Vazio

Amava secretamente Carolina, que o convidou para ir a um bar naquele sábado juntamente com sua amiga Marina.

Certa hora, Carolina sumiu. Pensou que ela fora embora, mas quando olhou para o lado a viu deitada no chão do bar, dormindo. “Ela tem trabalhado demais, deve estar cansada”, pensou.

Foi embora cedo, deixando Carolina e Marina no bar. Porém, decidiu voltar e encontrá-las, ainda mais depois de ouvir, na rua, que a tropa de choque fora chamada.

Chegando ao local, a confusão já estava estabelecida. A polícia jogava bombas de gás lacrimogêneo na multidão, que corria para todos os lados. Membros de torcidas organizadas respondiam com paus e pedras. Desesperado, procurou Marina e, principalmente, Carolina em meio ao caos. Mas não as encontrou.

Depois de um tempo, enfim, viu Marina, que parecia chorar. Aproximou-se dela e uma mulher, que a acompanhava, se apresentou como sua professora. “Ela foi reprovada no exame”, disse a mulher. Querendo saber onde estava Carolina, tentou falar com Marina, que não quis parar e seguiu em frente, em passo acelerado.

Então seguiu vagando, vazio, pelas ruas já vazias.

“Efeito colateral” não me serve

Eventualmente, após o expediente, no caminho de casa paro em um bar, peço uma cerveja e uma torrada, e fico ali, refletindo. Não faço isso todos os dias, nem mesmo todas as semanas, mas a “tradição” vem de dois anos atrás, de forma que os garçons não só me conhecem como também sabem exatamente o que vou pedir. E até hoje, jamais pedi a segunda cerveja a cada parada, pouco importando a pressa ou o calor.

Fiz isso no final da tarde da quarta-feira. Na mesa ao lado, estava um grupo de pessoas discutindo política – mais especificamente, a repressão policial às manifestações de junho. Notei que as opiniões não coincidiam: havia os que criticavam a ação policial por atingir pessoas que não praticavam vandalismo, e outros que defendiam porque “na hora não tem como distinguir”.

Quando estava quase indo embora, um dos caras começou a falar sobre a ação do Bope na Favela da Maré, no Rio de Janeiro, que deixou nove mortos entre os dias 24 e 25 de junho. Ele falou sobre as mortes e as críticas sofridas pelos policiais devido às mortes, em especial de pessoas que não tinham nenhuma ligação com grupos criminosos. Segundo o cara, tratava-se de “efeito colateral”, pois se, supondo, um inocente havia morrido, a morte de oito “bandidos” resultou em muitas vidas inocentes poupadas. Dessa forma, estaria justificado o crime cometido pelo Bope.

Sim, crime. Pois se matar é um ato criminoso, isso vale também para a polícia. Ela é o “braço armado” do Estado, tem a função de nos proteger. E essa história de “matar um para salvar dez” não me serve. É fácil acreditar que dessa forma a polícia protege inocentes de serem mortos por criminosos, simplesmente ignorando que ela assassina muitos outros. Se é para realmente proteger, não pode matar, ponto. (A não ser em legítima defesa, o problema é que aí ela provavelmente servirá de “justificativa” para inúmeras ações policiais criminosas: é capaz de argumentarem que pedras eram uma ameaça mortal a uma tropa armada com fuzis.)

Não cheguei a dizer ao cara a minha opinião, pois realmente já estava de saída. Não acompanhei o restante da discussão. De qualquer forma, fica registrado o que eu penso. Se estou doente, quero um remédio que me cure, e sempre procurarei escolher o que não me cause efeitos colaterais ou que eles sejam mínimos. Se um medicamento que causa sonolência é ruim, o que dizer de um que resulta em morte?

Carandiru, 20 anos depois

Ontem completaram-se 20 anos do Massacre do Carandiru, quando a Polícia Militar de São Paulo invadiu a Casa de Detenção para terminar com uma rebelião. A repressão, comandada pelo Coronel Ubiratan Guimarães, acabou com o motim, e também com a vida de 111 presos.

Até hoje, ninguém foi responsabilizado pelo massacre. O mais perto que se chegou disso foi com a condenação do Coronel Ubiratan, em 2001; porém, a sentença foi revista e ele acabou absolvido em 2006 – mesmo ano em que foi assassinado. No próximo mês de janeiro, outros 28 policiais acusados de participarem do massacre finalmente irão a julgamento.

Graças à impunidade, a violência policial no Brasil continua sendo a regra, e não a exceção. Foi o que vimos em Eldorado dos Carajás no dia 17 de abril de 1996, quando a Polícia Militar do Pará matou 19 sem-terras (massacre igualmente impune); e também nos Crimes de Maio de 2006, quando a PM de São Paulo assassinou centenas de pessoas suspeitas de terem participado dos ataques do PCC. Aliás, a mesma PM paulista matou 229 pessoas apenas no primeiro semestre de 2012.

Mas, se a impunidade revolta, pior ainda é ver gente que concorda com o que aconteceu naquele 2 de outubro de 1992. Tanto que o Coronel Ubiratan chegou a ser eleito deputado estadual em São Paulo. Só que tem mais. Basta acessar as notícias sobre os 20 anos do massacre em vários portais para se deparar com uma grande quantidade de opiniões nauseantes, dizendo que “deveriam ter matado todos”, defendendo que a polícia sempre “desça a porrada e mande bala nos vagabundos” (só torça para que a PM não ache que você é o “vagabundo”).

Em vários destes comentários sobre o massacre se lê as palavras “limpeza” e “faxina”, que sempre foram usadas para “justificar” genocídios: o Holocausto consistiu no anseio nazista de “limpar” a Alemanha, eliminando as “raças inferiores”; o Império Turco-Otomano também quis fazer uma “faxina” durante a Primeira Guerra Mundial e assim exterminou mais de um milhão de armênios; em Ruanda, os extremistas hutus consideravam os tutsis como uma “praga social” e assim decidiram fazer, claro, uma “limpeza”, que resultou em quase um milhão de mortos entre abril e julho de 1994.

Ah, se fosse na Venezuela…

Hoje pela manhã, um grupo de policiais foi ao DCE da USP para “pedir” aos alunos que deixassem o local devido a uma (suposta) reforma a ser empreendida pela reitoria (à qual os estudantes se opõem, assim como à presença da PM no campus). Um policial “achou” que um dos jovens presentes – coincidentemente, o único negro – não era aluno da USP, e “pediu” para que se identificasse. O estudante recusou-se a mostrar sua carteirinha ao PM e por isso foi agredido pelo mesmo, que ainda por cima sacou sua arma e a apontou para o jovem.

Depois, o mesmo policial tapou sua identificação no uniforme e recusou-se a dizer seu nome aos estudantes que o questionavam. Ué, mas o aluno agredido não o foi por não querer se identificar? Achei que a polícia deveria dar exemplo, e não adotar a filosofia do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” para reprimir utilizando-se do argumento “minha autoridade foi desacatada!”.

Nos comentários dos vídeos no YouTube, claro, os fascistas de sempre vomitam os mesmos bostejos. “Bando de maconheiros, tem de dar porrada mesmo!”, “vão estudar, vagabundos”, etc., etc.

Agora, imaginem se isso tivesse acontecido na Venezuela, com a polícia agredindo gratuitamente estudantes por eles protestarem contra o governo de Hugo Chávez…

Sobre a truculência na USP

Já li muito sobre a ocupação da reitoria da USP por cerca de 70 estudantes, retirados à força pela Polícia Militar na madrugada de segunda para terça, em cumprimento de ordem judicial.

Sobre a ocupação em si, ficou difícil formar uma opinião. Nada mais autoritário do que a polícia fazer revistas até nas portas das bibliotecas em busca de drogas e deter três estudantes por portarem maconha, quando isso não é crime desde 2006. Afinal, o reitor da USP não dizia que a presença da PM no campus era para dar mais segurança aos alunos? Que porra de “segurança” é essa, que detém cidadãos por algo que não é mais passível de detenção? Se o objetivo é combater o tráfico de drogas, não seria mais lógico prender o traficante, ao invés do usuário? Mesmo que a criminalidade no campus tenha caído com o policiamento (conforme afirmam os defensores do convênio entre a reitoria e a PM), se os alunos têm de se preocupar não só com os assaltantes, como também com a polícia, não há segurança.

Porém, ao mesmo tempo, a ocupação da reitoria não tinha legitimidade, visto que foi obra de parte vencida dos estudantes que ocupavam a Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas (FFLCH) em protesto contra a presença da PM no campus. Este grupo votou contra a desocupação da FFLCH, na noite de 1º de novembro. Derrotado na assembleia estudantil, decidiu ir para a reitoria…

Ainda assim considero inadmissível, em um país que se diz democrático, ver policiais apontando armas para estudantes já rendidos. E também pergunto onde está todo aquele efetivo (segundo a própria PM, foram 400 policiais) para cumprir sua verdadeira função, que é de dar segurança à população. Não só em São Paulo, como em qualquer outro lugar do Brasil (e mesmo do mundo), nunca falta polícia para reprimir manifestantes, estudantes etc.

E mesmo que a PM estivesse cumprindo ordem judicial, sua ação foi truculenta. Aliás, não esqueçamos que a repressão da ditadura militar não era obra apenas de agentes que agiam à margem do Estado para auxiliá-lo: quando a polícia reprimia manifestações, o fazia para “cumprir a lei” da época.

A propósito: não parece que o Brasil mudou muito pouco de 1985 para cá? Em algumas coisas, na verdade não houve nenhuma mudança.

Polícia violenta é pior do que criminoso

Concordo totalmente com o que disse o Hélio Paz em post sobre a violência da Brigada Militar contra torcedores do Grêmio que ficaram do lado de fora do Olímpico com os ingressos na mão, impedidos de assistirem Grêmio x Cruzeiro, supostamente por não haver mais lugares no estádio. (Eu estava lá dentro e garanto que ainda havia espaço, principalmente nas cadeiras, setor onde muitos proprietários – ou seja, que têm seu lugar marcado, inclusive com seus nomes gravados nas cadeiras – não puderam ingressar.)

A função da polícia é dar segurança aos cidadãos. Porém, quem nos defenderá quando é ela que comete atos criminosos? Teremos de chamar o ladrão? O Hélio disse tudo: “uma polícia aloprada é muito mais perigosa para a sociedade do que delinquentes”.

Porém, como o que não falta no mundo é demência, há gente a defender polícia violenta, que bate (ou até atira) primeiro, e pergunta depois. Provavelmente muitos dos agredidos quinta-feira no Olímpico fossem assim – espero que, depois dessa, pelo menos mudem de opinião.

O tal de “dia sem impostos”

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Segunda-feira, teve venda de “gasolina sem impostos” em um posto de Porto Alegre. Uma enorme fila de carros se formou, em busca da gasolina com “seu verdadeiro preço”.

Verdadeiro? Sim, pois é assim que a elite (que diz não precisar do Estado, mas não hesita em correr para pedir socorro a ele quando a “mão invisível” do mercado se machuca) e sua fiel escudeira classe mérdia pensam. Qualquer imposto é maléfico. Aliás, a classe mérdia acha que a vida dela é um inferno por causa “de tanto imposto”, mesmo que sejam os mais pobres os que, proporcionalmente, paguem mais impostos.

A raiva dos “de cima” se deve ao fato de que eles não precisam de muitos serviços públicos, sustentados pelos impostos, já que podem pagar para que a iniciativa privada lhes forneça o mesmo. Mas, como qualquer cidadão, têm de pagar os tributos – ajudando, assim, a manter os serviços públicos em funcionamento, mesmo não precisando deles.

Pode parecer uma estupidez pagar por algo que não se usa. Será? Pense então, por exemplo, no plano de saúde privado.

Quem gosta de ficar doente? Em sã consciência, ninguém. Mas, o plano de saúde privado serve para combater a enfermidade. Quem paga, gostaria de jamais usar – mas, vez que outra, acaba precisando. Poderia até pensar em não pagar, pois raramente fica doente, é dinheiro que não vale a pena etc. Então, que experimente ficar doente e pagar uma consulta particular…

Mas, e se não há dinheiro nem para o plano de saúde privado? Bom, todos temos direito a um público, graças ao pagamento de impostos: o SUS. O serviço muitas vezes deixa a desejar, pode e precisa melhorar, mas está lá à nossa disposição quando precisarmos dele.

O mundo sem impostos com o qual sonham os “de cima” não teria SUS. Mais: não teria asfalto para os motoristas acelerarem seus carros abastecidos com gasolina “sem imposto”, universidade pública (cujas vagas são, curiosamente, desejadas até pelos antiimposto), polícia etc.

A propósito: por mais que se pague por segurança particular, que eu saiba é só a polícia  – bancada por todos nós, com o pagamento de impostos – que tem autoridade para prender um criminoso. E quando há aumento da violência, uma das “soluções” na visão dos antiimposto é… Mais polícia!