Julho amaldiçoado

Acabo de saber que um avião da Air Algérie que se dirigia de Burkina Faso para a Argélia caiu, com 116 pessoas a bordo. Mais um…

Neste julho de 2014 já tivemos outros dois aviões no chão. Além daquele da Malaysia Airlines lá na Ucrânia (e que ainda não se sabe quem o derrubou), ontem uma outra aeronave caiu em Taiwan após tentativa de pouso em meio a um tufão que atingia a região.

Este mês também é péssimo para a literatura brasileira. Três escritores se foram: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna.

No futebol, mais perdas. A Copa do Mundo teve sua organização elogiada, mas a Seleção Brasileira levou 7 a 1 da Alemanha (que ainda ganhou o título, quebrando a escrita de nunca uma seleção europeia ter sido campeã na América). No tocante à crônica esportiva, tivemos a triste notícia de que o Impedimento (melhor página de futebol do país) deixará de ser atualizado após a Libertadores.

Relacionada à Copa, a questão dos ativistas presos e processados, acusados por violência em protestos antes mesmo deles acontecerem (não me parece coincidência as prisões terem se dado na véspera da final da Copa, e as razões para elas seguem nebulosas). A “Sininho” não é a “Che Guevara” que os esquerdistas mais cegos dizem que é, mas também não é uma “Bin Laden” como a velha imprensa procura pintar – discurso repetido, tristemente, por alguns petistas tão cegos quanto os ultraesquerdistas, não percebendo que quem sai mais prejudicado com a polêmica é justamente o governo Dilma, dado que muitas pessoas não sabem distinguir as diversas esferas governamentais (federal, estadual e municipal) e também esquecem que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são independentes uns dos outros.

Tudo isso num só mês, e que ainda tem uma semana pela frente… Será que não dá para “pular” estes sete dias e começar agosto amanhã?

A fome no mundo em 2009

Um dos textos mais lidos do Cão Uivador é o que escrevi em 13 de setembro de 2007, comentando o “mapa da fome” feito pela FAO, que tinha dados de 1970 a 2003.

E agora descobri um mapa mais atualizado (2009) sobre este triste flagelo da humanidade, que também merece alguns comentários. Os países são divididos em cinco categorias: a primeira engloba os que têm menos de 5% da população subnutrida; a segunda, vai de 5 a 9%; a terceira, de 10 a 19%; a quarta vai de 20 a 34%, e a quinta corresponde aos países onde 35% ou mais da população sofre de subnutrição.

A situação da África, por exemplo. Mudou muito pouco desde 2003. Naquela ocasião, apenas cinco países africanos estavam na categoria 1: Líbia, Argélia, Tunísia, Egito e África do Sul (único que não se localiza na “África árabe”, setentrional). Agora, mais dois países se juntaram ao seleto grupo: Marrocos (África setentrional) e Gabão (central) – ou seja, a maioria ainda é de países do norte do continente, árabes e muçulmanos (os “malvados” segundo a visão de mundo tosca de muitos).

E por falar em muçulmanos, é digna de nota a situação do Irã, atual “perigo mundial”: segundo o mapa, a subnutrição era um problema para menos de 5% da população iraniana. Ou seja, o país está na mesma categoria que a maior parte da Europa.

Sim, “maior parte”, e não “toda” a Europa. A fome é uma realidade um pouco mais dolorosa para Eslováquia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Albânia, Bulgária e Moldávia. Países da Europa Oriental, poderá lembrar algum fã da “civilização” e do liberalismo, que ainda dirá que a fome “é fruto do comunismo” – mas convém lembrar que, exceto a Albânia (país mais pobre da Europa), eles não sofriam de tais problemas antes da queda dos regimes “socialistas”; e também que destes oito países, dois integram a União Europeia (Eslováquia desde 2004 e Bulgária desde 2007), que diziam ser “o paraíso”. Dentre os oito, há até mesmo integrantes da categoria 3 (10-19%), caso de Sérvia, Montenegro e Moldávia.

Já na América Latina, nada mudou muito. Cuba continua com menos de 5% de sua população subnutrida, assim como Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica e México (os dois últimos, novidades em relação a 2003).

O Brasil está um pouco abaixo, de 5% a 9% de subnutrição. Em 2003, o país se enquadrava entre 5 e 15% (ou seja, o critério para categorização era um pouco diferente), e provavelmente o percentual de pessoas subnutridas tenha baixado devido aos programas sociais do governo federal.

A fome no mundo

Achei no Pensamentos do Mal um “mapa da fome”, com dados de 2003, retirado da página da FAO.

No link que o Diego indicou (e que eu também indico infelizmente não funciona mais), era possível ver várias versões do mapa, com dados de diferentes épocas (1970-2003). E algumas coisinhas me chamaram a atenção.

A primeira delas, foi o fato de países como Suécia (no mapa de 1970) e Japão (1975) aparecerem entre os países onde um índice de 5% a 15% da população era subnutrida. É surpreendente, visto que são países cujo nível de vida é considerado elevado.

De 1975 para cá, menos de 5% da população da Líbia passa fome – e Muammar al-Gaddafi está no poder desde 1969. Com a população não morrendo de fome, fica difícil quererem derrubar ele, visto que a Líbia é uma das exceções da África – pelos dados de 2003, os únicos países africanos com menos de 5% de subnutrição de sua população eram Líbia, Argélia, Tunísia, Egito e África do Sul. Destes cinco países, o único não-muçulmano é a África do Sul.

Outra coisa interessante se vê no Leste Europeu. Em 1970, o único país da região onde havia mais de 5% da população passando fome era a Albânia, nação européia mais pobre – inclusive o mapa indicava, em 1970, que entre 15% e 25% dos albaneses eram subnutridos. Nos anos seguintes a situação da Albânia melhorou, e de 1975 em diante o percentual da população subnutrida ficou entre 5% e 15%. Mas a Albânia ganhou a companhia de outros países após a queda do socialismo na Europa Oriental. No mapa de 2003, figuram entre os países com mais de 5% da população subnutrida: Albânia, Croácia, Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia-Montenegro¹, Macedônia, Bulgária, Moldávia (ex-república soviética) e Eslováquia.

A Rússia também teve mais de 5% da população passando fome. Não coincidentemente, isto aconteceu depois do fim da União Soviética, no período de 1995 a 1998.

E tem Cuba. A ilha teve um percentual de 15% a 25% da população subnutrida de 1993 a 1996, justamente quando viveu seu pior momento na economia, após a desintegração da URSS. Em 2003, menos de 5% dos cubanos passavam fome. Algo raro na América Latina: além de Cuba, só Chile, Argentina e Uruguai viviam situação idêntica na mesma época.

Ah, e o único país latino-americano que nunca teve mais de 5% de sua população subnutrida de 1970 a 2003 é a Argentina.

Quanto ao Brasil, a situação já esteve pior, mas boa não está. Em 1970 e 1975, entre 15% e 25% dos brasileiros passavam fome. A situação melhorou em 1980 (5% a 15%), piorou em 1985 (voltando aos patamares de 1970 e 1975), mas desde 1990 o índice não sofre maiores alterações, ficando entre 5% e 15%.

———-

¹ A separação entre Sérvia e Montenegro aconteceu em maio de 2006.