Deixa eu ver se entendi

Antes o governo federal pretendia trazer médicos estrangeiros para suprir a carência em regiões pouco assistidas. As entidades de classe protestaram, um panfleto reacionário que se acha revista disse que os médicos cubanos seriam “espiões comunistas”. E no fim, o governo decidiu fazer diferente: vai priorizar a contratação de brasileiros; e a partir de 2015 quem cursar Medicina terá, obrigatoriamente, de prestar dois anos de serviço (bem remunerado, aliás) ao SUS para obter o diploma.

A ideia de levar os alunos em final de curso para trabalhar no SUS não é inédita. E nem é “coisa de comunista”: é inspirada no que foi feito no Reino Unido, que tem um dos melhores sistemas de saúde pública do mundo. (Em tempo: obviamente sei que não basta aumentar o número de médicos para melhorar a qualidade da saúde pública, mas tal melhora passa por isso.)

Então, começou a gritaria de novo. Agora, contra a obrigatoriedade de se trabalhar (repito, remuneradamente) no SUS por dois anos para receber o diploma. Não duvidem se daqui a pouco os mesmos que reclamavam dos médicos cubanos começarem a clamar pela vinda deles.

Pensar que eu adoraria iniciar uma faculdade sabendo que nos dois últimos anos do curso teria trabalho e (boa) renda garantidos pelo Estado sem a necessidade de prestar concurso público… Vá entender esses reclamões.

Esse papo de “Lula, vai se tratar pelo SUS” já encheu o saco

O câncer na laringe de Lula foi anunciado no último sábado. De cara, enquanto políticos de situação e oposição manifestavam solidariedade ao ex-presidente e desejaram-lhe sucesso no tratamento, alguns reaças começaram a comemorar, torcendo para que ele morresse rápido.

Não demorou para eles perceberem que queimaram muito o filme com essa. Afinal, gente que se diz “civilizada” não pode tratar adversários políticos como se fossem inimigos.

Logo, acharam uma outra maneira de tripudiar em cima da doença de Lula: com uma campanha para que ele tratasse seu câncer pelo SUS. E nessa, foram mais “bem-sucedidos”, pois a saúde pública no Brasil precisa, sim, melhorar, daí a sugestão para que o ex-presidente a utilizasse.

E é por causa disso que me decepcionei com pessoas que sempre considerei sensatas: aderiram sem pensar a essa campanha. Saíram por aí falando horrores do SUS, que ele é “horrível” e por conta disso Lula preferiria pagar por seu tratamento*. E mesmo os defensores do ex-presidente também cometeram uma cagada: disseram que quem critica Lula nunca usou o SUS.

Mas a verdade é que muita gente que enche a boca para dizer “o SUS é uma porcaria” muitas vezes o usa sem saber. Quem já foi atendido pelo Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, por exemplo, necessariamente usou o SUS. Lembro que 11 anos atrás uma garrafa de champanhe estourou “do nada” enquanto eu almoçava na casa da minha avó, o pedaço que voou caiu exatamente em cima da minha mão direita, me abrindo um talho daqueles. Peguei um táxi e me mandei para o HPS, onde tive um ótimo atendimento sem precisar desembolsar um único centavo naquele momento.

Aí alguém lembrará que foi um atendimento de urgência, que o problema é na hora de marcar uma consulta, muitas vezes só se consegue para muito tempo depois… Tudo bem, o SUS tem muitos problemas, e é preciso cobrar das autoridades as necessárias melhorias. Mas daí a dizer que todo o sistema é ruim, como essa campanhazinha imbecil sugere, é preciso ter muita inocência – ou cara-de-pau mesmo.

Ainda mais que o SUS não se resume apenas a atendimento médico. O(a) leitor(a) tem diabetes, hipertensão, esclerose múltipla ou outra doença incurável? Pois saiba então que tem direito a receber gratuitamente os medicamentos necessários para seu tratamento. Pelo SUS. A Farmácia Popular, lembra? É graças a ela que minha mãe não precisará ficar o resto da vida gastando dinheiro com remédios para a pressão alta que, 30 anos atrás, quase impediu que eu estivesse aqui para escrever este texto.

Mas, quem quiser continuar com essa campanhazinha babaca que já me encheu muito o saco, ao menos seja coerente, e peça para o prefeito de sua cidade largar o carro oficial e pegar um ônibus às 6 da tarde. Ah, e que isso se dê independentemente do partido ao qual ele é filiado, OK?

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* Tenho certeza absoluta de que, se Lula decidisse tratar seu câncer pelo SUS, os mesmos que estão enchendo o saco chamariam ele de “demagogo”, e reclamariam dele tirar a vaga de quem não pode pagar, enquanto ele tem dinheiro para fazer tratamento particular.

A “gripe canina”

Estou acometido de uma gripe, que ontem me causou febre de quase 40°C e calafrios que me faziam tiritar. Se hoje não estou 100%, ao menos não me sinto tão indisposto – mas ainda assim, a médica que consultei recomendou que eu não fosse trabalhar amanhã (hoje também não fui), pois de vez em quando a febre volta.

Se ficar doente é ruim, pior é “sentir na pele” a situação caótica da saúde em Porto Alegre. Hoje eu consultei em uma clínica perto de casa, mas de madrugada, na prática vale o “proibido ficar doente”. Como a febre não cedia, talvez fosse necessário buscar atendimento de emergência em um hospital – mas como chovia muito, era melhor ligar para diversos hospitais para ter garantias de que seria atendido, antes de sair para a rua.

Todos eles, sem exceção, estavam com suas emergências superlotadas, e alguns nem recebiam mais ninguém. Já em outros, o prazo de espera era de várias horas. Felizmente a febre baixou (por volta das 3 da manhã), e não foi necessário ir a um hospital.

Isso não é simplesmente consequência do inverno (época em que muita gente procura as emergências devido a problemas respiratórios). Falta é hospital em Porto Alegre, para atender a demanda. Tanto que em novembro de 2009, num dia quente, eu fui à emergência da Santa Casa devido a uma gastroenterite e esperei três horas para ser atendido – e soube que em outros lugares a espera era ainda mais longa.

E pelo que sei, não é só em Porto Alegre que a coisa está assim. O Brasil todo precisa de mais hospitais e uma saúde pública (SUS) de melhor qualidade. Não se pode submeter pessoas já doentes ao sofrimento de uma longa espera por atendimento (o que pode até agravar o quadro). Mas, como a prioridade é construir estádios para a Copa…