu livro “Até a pé nos iremos”, do Ruy Carlos Ostermann: arranquei aquelas páginas que falavam sobre o Ronaldinho (o livro foi escrito em 2000), amassei e joguei no lixo, gritando “dentuço traidor!”.

Restava a esperança chamada “Clemer”. Ainda havia tempo para ele levar o frango da vida dele. Mas não aconteceu.

Terminou o jogo, desliguei a televisão. Cinco segundos depois, tocou o telefone. O “bina” me salvou do que seria a primeira flauta: era o meu amigo Antonio – mas na hora eu não pensei que ouvir gozação dele não seria o pior daquele domingo maldito…

Foi pouco depois que eu lembrei do perigo chamado “Vinicius”. Àquela hora, o meu irmão já devia estar rumando à Goethe, para encher a cara de cerveja – que cairia muito bem naquele calor escaldante. Mas pensei que em algum momento ele voltaria para casa louco para se vingar de todos aqueles anos que passara me ouvindo dizer “meu time é campeão do mundo e o teu não!”. E decidi que não queria estar em casa, de jeito nenhum, no momento em que ele abrisse a porta. Desliguei o meu celular e disse para o Diego: “vamos sair daqui!”.

E fomos para a rua. O cenário era apocalíptico. Calor de quase 40°C, e colorados felizes da vida dizendo que eram campeões mundiais. Algo pelo qual eu não passara nem em meu pior pesadelo.

Vagamos pelas ruas ferventes de Porto Alegre. Devo ter perdido uns 10 litros de água só em suor. Escapávamos da flauta por uma sorte incrível: o Diego disse que quase vestiu a camisa do Grêmio para ir ver o jogo na minha casa…

Agora, pavor mesmo eu senti quando passamos pela Praça da Matriz. Aí eu vi que as coisas não estavam certas. Olhei para o Palácio Piratini, e no lugar da bandeira do Rio Grande do Sul estava uma enorme do… Inter!

- PORRA, ELES TOMARAM O PODER! – exclamei apavorado para o Diego.

Passei aquela tarde entre o calorão da rua, e o ventilador na casa do Diego. Pensando em como me adaptar aos novos tempos. Minha visão de mundo havia sofrido um abalo realmente histórico. Afinal, eu passara praticamente toda a vida sendo torcedor do único clube campeão do mundo no Rio Grande do Sul. Era um dogma tão rígido quanto… Dizer que o 5 de janeiro de 1998 fora o pior dia da minha vida.

A maioria dos meus valores caiu naquele 17 de dezembro de 2006, que superou o 5 de janeiro de 1998 no quesito “esse dia foi uma MERDA!”. Cantar que o Inter nunca tinha ganhado de ninguém, que não fazia jus ao nome (deveria mudar para “Estadual” ou “Municipal”), que era um time desconhecido… Se tornava, naquele “dia de cão”, passado.

Restava apenas o consolo de que o Grêmio continuava a ser maior, por ter duas Libertadores. E a esperança de que logo se confirmasse que o título mundial vermelho era uma zebra das grandes (obrigado, Veranópolis!).

Por volta de seis da tarde, tomei o caminho de volta para casa, me sentindo como se estivesse no corredor da morte, rumo à cadeira elétrica. Torcia que o meu irmão já estivesse cansado, que não me incomodasse muito. Afinal, já haviam se passado oito horas do final do jogo. De repente ele tinha tomado o “porre da vida dele”, e estivesse dormindo, rumo à ressaca.

Ele estava acordado quando cheguei. Mas, de fato, cansado. Minha estratégia deu certo! Aliás, foi a única coisa que deu certo naquele dia!

Quando eu “liguei a enxuta”

Depois da hilária série “Top 10 – Humilhações”, com posts sobre os maiores vexames dos grandes clubes brasileiros, o Impedimento lançou uma nova, dedicada apenas ao que o torcedor mais faz no futebol, além de torcer: secar.

Cheguei a fazer uma lista preliminar das minhas maiores secadas, mas agora a completo. E boa parte das referentes ao Inter é dessa década: afinal, os anos 90 foram gremistas, não era preciso secar muito… Era muito fácil o Inter perder quando os colorados mais acreditavam naquele ditado de que “agora, vai”.

Vale a pena chamar a atenção também que não só o Inter foi alvo da minha secação, como vocês verão – e elas nem sempre aconteceram por motivos meramente futebolísticos. Mas nenhum time foi mais secado do que o da beira do rio, afinal, eu tenho “inimigo na trincheira”: modéstia a parte, eu sou um herói por aguentar o meu irmão Vinicius (colorado mais chato da face da Terra) por tanto tempo sem lhe dar sequer um soquinho. Creio que a melhor maneira de suportar isso é… Secando!

Então, vamos ao meu “Top 10 – Secadas”.

10. Flamengo 1 x 0 Inter (13/12/1987)

Eu assisti o jogo decisivo do Campeonato Brasileiro junto com o meu pai e o meu irmão, os dois colorados. Se bem que o meu irmão tinha só 2 anos e meio, assim, ainda não incomodava.

Não que tenha sido uma grande secada, mas é a mais antiga que eu lembro, então precisa estar na lista.

9. Bragantino 1 x 0 Inter (24/11/1996)

Essa entra não tanto pela secada, e sim pelo “ato coletivo”.

Jogavam Grêmio e Goiás no Estádio Olímpico, e ao mesmo tempo, Bragantino e Inter em Bragança Paulista. Já classificado para as finais do Campeonato Brasileiro, o Grêmio jogou um dos piores primeiros tempos que já vi (provavelmente foi o pior daquele glorioso ano de 1996), foi para o intervalo levando 3 a 0, debaixo de vaias. Um vexame digno do “Top 10 – Humilhações” parecia se anunciar. Mas aquele era o Grêmio do Felipão. Sabe-se lá que impropérios o treinador falou no vestiário, mas o time voltou melhor no segundo tempo, e até fez um gol. O Goiás seguia na frente, com 3 a 1 no placar.

Porém, naquele momento a atenção se voltava a Bragança Paulista. O Inter precisava vencer um adversário já rebaixado para também ir às finais – se empatasse dependeria de resultados paralelos (dentre os quais, uma vitória do Grêmio seria bem-vinda). Os colorados já se sentiam jogando em Tóquio em dezembro de 1997. Só esqueceram de avisar o Bragantino, que venceu por 1 a 0.

No Olímpico, o jogo já era burocrático: o resultado era bom para o Goiás, que se classificava; e o Grêmio só esperava seu adversário nas quartas-de-final. E ainda por cima, o Inter estava fora. Numa jogada de mestre, o responsável pelo placar do Olímpico fez com que o letreiro passasse a exibir os dizeres “TORCEDOR GREMISTA, ‘ELES’ ESTÃO FORA”. Assim os gremistas que já pensavam em vaiar o time ao final do jogo (até eu vaiaria!), saíram do estádio felizes da vida, cantando músicas que debochavam dos vermelhinhos.

8. São Caetano 5 x 0 Inter (13/12/2003)

Eu não vi, não ouvi, nem prestei atenção em boa parte deste jogo da última rodada do Campeonato Brasileiro. Tinha uma atividade no PT (velhos tempos de filiado no PT…) que começava aproximadamente junto com o segundo tempo. Quando saí de casa e me dirigi à avenida João Pessoa, o São Caetano já vencia por 1 a 0.

O fato de não ter prestado atenção não queria dizer que eu não desejasse ardentemente a derrota vermelha. Afinal, bastava um empate para o Inter se classificar para a Libertadores de 2004. Um pontinho apenas, e eles fariam o que não conseguiam desde 1993. Seria um péssimo final para o ano do centenário gremista.

Eu também havia sido convidado para ir a uma pizzaria, comemorar o aniversário de uma amiga. A princípio eu não iria. Porém, quando recebi uma mensagem da minha mãe, me informando que o São Caetano havia vencido por 5 a 0, minhas convicções políticas foram vencidas pela fome – estomacal e “flauteal”. Informei que teria de sair, peguei um ônibus e me mandei para a pizzaria. Cheguei lá, e antes mesmo de cumprimentar a aniversariante, mostrei uma mão aberta a um amigo, primo dela, que era colorado…

Ainda bem que no dia seguinte o Grêmio fez 3 a 0 no Corinthians e se livrou do rebaixamento, se não toda essa diversão da véspera teria sido em vão.

7. Fluminense 2 x 1 Inter (01/09/2004)

Sequei muito, mas não adiantou. O Fluminense venceu o Inter por 2 a 1… PERAÍ??? Não tá errado esse troço???

Não: naquela noite, secar o Inter era… Torcer pelo Inter!

O técnico do Inter era Joel Santana. Desde que fora contratado, já se dizia que não daria certo, seu estilo não combinaria com o “futebol gaúcho”.

E de fato, não deu certo. Joel assumiu o time em 6º lugar no Campeonato Brasileiro, e já estava em 18º. Alguns já diziam que ia conseguir acabar atrás do pior Grêmio de todos os tempos. Se perdesse para o Flu, “tchau tchau, Joel”. Se ganhasse, seria ótimo para nós gremistas: o técnico ganharia uma sobrevida, e depois perderia mais umas três ou quatro partidas… Mas, por perder aquela, acabou demitido.

6. Inter 0 x 4 Juventude (02/06/1999)

Algumas horas antes daquele jogo, eu comentei com uma colega do curso de espanhol que eu fazia, colorada: “o Inter não vai perder hoje, vai ser 2 a 2″. De fato, era o que eu torcia que acontecesse, não imaginava uma vitória do Juventude no Beira-Rio. O empate com gols classificaria o Ju para a final da Copa do Brasil, já que o jogo de Caxias havia acabado em 0 a 0.

Tamanho pessimismo antes do jogo fez com que eu soltasse gargalhadas ao final da partida. Principalmente ao lembrar do meu irmão, sempre confiante, que estava no estádio assistindo àquele baile… É bom demais o Inter dar vexame e o meu irmão assistir ao vivo!

5. Inter 0 x 1 Cruzeiro (13/11/2002)

Penúltima rodada do Campeonato Brasileiro. O Inter estava na zona do rebaixamento, e precisava vencer para não colocar o pé na cova. Os colorados lembravam o jogo contra o Palmeiras, em 1999. Havia uma imensa mobilização deles.

Que não deu certo. O Cruzeiro venceu por 1 a 0, alguns jogadores do Inter já falavam em ficar para jogar a Segundona em 2003, de tão certa que era a queda. No bom e velho portão 8, muitos protestos, e muitas lágrimas.

Em casa, meu irmão tão quieto, mas tão quieto, que chegava a assustar. Nem cheguei a flautear na hora. Decidi guardar as energias para a última rodada.

Eu tinha tanta certeza, que nem fiz força para secar no último jogo, Paysandu x Inter. Já previa uma Série B 2003 com Palmeiras, Botafogo e Inter: apenas dois subiam, assim sobraria um grande para ficar mais um ano no purgatório. Mas eu não contava com a, no mínimo, amarelada do Paysandu, diante de sua torcida em Belém do Pará.

4. Irã 2 x 1 Estados Unidos (21/06/1998)

Esse era o jogo mais aguardado da primeira fase da Copa do Mundo de 1998. Afinal, reunia dois países que estavam há quase 20 anos sem relações diplomáticas. Rivalidade extra-campo entre duas seleções sem tradição no futebol.

Não era admirador do regime teocrático do Irã. Mas também detestava os Estados Unidos e sua política imperialista. Como não eram as palavras em persa que aos poucos iam se incorporando ao dia-a-dia do Brasil, ficou óbvio para quem – ou melhor, contra quem – eu torceria.

E de fato, sequei os Estados Unidos. Bastante no jogo contra o Irã – com direito a muita vibração nos gols iranianos – mas também em toda a primeira fase da Copa do Mundo. A seleção dos EUA perdeu seus três jogos (Alemanha, Irã e Iugoslávia) e ficou em último lugar na Copa.

3. Palmeiras 1 x 2 Cruzeiro (19/06/1996)

Quando um clube brasileiro disputa a decisão da Libertadores contra um estrangeiro, o doutor em Física Galvão Bueno sempre diz: “fulano é o Brasil na Libertadores!”.

Naquela noite, o Cruzeiro, hoje “Brasil na Libertadores”, era “o Grêmio na final da Copa do Brasil”. Tudo porque na semifinal entre Grêmio e Palmeiras, o bandeirinha anulara um gol legítimo de Jardel. Fiquei com ainda mais raiva do Palmeiras – que eu considerava, à época, o verdadeiro rival do Grêmio, já que o Inter não ganhava nem torneio de cuspe.

E de fato, o Cruzeiro “foi Grêmio” naquela noite. Após a vitória de virada dos mineiros, um de seus jogadores falou que a Raposa havia “vingado o Grêmio”.

No dia seguinte, cheguei cedo à aula. Pouco depois, chegou meu colega palmeirense Giuseppe (que no dia anterior já se dizia campeão), com aquela típica cara de “tive uma noite terrível”. Chovia e fazia frio naquela manhã, tempo perfeito para se pegar uma gripe, então recomendei ao Giuseppe que tomasse um Energil-C: o nome do comprimido de vitamina C estampava a camisa do Cruzeiro campeão.

2. Inter 2 x 2 São Paulo (16/08/2006)

Às vésperas desse jogo, ouvi alguns gremistas falarem em um tal de “ser gaúcho”. O que justificaria… Torcer pelo Inter!

Claro que não engoli tamanha sandice. Afinal, se o São Paulo ganhasse a Libertadores pela 4ª vez, teria todo aquele destaque na televisão, etc., etc., mas a solução para isso era muito simples: desligar a TV. E os são-paulinos, salvo um ou outro perdido por aqui, estão em São Paulo. Já os colorados estão aqui, muitas vezes dividindo o mesmo teto – meu caso. Aguentá-los, não é para qualquer um.

A tarefa do São Paulo era complicada, mas não impossível. Precisava vencer por dois gols de diferença para ser campeão – se vencesse por 1 a 0 nos 90 minutos, haveria mais 30 de prorrogação. Havia esperança.

Que parecia se ir quando o Inter fez 1 a 0. Mas renasceu no início do segundo tempo, com o empate são-paulino. O Inter ainda faria 2 a 1, mas o São Paulo ainda buscou o 2 a 2, faltando poucos minutos – apavorando os colorados e enchendo de esperança os gremistas de verdade. Eu já vislumbrava o Clemer levando o frango da vida dele, e um Beira-Rio inundado de lágrimas.

Mas, o frango não aconteceu, e deu Inter, campeão da Libertadores pela primeira vez. Para escapar da flauta, tive uma boa ideia: cumprimentar os rivais, que ficaram bastante surpresos com minha atitude. Bastante compreensível, afinal, nem tudo estava perdido. Ainda.

1. Ih, cadê a 1???

Esta fica para um post a parte. Primeiro, porque este já está muito grande. Segundo, porque, de fato, merece um post a parte, só para ela.