“Rabugentos”, mas autênticos

Via Facebook, descobri por esses dias um texto que falava sobre uma pesquisa feita na Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália). Segundo ela, pessoas mal-humoradas são mais atentas, menos influenciáveis e mais cuidadosas na hora de tomar decisões. Ou seja, o mau humor faz bem ao cérebro!

É verdade que costumo ficar com um pé atrás em relação a essas pesquisas. Afinal, não raro me aparecem umas dizendo que a chegada da primavera deixa as pessoas mais alegres – quando sinto exatamente o contrário, e fico feliz mesmo é quando chega o outono. E já que falei do tempo, não custa nada lembrar que o calor infernal que faz em Porto Alegre no verão me deixa de mau humor. E não faço questão nenhuma de esconder isso – o que me rende uma certa fama de “rabugento”, para a qual eu “cago e ando”.

Obviamente não é só o calorão infernal que me deixa de mau humor. O Natal, por exemplo, mesmo que fosse no inverno (aliás, como é no hemisfério norte) eu detestaria. Mas é fato que não tenho o hábito de “sorrir para a foto”*, de fingir felicidade quando na verdade estou triste ou irritado. Inclusive, já fui chamado de “ranzinza” mas também de “autêntico” pela mesma pessoa. E não acho que isso seja por acaso.

Afinal, o “chato” muitas vezes é a pessoa que não se importa em ser a única discordante em um grupo. Claro que há aqueles que discordam só para serem “do contra”, mas há também os que têm convicções e não se importam de defendê-las nem que tenham de ir na contramão de todos à volta. Não deixarão de dizer o que consideram necessário só porque isso “desarmonizaria” o grupo, justamente por não se sentirem confortáveis com uma “harmonia” que tende à homogeneização, sufoca as diferenças.

E o mesmo vale para o “humor do dia”. O dito “normal” é todos se sentirem “felizes” em épocas como NatalCarnavalverão… É só manifestar desagrado, e pronto: lá vêm os rótulos. E o pior é que não falta pessoas às quais certas épocas “felizes” (principalmente o Natal) sejam um tormento, mas que preferem o fingimento à autenticidade, só para não serem chamadas de “rabugentas”.

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* É coisa muito rara achar uma fotografia em que estou sorrindo. Ainda mais que uma vez fui sorrir para uma foto e fiquei com a cara mais ridícula de todos os tempos. Depois daquela, nunca mais forcei porra nenhuma de sorriso!

O fim do “PT gaúcho”

Até pouco tempo atrás, dizia-se que o PT só se salvava no Rio Grande do Sul, onde era “autêntico”.

Mas, a gauchada demorou a perceber que essa afirmação não era lá muito verdadeira. Na eleição municipal de 2008 em Canoas, aconteceu uma coligação PT-PPS, que venceu o pleito, liderada pelo petista Jairo Jorge. Conforme escrevi em agosto, nada é dado “de graça”: o PPS apoiou o PT em Canoas, logo iria querer algo em troca.

O que o PPS ganhou? Um carguinho para Cezar Busatto

Não bastasse essa, já tinhamos a defesa por parte do deputado estadual Adão Villaverde da revisão de nota oficial do PT que condenou veementemente o genocídio na Faixa de Gaza.

A pequena esperança do PT retornar ao Piratini em 2010, foi-se por água abaixo. O voto da classe mérdia, obviamente o partido não obtém. E da esquerda, fica cada vez mais difícil, visto que o PT caiu na “vala comum”, tornou-se igual aos outros.

Não foi com a nomeação de Busatto, nem com a aliança PT-PPS. Isso apenas fez a máscara cair. O “PT gaúcho”, autêntico e aguerrido, acabou. Apenas restam alguns bons nomes lá, como Olívio Dutra e Raul Pont.

Por que admiro Olívio Dutra

Na última sexta-feira, David Coimbra publicou uma coluna em Zero Hora cujo título era “O sorriso de Olívio”. O colunista lembra de quando foi “escalado” para fazer uma reportagem sobre a vida de Olívio Dutra, quando este era prefeito de Porto Alegre. Mesmo no mais importante cargo da cidade, Olívio seguia sua vida quase como antes: morava na Avenida Assis Brasil e ia de ônibus para a Prefeitura.

David Coimbra e um fotógrafo acompanharam Olívio em sua ida de ônibus para o Paço Municipal. O fotógrafo, claro, desejava uma foto do prefeito sorridente, mas quando David pediu a Olívio que sorrisse para a foto, ouviu dele a resposta: “Mas não estou com vontade de sorrir…” – e não houve sorriso. Para David, isto tornou-se um símbolo da maior qualidade não só do Olívio, como do PT: a autenticidade. Tratava-se de um político – e de um partido – que não fazia qualquer coisa para agradar, pelo poder.

Daí se entende o grande baque que significou para os petistas mais apaixonados – como eu era – tudo que aconteceu a partir de 2002. Lula foi eleito com apoio do conservador PL (hoje PR). Fiquei indignado com a aliança, cogitei de votar no PSTU no primeiro turno de 2002, como forma de protesto. Mas não resisti à vontade de votar em Lula, que simbolizava os sonhos de mudança para o Brasil. E votei nele nos dois turnos.

Muitos diziam que a aliança com o PL era só para ganhar a eleição, que no governo o “Lulinha paz e amor” voltaria a ser aquele Lula de 1989. Mas quem assumiu o governo foi o “paz e amor”, 1989 ficou para a História mesmo.

O governo que era para ser do povo, passou a integrar os velhos donos do poder, como Sarney. O PMDB, que apoiara FHC, também apoiava Lula. Tudo pelo poder. O PMDB era fisiológico, assim como o PT. A autenticidade de Olívio fora trocada pelo sorriso para sair bem na foto.

Veio 2005 e o mensalão. Era demais. Já agüentara os cargos para o PMDB, os esforços para abafar CPIs – na oposição o PT sempre as defendia -, a liberação dos transgênicos… Mas corrupção não dava para agüentar, e me desfiliei do PT.

Fui com meu amigo Diego à sede municipal, no dia 8 de novembro de 2005. Um local vazio, com cara de abandonado, enquanto a sede nacional, em São Paulo, era um luxo só. Foi constrangedor o momento em que pedimos a ficha de desfiliação a uma funcionária-militante, que nem tentou nos convencer a permanecer no partido: provavelmente ela não saía porque trabalhava lá e precisava do dinheiro para se sustentar.

Não cogitei – nem cogito – me filiar a outro partido. O PSOL corre o risco de ser igual ao PT. Até já “sorriu para a foto”: mês passado, a Luciana Genro perdeu uma excelente oportunidade de ficar calada, quando decidiu subir à tribuna na Câmara dos Deputados para elogiar a RBS. Não precisava ter feito isso, assim como nenhum dos deputados que falaram – inclusive Beto Albuquerque, em quem votei ano passado e não votarei em 2008. Não precisavam atacar a empresa – seria suicídio político -, apenas podiam ficar quietos, e deixarem os de sempre babarem ovo.

Apesar do Olívio, não me considero mais petista. Ainda tem muita gente boa lá, que assim como o Olívio, não está preocupada em agradar os outros em troca de poder. O problema, é que a cúpula do partido pensa diferente… E assim, o PT autêntico, que elegeu Olívio prefeito em 1988 e governador em 1998, deixou de existir.