Democracia

Esquina das Avenidas Borges de Medeiros e Salgado Filho, hoje à noite, em Porto Alegre. A tropa de choque da Brigada Militar está bem longe, já no ponto onde o vídeo é gravado a situação é tranquila, não há tumulto… Até começarem a cair as bombas.

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Por outro lado, relatos tanto no Facebook como de quem esteve na manifestação dão conta de algo preocupante: aumentou muito o número de infiltrados, que se aproveitam dos protestos para fazer arruaça e praticar roubos (aí sobra gás lacrimogêneo para todo mundo, tenha ou não feito algo). Ao mesmo tempo, a mídia de direita que antes chamava os manifestantes de “baderneiros” (justamente quando a maioria esmagadora era pacífica) agora diz que apenas uma minoria pratica atos de vandalismo…

Mais um jacarandá caiu na Rua Pelotas

Em novembro de 2008, fui com meu pai à Rua Pelotas, para fotografar seus jacarandás floridos. Falamos com alguns moradores da rua, que comentaram sobre o preocupante estado das árvores: muitas estavam com os troncos ocos, o que representava sério risco de queda nos vendavais que costumam atingir Porto Alegre. Eles queriam não que os jacarandás fossem removidos, e sim, que recebessem tratamento, para que pudessem continuar embelezando a rua por muito tempo.

No ano de 2009, dois jacarandás da Pelotas foram cortados pela SMAM, e em seus lugares foram plantadas novas árvores, que levarão muitos anos até se tornarem imponentes como as que ali estavam antes. E em abril de 2010, num dia em que não ventava, uma outra árvore caiu sobre carros na rua.

Assim, infelizmente não chega a me surpreender que a ventania da manhã de hoje tenha derrubado mais um jacarandá na Rua Pelotas, próximo à Cristóvão Colombo, atingindo uma banca de revistas. E dessa vez, os prejuízos não foram apenas materiais: duas pessoas ficaram feridas.

E enquanto os Bombeiros trabalhavam para remover a árvore caída, um pedaço de outra também caiu, conforme relatou à Rádio Guaíba o tenente Cláudio Bayerle, oficial de serviço do 9º BPM – que também chamou à atenção para as várias árvores podres na rua, que ameaçam cair. O que não é nenhuma novidade, mas quem sabe com o alerta vindo da Brigada Militar alguma atitude seja tomada pelas autoridades competentes para evitar que os jacarandás continuem a cair, a pôr em risco a vida das pessoas e a deixar a Rua Pelotas cada vez menos verde.

Começou a criminalização

É simplesmente inacreditável o que disse o delegado Gilberto Almeida Montenegro, da Divisão de Crimes de Trânsito de Porto Alegre, sobre a Massa Crítica, vítima de uma tentativa de assassinato na sexta-feira. Bom, na verdade não: é apenas mais um reflexo da carrocracia que impera na cidade.

O primeiro erro crucial foi esse evento ciclístico. Esse grupo cometeu um erro grave, qualquer evento desse porte se avisa a Brigada Militar (BM), a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação), a Secretaria de Segurança, para se formar um aparato para evitar situações desse tipo.

Então quer dizer que para se locomover é preciso avisar a Brigada e a EPTC? Pois a Massa Crítica nada mais é do que ciclistas pedalando juntos, se deslocando pela cidade (embora isso tenha sim um sentido de manifestação – mas para lembrar que ciclistas também são trânsito). Por essa lógica, é preciso avisar a BM e a EPTC para formarem um aparato em todos os finais de tarde, visto que os motoristas adquiriram o interessante hábito de protestar nesses horários, levando o caos à maior parte da cidade.

Aqui não é a Líbia. Aqui tem toda a liberdade para fazer manifestação, desde que avisem as autoridades. Faz a tua manifestação, mas não impede o fluxo de automóveis. Se tu impedes, dá confusão, dá baderna, dá acidente. Fica o alerta.

Ah, é? “Aqui não é a Líbia”, mas se desagradar ao Gaddafi, digo, ao fluxo de automóveis… Pelo jeito é legítimo que um bandido dirigindo um carro passe por cima de ciclistas.

Não pode impedir o fluxo de carros (que na maioria esmagadora das vezes é impedido por eles mesmos), mas de pedestres e ciclistas pode, né? Pois o tempo que aquele assassino poderia ter esperado para que a Massa Crítica passasse, é o mesmo que muitas vezes eu espero para atravessar uma rua (isso quando não preciso esperar mais).

No que se tornou a Feira do Livro

Termina hoje a 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, sem que eu sequer tenha chegado perto da Praça da Alfândega – o que não acontece desde quando eu era criança.

Contribuíram para isso motivos climáticos, financeiros e também “de espaço”. Gosto mais de ir à Feira quando chove, pois assim fica mais fácil caminhar pelos corredores – que ficam abarrotados em dias de sol. E faltou chuva na Feira esse ano. Na última terça-feira choveu (e foi um temporal), mas só à tarde. Mas de qualquer jeito, mesmo que chovesse todos os dias eu provavelmente não iria à Feira, pois com pouco dinheiro, seria difícil não voltar “zerado” (é difícil resistir a livros). E por fim, mesmo com chuva e carteira recheada, também teria o problema sério de falta de espaço para novos livros na minha estante.

Porém, antes desta primavera seca, sem grana e de estante abarrotada, eu já não vinha mais tendo o mesmo entusiasmo que tinha pela Feira do Livro em anos anteriores. A última vez em que realmente percorri os corredores em busca de livros foi em 2007. Eu cursava uma cadeira sobre mídia na faculdade, e teria de ler “Sobre a televisão”, de Pierre Bourdieu. Como havia retirado o livro na biblioteca da UFRGS e percebido o quanto era bom, decidi comprá-lo na Feira. Devo ter procurado em mais de cem bancas… Já estava praticamente decidido a desistir e ir a uma livraria, quando consegui encontrar o livro. No ano seguinte, em busca de outra obra de Bourdieu (“O poder simbólico”), nem perdi tempo procurando na Feira, e fui direto à livraria.

Aí é que está: para concorrerem com a Feira do Livro, várias livrarias de Porto Alegre também oferecem descontos nesta época. Ou seja, pode-se gastar um pouco menos (os livros apenas ficam menos caros), com direito a ar condicionado (num dia como foi a segunda-feira passada, faz diferença) e a achar as obras que têm menor apelo comercial e por isso não vão para a Feira – onde o mais fácil de se encontrar são os best-sellers.

E foi para criticar a atual mercadologização da literatura que a escritora Telma Scherer apresentou a performance artística “Não alimente o escritor” na Feira do Livro, na última sexta-feira. Apresentação que foi encerrada pela Brigada Militar (aliás, quem chamou a Brigada?). Pouco me interessa que Telma não tivesse autorização ou apresentação prevista na programação da Feira, visto que a Constituição Federal, no artigo 5º, inciso IX, estabelece que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”; sem contar que o espaço em que a Feira acontece é público.

E pior é que não se tratou de um fato isolado: no último dia 16 de outubro, uma apresentação de teatro de rua foi interrompida na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas – o ponto da cidade que ironicamente é conhecido como “Esquina Democrática”.

Até quando ficaremos calados diante disto?

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.
Martin Luther King Jr.

O texto que publicarei abaixo, foi recebido por e-mail e também publicado nos blogs Porto Alegre RESISTE! e Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho. Foi escrito pela cidadã Maria Elisa da Silva, ativista da entidade “União pela Vida”. (O link no trecho em que ela fala do filme Invictus, fui eu quem adicionei.)

Homem tangido como gado no Moinhos de Vento

Amigos!

13 de Março de 2010. Cerca de 12h30min, meu marido e eu subíamos a Félix da Cunha rumo ao restaurante onde pretendíamos almoçar.

Quando a Félix se funde com a Olavo Barreto Viana e a Padre Chagas, defronte ao Sheraton e ao Shopping Moinhos, surgiu o que de início pareceu uma performance, mas na realidade o “espetáculo”, assistido por dezenas de pessoas, era uma pequena comitiva formada por quatro brigadianos (policiais militares) à cavalo, dois homens à frente e duas mulheres fechando o cortejo e entre eles, a pé, sem camisa, um homem moreno, com os ossos aparecendo, sei lá se descalço, sei lá se algemado, pois apenas a sua expressão de extrema humilhação, sendo arrastado à execração pública medievalmente, foi suficiente para que eu pedisse a meu marido que encostasse o carro (na esquina da Olavo Barreto Viana com a 24 de Outubro).

Desci e marchei, sobre a pista de rolamento rumo aos cavaleiros e pedi que parassem. O que parecia o mais graduado, respondeu-me que não podia parar, pois estavam conduzindo um preso. Respondi educadamente que era exatamente esse o ponto, que essa pessoa estava sendo conduzida de forma indigna, que eles parassem e mandassem vir uma viatura para conduzí-lo, que a maneira escolhida era bárbara, humilhante , um atentado à dignidade daquela pessoa e à minha. A resposta foi que eu deveria me queixar ao comandante. Seguiram com seu cortejo, e quando vi, eu já estava gritando “isso é medieval, isso é um absurdo!!!!!!!!!!!!!!!!”

Voltei para o carro, um pai com duas crianças esperava o sinal para a atravessar, meio que rindo, e falei diretamente para eles: um dia esse aí, outro dia, teu filho! Não deram um pio. Fomos embora, vi que os brigadianos levaram o preso para baixo de uma árvore no Parcão e quero imaginar que deve ter chegado uma viatura para conduzí-lo a uma delegacia, de onde vão liberá-lo em seguida, ou a uma prisão, de onde sairá ainda mais vilipendiado. Enfim, entrei no carro e tive um acesso de choro. Não tenho a mais remota idéia do que essa criatura possa ter feito, além de desfliar sua magreza e sua miséria pela Padre Chagas, fazendo as madames (como eu própria, porque não?) torcer o nariz e dizer às amigas “que desagradável”!

Mas o fato é que não vivemos numa ilha da fantasia e não adianta fazer de conta que miseráveis não existem, eles estão entre nós, cada vez mais perto e em maior número.

Quero viver numa cidade onde animais e homens (embora homens também sejam animais) sejam tratados com respeito. Abaixo à essa forma de tratamento, ministrada pela Brigada, que só serve para devolver essas pessoas à nossa convivência, com mais raiva, com mais vontade de descontar a humilhação no primeiro que aparecer.

Recomendo à Cupula da nossa Brigada Militar, que assista e obrigue a TODOS os seus comandados a assistir o filme INVICTUS, que mostra exatamente como lidar com essa questão da violência de uma forma racional e construtiva, ensinada pelo grande líder Nelson Mandela.

Maria Elisa Silva
União pela Vida
(e pela dignidade de todos os seres)

Se tem coisa que me deixa indignado, e até desesperançoso quanto ao futuro da humanidade, são as acaloradas reações a algum crime violento. Sempre – eu disse SEMPRE – tem um bando de gente que defende a “solução mágica” para o problema da criminalidade: “pena de morte já”, “pau nesses vagabundos” etc.

Por que eu fico desesperançoso? Primeiro, porque há uma grande hipocrisia nessas “reações indignadas”. Em geral, tanta repercussão se dá quando a vítima do crime é de classe média para cima. Todos os dias, nas periferias das cidades brasileiras, milhares de jovens morrem vítimas da violência. Quantas passeatas pela paz, quantos pedidos de “pena de morte já”, “pau nesses vagabundos” nós vemos ou participamos em decorrência de um pobre assassinado? Só olhamos para nossos próprios umbigos, só reclamamos quando a violência atinge os lugares que frequentamos – como o tiroteio acontecido na Redenção no último dia 28 de fevereiro. E sempre queremos aquela “solução mágica”, claro.

Também fico desesperançoso quanto ao futuro da humanidade, porque tal lógica de combater a violência com mais violência é de uma burrice inexplicável. Seria a mesma coisa que um sujeito, alcoólatra, decidir acabar com seu problema… Bebendo mais!

E, motivo de mais desesperança ainda, é que o fato relatado no texto de Maria Elisa da Silva nem pode ser classificado, com absoluta certeza, de “combate à violência”. O que aquele pobre homem tinha feito? Assaltara algum pedestre? Ou simplesmente a presença dele em frente a um hotel 5 estrelas e um centro comercial frequentado pela “nata” da sociedade porto-alegrense era incomodativa demais?

Como podemos imaginar que aquele homem não sentirá raiva de tudo o que aconteceu? E principalmente, como podemos acreditar que, tratando pessoas como se fossem bichos não faremos com que elas acabem agindo feito bichos? (Aliás, acho que nem podemos dizer “feito bichos”, já que muitas vezes os animais ditos “irracionais”, que dizemos serem evolutivamente inferiores, agem de maneira “mais humana” que nós, animais racionais, que temos o péssimo hábito de usarmos pouco a razão.)

E nem adianta alguém vir com o argumentosco de que “direitos humanos são para humanos direitos”: quanto pior tratamento dermos aos que cometem delitos, mais ressentimento geraremos neles – logo, mais violentos eles ficarão. Trata-se daquele velho ditado: “você colhe o que planta”. Não podemos esperar que, plantando violência, possamos colher paz.

E se alguém acha que um criminoso violento não merece ser tratado como ser humano, e sim como “um animal”, lembre que todos nós somos animais. Aliás, foi da Lei de Proteção aos Animais que o grande jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto, um ferrenho anticomunista, se utilizou para que o líder comunista Luiz Carlos Prestes não fosse mais torturado de forma brutal na prisão em que se encontrava durante a ditadura de Getúlio Vargas.

Polícia violenta é pior do que criminoso

Concordo totalmente com o que disse o Hélio Paz em post sobre a violência da Brigada Militar contra torcedores do Grêmio que ficaram do lado de fora do Olímpico com os ingressos na mão, impedidos de assistirem Grêmio x Cruzeiro, supostamente por não haver mais lugares no estádio. (Eu estava lá dentro e garanto que ainda havia espaço, principalmente nas cadeiras, setor onde muitos proprietários – ou seja, que têm seu lugar marcado, inclusive com seus nomes gravados nas cadeiras – não puderam ingressar.)

A função da polícia é dar segurança aos cidadãos. Porém, quem nos defenderá quando é ela que comete atos criminosos? Teremos de chamar o ladrão? O Hélio disse tudo: “uma polícia aloprada é muito mais perigosa para a sociedade do que delinquentes”.

Porém, como o que não falta no mundo é demência, há gente a defender polícia violenta, que bate (ou até atira) primeiro, e pergunta depois. Provavelmente muitos dos agredidos quinta-feira no Olímpico fossem assim – espero que, depois dessa, pelo menos mudem de opinião.

Torcidas deram espetáculo

Logo que o Brasil de Pelotas anunciou a contratação do goleiro Danrlei, eu decidi que de jeito nenhum deixaria de ir ao jogo do Grêmio contra o Brasil no Olímpico. A partida era para ter sido realizada em 29 de janeiro, mas devido à tragédia de duas semanas antes, o Xavante só estreou no Gauchão no início de fevereiro, e o jogo com o Grêmio foi remarcado para a noite passada.

Imaginei que o momento máximo do jogo – além dos gols que acontecessem, é claro – seria a entrada de Danrlei em campo. Mas Grêmio x Brasil-Pel teve mais.

Nos últimos jogos, a Geral resolveu fazer um protesto pelo fato da direção do Grêmio não dar mais subsídio às torcidas organizadas. Não levaram as faixas e os instrumentos musicais. Mas um grupo de torcedores discordantes das lideranças da Geral passou a se reunir no lado oposto, atrás da goleira da Carlos Barbosa.

No jogo de ontem, os dissidentes estavam presentes, com suas faixas. Era um grupo muito pequeno, mas que cantava bastante, bem mais animado do que a Geral “oficial”. Resultado: ao longo do jogo, vários torcedores deixaram o espaço da Geral (atrás da goleira da Cascatinha) e se dirigiram ao outro lado, para cantar junto com a “outra Geral”. Detalhe: este grupo – que no segundo tempo tornou-se significativo – ficou em local abaixo da torcida do Brasil, que estava no anel superior. A Brigada Militar reforçou o efetivo, mas não precisou trabalhar. As duas torcidas deram um belo espetáculo.