Quando a Lua triunfar sobre o Sol

89 dias atrás, era 23 de setembro. Início da primavera mas ainda com cara de inverno, vestíamos casacos. Parece que foi ontem.

Agora, é 21 de dezembro, começa o verão. Mas, dentro de 89 dias, será 20 de março. Parece que é amanhã. Então, o outono é logo ali, e não demorará tanto para, enfim, as noites serem mais longas e a Lua triunfar sobre o Sol.

Aliás, o que seria da poesia se não existissem as noites e a Lua?

Os 100 anos de Vinicius de Moraes

Meu irmão, nada poético em dias de Gre-Nal (caso deste domingo), deve o nome ao poeta Vinicius de Moraes, cujo nascimento completou 100 anos ontem. Quatro anos após meu nome ter sido escolhido pelo meu pai e – literalmente – referendado em uma votação familiar realizada em Rio Grande, foi a vez da minha mãe escolher; meu pai, fã do poetinha, sequer pensou em fazer alguma ressalva.

Além de genial poeta e compositor, Vinicius de Moraes era também um boêmio inveterado – só o fato de considerar o uísque como “cachorro engarrafado” dá uma ideia do quanto apreciava a bebida. E isso resultou em histórias sensacionais, algumas delas contadas pelo meu pai no almoço de sábado.

A primeira delas, é sobre uma surreal entrevista à televisão, gravada na manhã seguinte a uma apresentação aqui em Porto Alegre. O repórter foi encontrá-lo no hotel, e Vinicius logo pediu uísque. Ao final, ambos estavam completamente bêbados, e o mais incrível: a entrevista foi ao ar!

Outra, aconteceu em uma apresentação de Vinicius em Pelotas. Boêmio que era, seu palco contava com uma mesa de bar, e sobre ela uma garrafa de uísque (óbvio…), um cinzeiro e cigarros. Num intervalo, um jovem decidiu subir no palco e pegar como lembrança do espetáculo justamente a garrafa que ainda tinha um pouco de uísque. Quando Vinicius retornou, anunciou que a apresentação não continuaria caso a garrafa não fosse devolvida. Ofereceram outra, da mesma marca, mas ele foi irredutível: queria aquela que antes estava na mesa, para terminar de bebê-la e só então abrir uma nova. O jovem que subiu no palco, temendo levar uma surra, não teve coragem de devolver a garrafa e o espetáculo foi realmente encerrado…

Sobre querer escrever poesia

O Cão surgiu como poema. Mas sempre se caracterizou pela prosa.

Não quer dizer que eu nunca mais tenha feito nada de poesia. O problema é que raramente transfiro pensamentos aleatórios para o papel (de verdade ou virtual) na hora que me vêm na cabeça. Penso em fazê-lo depois e… Lá se foi.

Outras vezes, até passei as palavras para a folha. Porém, deixei guardadas ali, sem publicar. Passou o tempo, li novamente, achei ruim e descartei sem saber a opinião de mais ninguém. Um erro, sei.

Algumas vezes sento defronte ao computador e decido que vou escrever poesia. E aí mesmo é que fica uma porcaria (isso quando sai alguma coisa), sem espontaneidade alguma. Tento fazer com que as palavras “façam sentido”, fiquem encadeadas em uma sequência supostamente lógica, e o pensamento em prosa sufoca o poema.

Bom, agora vou procurar andar sempre com papel e caneta. Melhor não anotar no celular, pois não quero que me roubem as palavras.

Quatro anos de Cão Uivador

Quatro anos é o tempo que separa duas Copas do Mundo, duas edições dos Jogos Olímpicos (“olimpíada” era o termo grego que designava este período)… É também a duração dos mandatos eletivos no Brasil (exceto os de senadores, que duram oito anos) e em vários países.

E, hoje, é também o tempo de existência do Cão Uivador, surgido no final da tarde do dia 14 de maio de 2007, de uma conversa que tive com o meu pai. Eu já tinha um blog, chamado Kardía (êta criatividade para nomear um blog…), que criei em 2005 e já no ano seguinte pensava em mudar pelo menos o nome, para que ficasse com uma cara menos “pessoal” – embora, sendo escrito apenas por mim, obviamente continuasse a ser pessoal. Mas me faltava uma ideia para nomeá-lo. Então o pai lembrou de um poema que escrevi em 21 de setembro de 1991, chamado “Cão Uivador Incolor” – e daí surgiu não apenas o nome do novo blog (decidi terminar o anterior), como a primeira postagem.

Alguém pode perguntar sobre o link para o blog antigo, só que o deletei em 2009. É que já não concordava mais com muito do que escrevi no Kardía (sem contar que achava os textos meio bobos, mal-escritos…). Mas, como andei relendo alguns daqueles textos (salvei no HD antes de mandar pro espaço) e notei que alguma coisa é possível de ser aproveitada, anuncio planos para o futuro próximo: algumas postagens “pré-caninas”…

Nesses quatro anos que se passaram, escrevi 1.129 postagens (contando com esta), que receberam 3.862 comentários, falando sobre os mais variados assuntos. Curiosamente, embora a origem do blog seja a poesia, raramente ela se fez presente aqui. Taí algo para ser implementado no futuro “canino”.

Outra coisa que também quero falar no blog é sobre alguma grande conquista do Grêmio sem precisar usar os verbos no pretérito. Logo nas primeiras semanas do Cão eu sonhei com a Libertadores de 2007, mas tinha um Riquelme no meio do caminho. No ano seguinte quase veio o Brasileirão, que conseguimos a façanha de perder. Depois, mais nada, exceto o Gauchão de 2010 – e, espero que amanhã venha o de 2011, mas é muito pouco.

Há também as utopias, que norteiam o pensamento deste que vos escreve. Justiça social, fim da discriminação, do preconceito, uma sociedade mais solidária e menos individualista… Ideais pelos quais, modéstia à parte, sei que fiz alguma coisa (embora ache pouco) nesses quatro anos – e pretendo continuar por não apenas mais quatro. Espero que, no dia em que este blog encerrar suas atividades (seja pelo motivo que for), tenhamos um mundo melhor que o de quando ele começou.

Por fim, obviamente não posso deixar de registrar meus mais sinceros agradecimentos a todos os leitores, que são a razão de existir do Cão. Afinal, sem ninguém para ler, um blog não tem como fazer alguma diferença. Um grande abraço, e muito obrigado!

A rima triste

Charge do Bier

Segunda-feira, 14 de março, foi o Dia da Poesia. Com todas as atenções voltadas para a luta do Japão contra a elevada radioatividade em suas usinas nucleares danificadas pela tsunami da sexta passada, ficava meio difícil lembrar de poesia.

Mas hoje, lembrei das aulas de Literatura no colégio, quando estudávamos o Parnasianismo (eu acho), aquela história de “rima rica”, métrica etc. Foi quando reparei numa rima triste: Hiroshima e Fukushima.

Em 6 de agosto de 1945, Hiroshima foi criminosamente destruída por uma bomba atômica dos Estados Unidos, sendo a primeira cidade a sofrer um ataque desta natureza – três dias depois, Nagasaki tornou-se a segunda e, felizmente, última. Já a usina nuclear de Fukushima não é a primeira a ter um acidente (apesar da gravidade da situação, ainda não é comparável ao que aconteceu em Chernobyl em 1986), mas demonstra que o Japão, único país que já sofreu ataques nucleares, não aprendeu muito com aquele terrível agosto de 1945.

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Em tempo: não sou um ferrenho adversário da energia nuclear, que permitiu alguns avanços na área da Medicina. Mas seu uso para gerar eletricidade, principalmente em países de considerável atividade sísmica como o Japão, deveria ser revisto.

O Brasil, então, não precisa de forma alguma ter usinas nucleares. Primeiro, por ser um país privilegiado em possibilidades de “energias limpas”, como a eólica e a solar: temos mais de 7 mil quilômetros de litoral, com bastante vento; e a maior parte do território brasileiro situa-se na zona tropical, que é a região do planeta onde a insolação é maior.

E em segundo lugar, pela tradição brasileira da enrolação, do “migué”. Como prova Fukushima, com a energia nuclear não se brinca. Em caso de acidente, “dar um jeitinho” não é a solução.

Porto Alegre no futuro

Em 2008, é assim (a charge é do Kayser):

surrodromo

Logo, provavelmente será assim: é permitida a participação em manifestações de pessoas com mais de 200 anos de idade, com autorização dos pais (só o pai ou só a mãe não vale).

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Tal futuro pode estar muito próximo mesmo. Leio que a Brigada Militar estaria preparando aparato repressivo para o dia 12, quando será votada na Câmara a alteração de lei municipal que atualmente inviabiliza o projeto Pontal do Estaleiro.

Talvez sejam apenas boatos para intimidar os cidadãos contrários a tal descalabro. Mas considerando o que alguns “nobres” vereadores andam dizendo, é de se ficar atento.

Ao mesmo tempo, a última coisa que podemos fazer é nos borrarmos. Não é a nós que a polícia tem que perseguir. Se tais informações – procedam ou não – nos deixarem com medo, eles vencem.

Boa lembrança em horas como essas é um belo poema de Eduardo Alves da Costa, com destaque para a segunda estrofe:

No caminho com Maiakóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

Dia da Poesia

Sexta-feira, 14 de março, foi o Dia da Poesia.

Embora este blog tenha começado com poesia, é a prosa que predomina aqui. Nada melhor do que, em comemoração ao Dia da Poesia, abrir espaço para ela.

Poeminha do contra

(Mario Quintana)

Todos estes que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Vento sul

(Rodrigo Cardia)

Sopra o vento sul
Trazendo o sinal do frio,
Vai levando a chuva embora,
Vem trazendo o sol de volta.

Sopra forte o vento sul,
Chegando às minhas paragens,
Trazendo novos ares,
Lá da terra dela.

Chega com tudo o vento sul,
Vento forte, vento destruidor.
Saiu da terra dela,
Para arrasar o meu coração.

E vai-se embora o vento sul,
Me deixando o frio e o sol.
Vai-se em direção ao norte,
Deixando para trás os pedaços de mim.

(Escrita em 28 de agosto de 2005)