Uma praça vazia

Praça Dr. Júlio de Aragão Bozzano, bairro Santana, Porto Alegre. Vazia em uma tarde de sol.

No fim da tarde de ontem, passei por essa praça. Era quase seis da tarde: no inverno já é noite, mas no final da primavera, com o horário de verão, ainda tem bastante sol. Mesmo assim, não havia nenhuma criança brincando.

Impossível não lembrar dos meus tempos de infância. Era “sagrado”: às quatro da tarde, estava na rua com meus amigos. Jogávamos futebol, apostávamos corrida de bicicleta… Brincávamos ao ar livre, à sombra dos jacarandás da Rua Pelotas. No inverno “descíamos” de nossos apartamentos um pouco mais cedo, visto que a tarde “durava menos” – mas lembro que adorava ficar na rua até anoitecer totalmente.

O que mudou? Engana-se quem pensa que a culpa é da televisão, do videogame etc.: já tínhamos tudo isso (faltava o computador, é verdade). Mas não abríamos mão de brincar na rua. A diferença, mesmo, é que não havia esse medo irracional da violência que temos nos dias atuais. Lembro bem que já se falava em ladrões e assaltos, mas isso não era suficiente para nos deixar trancados em casa.

Hoje, abandonamos as ruas: o espaço público, que deveria proporcionar a convivência entre as pessoas, torna-se cada vez mais apenas área de passagem. E por isso mesmo, mais perigoso.

A infância virou um grande negócio

Quando eu era criança, não ganhava presente no dia 12 de outubro. Não chegava a achar ruim, pois três dias depois vinha o meu aniversário, fazíamos a festinha com os amigos e aí sim ganhava vários presentes.

Porém, o meu irmão também não ganhava nada em 12 de outubro. O motivo é simples: meus pais sempre diziam que devia dividir os presentes com ele. Ou seja, o que era meu também era dele, e vice-versa, e se não o deixasse usar os brinquedos, eu também não poderia brincar. Eu reclamava muito de precisar dividir os presentes porque meu irmão tinha o divertido hábito de destruir os brinquedos, mas de nada adiantavam meus protestos.

Agora, o detalhe principal: eles não davam todos os presentes que queríamos – seja em aniversário, Natal etc. Não digo que ficamos só querendo os brinquedos que pedíamos, mas sabíamos que se a lista fosse longa, ganharíamos muito menos da metade dela. Então, melhor pedir pouca coisa e ser feliz com aquilo: citando um exemplo, no Natal de 1989 um presente só, o Pense Bem, valeu por muitos.

Já hoje, o que acontece? Os pais, cada vez mais ausentes devido à correria dos tempos atuais, convivem pouco tempo com as crianças. E assim se percebem em uma situação terrível: não querem fazer todas as vontades delas, para não deixá-las mal-acostumadas (e também porque o salário tem fim), mas também não conseguem passar mais tempo com elas, e assim “compensam” a ausência dando presentes. E com a paranoia da segurança, se diz que “as ruas são muito perigosas” (e se elas forem abandonadas pela população, realmente ficarão perigosas). Resultado: os pais se sentem mais tranquilos se os filhos brincarem dentro de casa e, principalmente, se passarem a maior parte do tempo na frente da televisão.

As crianças, mais suscetíveis à influência da publicidade que os adultos (que têm um pouco mais de senso crítico), acabam por desejar tudo o que veem anunciado na telinha. Então, elas querem sempre um brinquedo, uma roupa, um tênis novo etc. E logo que ganhem, querem outro. Por um motivo simples: se não tiverem nada de novo para mostrar por muito tempo, acabam se sentindo excluídas da turminha de amigos (que também estão sempre ganhando coisas novas). E os pais acabam cedendo ao desejo das crianças.

Mas engana-se quem pensa que é só a publicidade “infantil” (ou seja, de produtos destinados a esse público em específico) que influencia as crianças. Muitas delas conhecem marcas de cerveja por causa daquelas propagandas engraçadinhas, tipo as da tartaruguinha que fazia embaixadinhas (veiculadas durante a Copa de 2002), ou com outros bichinhos. Começam a falar de assuntos nada adequados para sua idade, graças à televisão. E assim vemos cada vez mais crianças que ao invés de brincarem, se transformam em verdadeiros “adultos em miniatura”: têm celular e o trocam até mais de uma vez por ano, meninas com menos de 10 anos se maquiam e calçam salto alto…

É sobre isso que trata o excelente documentário abaixo, “Criança – A alma do negócio” (que pode ser baixado aqui). Assista, reflita e difunda.

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Seja no Dia da Criança ou em qualquer outro, a ideia é sempre válida: não há melhor presente que a presença. Um brinquedo novo é bacana, mas nada substitui um passeio, uma ida ao parque… E (por que não?) ao estádio de futebol.

Como mostra o fantástico vídeo que pesquei lá no Impedimento, da primeira vez em que o pequeno torcedor do Racing de Avellaneda entra no estádio do clube. Duvido que algum joguinho eletrônico deixasse o guri tão empolgado.

O Cão em 2010

O WordPress.com enviou aos blogueiros que utilizam a plataforma algumas estatísticas sobre o ano de 2010 em cada um deles. Achei interessante compartilhar as do Cão com os leitores.

O que achei mais curioso (além dos termos digitados nos sites de busca e que resultaram em visitas ao blog), é que dos cinco textos mais lidos em 2010, nenhum foi postado no ano que recém acabou… O mais novo – que é também o mais lido – é de dezembro de 2009.

Aliás, o fato de haver dois textos sobre futebol entre os cinco só me faz ter mais certeza: o esporte bretão dá audiência… Ainda mais em ano de Copa do Mundo – o mais lido é justamente o texto em que dou palpites sobre o Mundial. Foi graças a ele que o blog atingiu o recorde de visitas em um só dia – foi em 10 de junho, véspera da abertura da Copa.

A Copa do Mundo também ajudou a elevar a audiência do 5º texto, sobre os hinos nacionais (mais especificamente, sobre o hino da Rússia) – que é também o mais velho dos cinco, postado em setembro de 2007.

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Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Uau.

Achamos que foi fantástico!

Números apetitosos

Imagem de destaqueO Museu do Louvre é visitado por 8,5 milhões de pessoas todos os anos. Este blog foi visitado cerca de 82,000 vezes em 2010, o que quer dizer que se fosse uma exposição no Louvre, eram precisos 4 dias para que as mesmas pessoas a vissem.

Em 2010, escreveu 260 novos artigos, aumentando o arquivo total do seu blog para 1023 artigos. Fez upload de 75 imagens, ocupando um total de 8mb. Isso equivale a cerca de 1 imagens por semana.

O seu dia mais activo do ano foi 10 de junho com 977 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Meus primeiros palpites para a Copa 2010.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram cloacanews.blogspot.com, classemediawayoflife.blogspot.com, twitter.com, blogdokayser.blogspot.com e google.com.br

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por cao uivador, gremio, palpites copa do mundo 2010, transgenicos e leite

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Meus primeiros palpites para a Copa 2010 dezembro, 2009
10 comentários

2

Documentário: “Criança, a alma do negócio” março, 2009
10 comentários

3

Por que o Corinthians é tão detestado? dezembro, 2007
70 comentários

4

Diziam que os transgênicos eram tão bons… maio, 2008
1 comentário

5

O hino nacional mais bonito setembro, 2007
15 comentários

Mais sobre palmadas

Quando entre adultos, uma cena violenta é repudiada: os brigões são “selvagens”, “brutos”, “animais estúpidos”. Por que se aceita numa boa um pai/mãe dando tapas em público em seus filhos sem lhes aplicar a mesma pecha? E mais: por que as pessoas chegam às chamadas “vias de fato”?

Clique e leia na íntegra o texto do Vinicius Duarte – disparado o melhor que li até agora sobre o tema “palmadas”.

Palmadas

Duas ótimas charges do Kayser:

Para quem não entendeu a primeira charge: uns anos atrás, a RBS lançou uma campanha institucional contra maus tratos a crianças, cuja “frase de ordem” era justamente “maltratar as criancinhas é coisa que não se faz”.

Campanhas, aliás, que só têm um propósito: enganar, e vender mais jornal. Pois elas são papo furado para boi dormir.

Documentário: “Criança, a alma do negócio”

Excelente dica achada no Dialógico: o documentário “Criança, a alma do negócio”, dirigido por Estela Renner, trata sobre a publicidade que é dirigida às crianças no Brasil. Abaixo, o trailer:

O texto abaixo foi copiado da página do Instituto Alana:

Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?

Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que umn adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.

Para baixar o vídeo completo, clique aqui.

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Não só a publicidade “infantil” (ou seja, que anuncia produtos destinados àquele público em específico), como também a publicidade “normal” influencia as crianças.

Muitas crianças conhecem marcas de cerveja por causa daquelas propagandas engraçadinhas, tipo as da tartaruguinha que faz embaixadinhas (veiculadas durante a Copa de 2002), ou com outros bichinhos. Começam a falar de assuntos nada adequados para sua idade, graças à televisão. Cada vez mais vemos crianças que deveriam estar brincando, se transformando em verdadeiros “adultos em miniatura”: trocando de celular até mais de uma vez por ano, meninas com menos de 10 anos maquiadas e calçando salto alto…

E o pior de tudo, é que muitos pais se percebem em uma situação terrível. Não querem fazer todas as vontades dos filhos – para não deixá-los mal-acostumados – mas ao mesmo tempo não têm muito tempo para conviverem com as crianças, devido aos muitos compromissos profissionais. Resultado: a “babá eletrônica” (televisão) acaba tendo mais influência sobre as crianças do que os próprios pais.

Então, elas querem sempre um brinquedo, uma roupa, um tênis novo (um dos meninos mostrados no filme tem em seu armário mais tênis do que eu tive nos últimos 20 anos). E logo que ganhem, querem outro. Por um motivo simples: se não tiverem nada de novo para mostrar por muito tempo, acabam se sentindo excluídas da turminha de amigos. E os pais acabam cedendo ao desejo das crianças.

Chega a parecer “coisa de velho”, mas “no meu tempo” (ou seja, quando eu era criança, e isso nem faz tanto tempo – menos de 20 anos), meu pai e minha mãe não davam tudo o que eu pedia. E quando eu ganhava algum presente, sempre devia dividi-lo com o meu irmão – e de nada adiantava eu protestar. Egoísmo não fez parte da minha educação.

A rua onde eu cresci

A Rua Pelotas, no Bairro Floresta, na qual morei até pouco antes de completar 11 anos, foi incluída em um projeto que prevê o tombamento como patrimônio ambiental de diversos túneis verdes de Porto Alegre. Ela inicia-se antes da Avenida Farrapos, e estende-se até a Cristóvão Colombo. Entre a Farrapos e a Cristóvão encontra-se o seu túnel verde, formado por jacarandás que durante a primavera florescem e fazem a rua ter também um “tapete” formado pelas flores que caem das árvores.

Não foi por acaso que meu pai escolheu a casa de número 430 (andar térreo) da Rua Pelotas para morarmos, pouco antes de eu nascer. Meu nascimento era previsto para acontecer no fim de outubro ou no começo de novembro de 1981, mas o quadro de pressão alta da minha mãe, que estava internada no Hospital Presidente Vargas desde 30 de setembro, fez com que os médicos decidissem fazer a cesariana na noite de 15 de outubro. Quando a minha mãe foi internada, ela e o meu pai ainda moravam na Azenha, junto com a minha avó (mãe do meu pai). Neste meio tempo, foi feita a mudança para a Rua Pelotas, em plena primavera – ou seja, em sua época mais bela.

Parece “coisa de velho”, mas… Bons tempos aqueles. As crianças brincavam na rua. Apostávamos corridas de bicicleta – eu disputava a hegemonia com o Leonardo, enquanto o Vinicius (meu irmão) e o Diego, os mais novos da turma, brigavam para não ficar em último. Também fingíamos que as calçadas eram as ruas de uma cidade inventada: o Leonardo e eu éramos os patrulheiros, e o Vini e o Diego, para variar, se davam mal.

Coisas da imaginação de criança: com nossas bicicletas, brincávamos também de aeroporto, precisávamos pedir permissão para pousos e decolagens de nossos “aviões”. E sem “caos aéreo”!

Também jogamos muito futebol, quando transformávamos as calçadas em “estádios” lotados. O único problema é que passavam carros e caminhões da Brahma na rua, então tínhamos uma regra: proibido “bicar”. Só que de vez em quando alguém “bicava” a bola, e passava um carro por cima. Aliás, o maior mistério da rua é: o que aconteceu com aquela bola nova do Diego? Ela foi pro meio da rua, veio um carro… BUM! Ela estourou e desapareceu!

Hoje em dia, as tardes da Rua Pelotas são mais “calmas”. E mais gradeadas. É a paranóia da segurança, que faz as crianças brincarem dentro de casa. Naquela época já havia assaltos, mas não esse medo irracional dos dias de hoje, que fez as pessoas abandonarem as ruas: isso sim é que aumenta a insegurança.

Porém, sempre que passo por baixo dos jacarandás ou pela esquina da Cristóvão Colombo com a Pelotas, tenho a impressão de ouvir uma voz de criança gritando: “não vale dar bico!”.