A origem do Dia Internacional da Mulher

Por muito tempo, ouvi a história de que o 8 de março era o Dia Internacional da Mulher devido a um acontecimento de 1857. Naquele dia, mulheres que trabalhavam numa fábrica teriam sido queimadas vivas por ordens do dono da empresa, em punição ao fato de estarem em greve. Inicialmente eu acreditava, mas depois de um certo tempo pensei que se o cara realmente fez isso, ele queimou não só sua mão-de-obra, como também as máquinas. E sabemos que, para um capitalista, nada pode ser mais importante que a produção: ele caga e anda para a mão-de-obra; agora, as máquinas…

E de fato, é possível que esta greve não tenha acontecido – ou não com um final tão trágico. De acordo com o blog Quem mandou nascer mulher?, não há registros históricos sobre tal acontecimento de 8 de março de 1857.

Já tinha lido que a escolha do 8 de março se devia a um acontecimento da Revolução Russa de 1917: sua primeira etapa, a “Revolução de Fevereiro”, começou nesse dia (23 de fevereiro pelo calendário juliano, utilizado pela Rússia naquela época), quando teve início uma greve de operárias têxteis, que saíram às ruas protestando contra a fome e a participação na Primeira Guerra Mundial (cujas trincheiras ceifavam muitas vidas). Só que, de acordo com o link que citei no parágrafo anterior, a escolha da data se deveu justamente ao fato de já ser, na época, considerada como Dia Internacional da Mulher.

Assim, a razão pela qual se considera o dia de hoje como Dia Internacional da Mulher permanece desconhecida. Agora, o que se sabe é o motivo de existir um dia dedicado às mulheres: a luta contra a exploração. Não é uma data comercial, para se dar rosas, como muitos fazem.

Seja pela tal greve de 1857 da qual falta documentação, seja pelas operárias russas de 1917, o que se percebe é que o Dia Internacional da Mulher está diretamente relacionado à luta contra o capitalismo – sistema que gera toda a exploração que elas enfrentaram, e ainda enfrentam*.

Logo, engana-se quem pensa que a luta das mulheres “é problema delas”. Nós, homens que defendemos um mundo mais justo, não podemos deixar de apoiá-las, e também devemos combater o machismo que ainda está enraizado em nossa sociedade (dentro de nós mesmos, muitas vezes). Até porque isso é prejudicial não só às mulheres, como até mesmo aos homens que não se encaixam no padrão de “masculinidade” que é socialmente imposto.

Ou seja, sem a superação do machismo, será impossível que se tenha uma sociedade mais justa.

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* Alguém pode lembrar que nos países ditos “socialistas reais” uma mulher jamais chegou ao poder, e é verdade. Porém, é bastante questionável a ideia de que aquilo era, realmente, socialismo: afinal, o regime que pregava a igualdade apenas criava uma nova elite dirigente, a burocracia do Partido Comunista (os “mais iguais” dos quais falava George Orwell em seu excelente “A Revolução dos Bichos”). E, como qualquer elite, ela era predominantemente masculina.

A crise da “blogosfera progressista”

Até agora, eu nada havia escrito sobre a “crise” que está rolando na “blogosfera progressista” (termo escolhido em votação durante o encontro acontecido em agosto, em São Paulo – particularmente, eu prefiro ser blogueiro “de esquerda” ou, melhor ainda, “sujo”). Não tinha escrito nada não por querer me manter “neutro” – o que, neste caso, significaria consentir com o machismo – e sim, por não ter pensado bem num texto (não queria escrever qualquer coisa).

O negócio começou com as queixas contra a pouca participação feminina na entrevista de blogueiros com o presidente Lula, mês passado: apenas uma mulher participou (Conceição Oliveira, via Twitter), e só quatro foram convidadas. Se ampliou quando Luís Nassif publicou em seu blog um comentário (depois transformado em postagem) de um cara que se referiu às feministas como “feminazis”, e demorou a admitir que errara. Se agravou quando Nassif enfim assumiu o erro: saiu pior que a encomenda, pois ele decidiu dividir as feministas entre “as de bom nível” e as “barraqueiras”. E descambou para a baixaria quando começou a haver acusações de que quem criticou Nassif queria “dividir a blogosfera progressista” (e sobre querer dividir as feministas, aí eles não falam nada, né?).

Ora, mas não é possível acontecer uma divisão, racha, porque nunca houve exatamente uma “unidade” – não há uma blogosfera, e sim, blogosferas. E mesmo cada uma destas blogosferas não é um “monolito”, afinal, cada blog é escrito por uma pessoa (às vezes, mais de uma), que não tem necessariamente a mesma opinião que os demais. O mais próximo que se chegou de uma “unidade” foi no 2º turno das eleições: os “progressistas” eram invariavelmente anti-Serra; mas ainda assim, não pensavam exatamente igual. Veio o 31 de outubro, Dilma venceu, e o principal fator em comum entre muitos blogueiros deixou de existir. Ou seja, ficou mais fácil que divergências evoluíssem para “bate-bocas virtuais”.

O pior de tudo, na minha visão, é que com o episódio do “feminazi”, havia se iniciado um debate acerca do machismo na esquerda; mas com os “alinhamentos” pró ou contra Nassif (que viraram “pró ou contra o termo ‘progressista’ – e na verdade nem era isso), a discussão deixou de se dar em torno de ideias, e passou a ser uma briga de egos. E é uma pena que tenha se tornado isso, pois discutir o machismo na esquerda é, sim, muito necessário. Muitos homens, por mais socialistas que sejam (ou digam ser), em algum momento de suas vidas agiram – ou agem – de forma machista, num reflexo da nossa sociedade, que é assim. O que nós homens de esquerda precisamos é reconhecer que também somos parte do problema, e lutarmos contra isso – para que se possa realmente mudar as coisas.

Outra lição que fica do episódio, aí num âmbito mais geral, é que quem escreve um blog tem necessariamente de aprender a lidar com a crítica*. Por favor, não dá para sair acusando qualquer um de ser “tucano” – alguns meses atrás, chegaram ao cúmulo de me chamarem de “babaca fascista apoiador do Serra” (sim, podem rir à vontade) no Twitter, por eu defender políticas de restrição ao cigarro. Isso só depõe contra a credibilidade do blogueiro, que reclama da falta de democracia na “grande mídia”, mas age de forma semelhante.

E dá munição aos direitoscos que afirmam que a esquerda é “inimiga da democracia”, já que além de ditadores que se diziam comunistas mas nas ações não eram muito diferentes dos piores tiranos da direita – como Josef Stalin, Pol Pot, Nicolae Ceausescu (inclusive, sua derrubada completa hoje 21 anos), dentre outros – eles ainda podem citar certos blogueiros que não aceitam contestação até mesmo de quem é de esquerda.

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* Obviamente que ao falar na necessidade de lidar com críticas, não quero dizer que condeno quem adote a moderação de comentários – eu mesmo faço isso. Pois é necessário barrar os trolls: a eles não interessa argumentar para promover um debate de bom nível, e sim atacar, “ver o circo pegar fogo”.

Nem todos os homens são ogros

O título deste post é claramente inspirado no que escreveu a Niara, questionando se, afinal, todos os homens são ou não ogros. E também atende ao chamado da Lola, para que os homens que não concordam com a violência contra as mulheres também façam a sua parte.

Bom, como diz o título, nem todos são ogros, e modéstia a parte, um exemplo disso é este que vos escreve. Mas é óbvio que não sou o único (já seria me achar demais).

O problema maior, é algo que cheguei a comentar com a Niara via Twitter alguns dias atrás. Lembremos dos tempos de colégio, principalmente ali do 2º Grau (tá bom, tá bom, Ensino Médio – é que estou ficando velho). A gurizada, de 15, 16 anos, que começa a querer “sair de noite”, “ir pra balada” (argh!). Os guris, geralmente, fazem isso por quê? É porque “querem pegar muitas!”, mostrar que são “machos”, “garanhões” etc.

Ou seja, desde jovens nós homens somos direcionados para a “ogrice”. Afinal, começa assim, com as mulheres sendo vistas como objetos que servem apenas para “pegar” e exibir, o que é também uma forma de violência – é a chamada “violência simbólica”. (Daí para acharem que elas podem ser suas “propriedades”, como se fossem objetos, é um passo… E bater em objeto não é problema, afinal, eles não sentem dor, né?)

Muitas mulheres acabam dando valor a caras desse tipo (os famosos “cafajestes”), é fato. O que não é “algo natural” nem “culpa delas”, como dizem, e sim construído, por conta daquela ideia que ainda é muito forte, de que o homem tem de ser “dominador” (se tiver dinheiro, então…), que acaba “marginalizando” os que fogem a tal padrão. Aliás, é o mesmo conjunto de valores que faz serem mal vistas as mulheres que não têm namorado fixo: enquanto nós homens somos “garanhões” se nos comportamos de forma semelhante, elas são “vagabundas”; e também estigmatiza as que depois de certa idade não casaram (como se casar fosse o objetivo de vida de todas): “solteirona”, “vai ficar/ficou pra tia” e coisas semelhantes. Nada mais do que o velho machismo.

E é difícil escapar a toda essa lógica, tanto para as mulheres como para nós homens. Nunca vi o menor sentido em sair “pegando várias” só para me exibir, sem saber sequer seus nomes, do que gostam de fazer; logo, posso dizer por experiência própria que não é fácil “remar contra a corrente”: afinal, isso é suficiente para qualquer um ser taxado como “ET”, ainda mais na adolescência, fase em que buscamos nossa “auto-afirmação” (interessante que para muitos ela seja igual a “se enquadrar” e não a de fato se auto-afirmar, pensando por conta própria).

Logo, entendo os homens que seguem o caminho da “ogrice” (embora não concorde com eles): não querem ser “excluídos”, da mesma forma que eu também não queria. Só que eles optam por “se adaptar” ao sistema, ao invés de criticá-lo, combatê-lo. Preferem a posição mais cômoda ao invés da mais justa, o que é uma pena.