O papa e a hipocrisia

Foi-se embora o papa Francisco. Em Guaratiba, ficou o prejuízo pelo fato dele não ter ido até lá – repetindo-se o que aconteceu em 1988 na cidade uruguaia de Melo e servindo de alerta para o que ainda virá. Mas segundo a mídia conservadora, o legado foi uma imagem de “simplicidade” e “preocupação social”.

Muito se destacou, desde que o argentino Jorge Mário Bergoglio foi eleito papa, seu estilo de vida “simples”, que incluía o hábito de usar o transporte público, fazer sua própria comida e ser torcedor fanático de futebol (é inclusive sócio do San Lorenzo de Almagro). A ideia de que é uma pessoa “igual a nós” causou encanto, e assim não falta gente se rasgando em elogios ao papa.

Chega a parecer que não existe mais ninguém que ocupe ou tenha ocupado cargos importantes e adota um estilo de vida “simples”. Nem é preciso pensar muito para nos lembrarmos do presidente do Uruguai, José Mujica: considerado o Chefe de Estado “mais pobre” do mundo, “Pepe” Mujica mora em sua pequena fazenda nos arredores de Montevidéu, dirige seu próprio carro (um Fusca ano 1987) e doa a maior parte de seu salário como presidente a ONGs que combatem a pobreza.

Foto: Marcello Casal Jr., Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr., Agência Brasil

Porém, aqui no Rio Grande do Sul temos também um exemplo de simplicidade no poder, chamado Olívio de Oliveira Dutra. Prefeito de Porto Alegre de 1989 a 1992, Governador do Rio Grande do Sul de 1999 a 2002 e Ministro das Cidades de 2003 a 2005 durante o primeiro mandato de Lula como presidente, Olívio jamais abriu mão de seus hábitos simples. Usava transporte público para ir trabalhar quando era prefeito, e ainda hoje é visto se deslocando pela capital sem seguranças, sem carro com motorista particular. Não é em qualquer lugar que se corre o “risco” de embarcar em um ônibus e sentar ao lado de alguém que já governou o Estado e foi ministro.

Em uma época na qual tanto se reclama dos políticos por “não nos representarem”, era para Olívio Dutra ser uma das primeiras lembranças, né? Porém, não é o que acontece. Pois ele foi alvo de uma campanha difamatória das mais sujas que recordo. Lembro da campanha eleitoral de 1998: muitos acusavam Olívio de ser “um bêbado”, por conta de seu hábito diário de tomar uma dose de cachaça no Bar Naval, um dos mais tradicionais do Mercado Público. Quem o acusava obviamente não era abstêmio: os mesmos que bebem uísque até cair em ambientes “finos” rejeitam quem toma a bebida típica brasileira – o que não é de estranhar, pois o que nossa elite mais odeia é justamente o Brasil.

Pior foi depois de Olívio ser eleito e assumir o governo. No final de abril de 1999, a Ford decidiu ir embora – e já está mais que provado que foi a empresa que decidiu partir, não o governo que a “expulsou” por querer renegociar um contrato que abriria um rombo nas já combalidas finanças do Estado. Mas não foi o que se disse na época: por muitos e muitos anos, se repetiu como um mantra a mentira de que “o Olívio mandou a Ford embora”. Não foram poucos os que acreditaram nisso, e o pior é que ainda há quem acredite.

E por isso, preferem idolatrar um religioso “simples” mas conservador (contrário ao aborto, à eutanásia e ao casamento homossexual), ao invés de pessoas que buscam a igualdade não só no discurso, como também na prática.

Grandes empresas privadas não precisam de incentivos fiscais

A Azaléia fechou sua unidade em Parobé, pondo “no olho da rua” 800 trabalhadores. Os motivos, são as famosas “reduções de custos”. E aí não entendem porque tanta gente quer trabalhar no serviço público… Afinal, na iniciativa privada se trabalha (bem) mais por um salário menor, e ainda com o risco de perder o emprego por “corte de gastos”.

Pior do que isso, é saber que a empresa já recebeu generosas verbas do Estado – ou seja, de todos os gaúchos. Pagamos, supostamente para “gerar empregos”, mas na verdade, apenas para que a Azaléia lucrasse mais por um tempo, e depois, alegando “perda de competitividade”, decidisse “cortar gastos”, ou seja, funcionários. Convenhamos: não é fácil demais reclamar da “interferência do Estado na economia” ao mesmo tempo em que se recebe milhões dele próprio?

Já li uma vez em algum lugar que o Brasil não vive um regime capitalista puro, pois se assim o fosse, apenas o “mercado” ditaria os rumos da economia. Num exemplo de como seria: se a tua empresa tá mal, o azar é teu, outra vai ocupar o teu espaço…

Porém, sou favorável a que o Estado dê algum incentivo às empresas que dele necessitem. Com a ressalva: que sejam pequenas, no máximo médias. Azaléias e Fords (lembram?) da vida, não precisam do nosso dinheiro, pois o que não falta a elas é grana.

Como os grandes empresários privados são geralmente os primeiros a reclamarem da “interferência do Estado na economia”, deveriam ao menos ser coerentes, né?

11 anos depois

Charge do Kayser

Nada como um dia depois do outro…

Por 11 anos, ouvimos os nossos (de)formadores de opinião repetirem, quase como um mantra, que “o Olívio mandou a Ford embora do Rio Grande do Sul” – uma estratégia goebbeliana, de que “uma mentira contada cem vezes torna-se verdade”.

Tento imaginar tudo o que eles passarão a dizer diante da notícia de que a Ford terá de indenizar o Estado do Rio Grande do Sul em 130 milhões de reais por rompimento do contrato – ou seja, porque foi a empresa que não cumpriu com suas obrigações, e não o Estado. A Ford recorreu, é verdade, mas o principal discurso dos direitosos contra Olívio Dutra está detonado.

Vale lembrar que “mandar a Ford embora” na verdade era “renegociar o contrato”. Pois este, assinado durante o (des)governo de Antonio Britto, previa amplos incentivos fiscais à montadora, além de investimentos por parte do Estado para a instalação da fábrica em Guaíba. Olívio, que na campanha eleitoral de 1998 prometera renegociar contratos assinados pelo (des)governo Britto que fossem lesivos às finanças do Estado, tomou posse e logo caminhou nesta direção.

E olha que a proposta do governo não era de cortar absolutamente todos os benefícios à Ford (os incentivos fiscais já concedidos, da ordem de 3 bilhões de reais, não seriam contestados, assim como a empresa não teria de devolver o dinheiro já repassado a ela). Apenas deixava claro que não ia comprometer ainda mais as finanças do Estado, como aconteceria se Britto tivesse sido reeleito.

A proposta do Governo do Estado, publicada na capa do Correio do Povo, edição de 29/04/1999 (dia seguinte ao anúncio da Ford de que não se instalaria no RS)

Por favor: isso aí é “pedir para uma empresa ir embora”? Só se ela for extremamente gananciosa. Ou, se por acaso havia uma “boquinha” melhor, como de fato acontecia: a Bahia, apoiada pelo governo federal (à época, o presidente era Fernando Henrique Cardoso) oferecia amplos benefícios fiscais para que a Ford se instalasse em Camaçari. E com o apoio de boa parte da bancada gaúcha no Congresso Nacional – o lado direito, é claro…

Se Olívio estava tão empenhado em “mandar a Ford embora” devido a “razões ideológicas”, por que a GM também não deu adeus ao Rio Grande do Sul? Simples: seu contrato foi renegociado e assim sua fábrica está funcionando em Gravataí há 10 anos.

Porém, o “estrago” já estava feito. Principalmente por parte da RBS. Dia após dia, seus principais (de)formadores de opinião repetiam que “o Olívio havia mandado a Ford embora”, que isso “era uma tragédia”, que o Rio Grande do Sul “tinha perdido muitos empregos” etc. Mesmo que o governo preferisse dar apoio aos pequenos empresários do Estado em detrimento dos grandes (que não precisam desse apoio), assim como à agricultura familiar (que produz muito mais do que o “agronegócio”, tão exaltado pela “grande mídia”). Insuflou-se um antipetismo tão forte no Rio Grande do Sul, que por duas vezes consecutivas candidatos sem projeto algum “caíram de paraquedas” no governo do Estado: Germano Rigotto em 2002; e o exemplo mais absurdo, Yeda Crusius em 2006.

Sem dúvida, ambos venceram graças ao antipetismo. Em 2002, o preferido da velha direita era Britto, mas sua alta rejeição (que provavelmente resultaria em derrota para Tarso Genro no 2º turno) fez os votos direitosos migrarem para Rigotto, que só concorria para que o PMDB tivesse um candidato próprio (Britto deixara o partido em 2001 junto com vários de seus apoiadores, dentre eles José Fogaça, que ingressaram com ele no PPS). Já em 2006 a coisa foi mais bizarra: Rigotto era candidato à reeleição, mas o PMDB temia um segundo turno contra Olívio (o que inevitavelmente resultaria na comparação entre os governos de ambos); assim, muitos votos que seriam de Rigotto foram para a tucana Yeda (que assim como Rigotto em 2002 era “franco-atiradora” – o PSDB no Rio Grande do Sul não é nem a quarta força) para “tirar o Olívio do segundo turno” – e aí quem ficou de fora foi Rigotto e os direitosos tiveram de eleger Yeda, bem pior.

O resultado, é o que todos vêem: corrupção, atraso, polícia repressora (no governo Olívio era raro dar pancadaria com a Brigada)…

Em seu post sobre o assunto no Somos andando, a Cris pergunta se alguém indenizará o Estado pelas eleições de Rigotto e Yeda que se deram graças ao anti-petismo baseado no “argumento” de que “o Olívio mandou a Ford embora”. Quem deveria fazer isso (pois sabemos que não acontecerá) é uma resposta pra lá de barbada…

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Como a Zero Hora não daria um “tiro no pé” que seria não noticiar a decisão contra a Ford, o jornal publicou, é claro. Mas no começo da matéria eles já trataram de desqualificar a fonte (o Sul 21), dizendo que Vera Spolidoro, sua editora-chefe, é ligada ao PT – ou seja, “parcial”. Óbvio, pois na ótica deles a imprensa não pode dizer de que lado está, tem de ser imparcial, como a RBS.

Guerra Fria guasca

Foi bem conforme previa o “fluxograma” desenhado pelo Kayser.

A capa da Zero Hora de ontem é uma pérola. Sobrou até pro Britto. Afinal, falam em “guerra fria” não só no governo Olívio, como também no do (des)governador (1995-1998). Bom mesmo, para a Zero Hora, são governantes que “não fedem e nem cheiram”, como Rigotto e Yeda. Ou, talvez, Fogaça…

Mas, não se iludam com a referência ao Britto: afinal, para a RBS a culpa é sempre do PT! Mais: é do Olívio, por “ter mandado a Ford embora”…

As observações do Kayser sobre a Zero Hora de ontem (clique para ampliar)

As observações do Kayser sobre a Zero Hora de ontem (clique para ampliar)

Ovos no Piratini

Hoje à tarde, em visita ao Museu da Comunicação Social Hipólito da Costa, consultei edições da Zero Hora de abril de 1999. Estou cursando na faculdade uma cadeira de seminário cujo tema é a mídia ao longo da História, e penso em fazer meu trabalho final sobre a cobertura da imprensa gaúcha em relação à decisão da Ford de construir sua fábrica em outro Estado – que lhe desse uma baita grana de mão beijada -, o que motivou inúmeros ataques da direita rio-grandense (a mídia incluída) ao então governador Olívio Dutra.

Logo no primeiro jornal que consultei, a capa me fez lembrar do episódio da chuva de ovos sobre o Palácio Piratini, em 31 de março de 1999. Deputados da oposição ao governo Olívio promoveram um protesto contra a decisão do governador de não conceder incentivos fiscais às montadoras de automóveis (GM e Ford) que haviam assinado contrato com o Estado durante o (des)governo Antonio Britto (1995-1998). Olívio queria que as montadoras ficassem no Rio Grande, mas os contratos deveriam ser renegociados. A GM cedeu, a Ford não, e em 28 de abril de 1999 anunciou a desistência de instalar sua nova fábrica no Estado.

No protesto de 31 de março de 1999, o governador ordenou à Brigada Militar que não interviesse. Não queria repressão. E fez mais: subiu no carro de som que os manifestantes – em sua maioria eram de Gravataí (onde a GM se instalou), Guaíba (onde era prevista a instalação da Ford) e Eldorado do Sul (município vizinho a Guaíba) – haviam levado para a frente do Piratini, e tentou explicar o motivo da não-concessão dos incentivos às montadoras. Foi intensamente vaiado pelos manifestantes, e ainda levou uma chuva de ovos. Olívio também foi atingido por uma lata de refrigerante, e então retirado do caminhão por seus assessores.

Os ovos atingiram não só o governador, mas também a fachada do Palácio Piratini, e o ato foi criticado até pela RBS. Paulo Sant’Ana elogiou Olívio Dutra em sua coluna, dizendo que comprovou ser “autêntico e corajoso” ao subir para discursar no caminhão de som dos manifestantes. Mas sobrou pra ele também: o Barrionuevo, aquele direitoso, chamou Olívio de “populista e autoritário”.

Não cheguei a consultar os jornais dos dias que se seguiram à saída da Ford. Me faltou tempo, quando os pedi o museu já estava fechando. Mas lembro do desespero das “viúvas da Ford”, como Rogério Mendelski, para quem uma chuva mais forte ou uma estiagem¹ (e teve estiagem no governo Olívio, nos verões de 1999 e 2000) eram todas culpa do Olívio, “que mandou a Ford embora”.

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¹ Durante a campanha eleitoral de 2006, o ex-governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto (2003-2006) disse que as estiagens dos verões de 2004, 2005 e 2006 atrapalharam sua administração, o que não teria acontecido no governo Olívio. Mas na edição de 8 de abril de 1999 de Zero Hora, há uma matéria sobre as chuvas que caíam no Estado por aqueles dias, que ajudaram a recuperar os níveis dos rios.