O saudosismo da infância

Das modinhas do Facebook, a de colocar foto de criança no perfil nos dias que antecedem o 12 de outubro é provavelmente a melhor (ou a menos pior, dependendo do ponto de vista). Impressionante o quanto algumas pessoas mudaram, ou continuam parecidas com o que eram na infância.

Lembrar a infância também remete aos brinquedos da época. E um dos mais marcantes para as crianças do final dos anos 80 e boa parte dos 90 foi, sem dúvida, o Pense Bem. Simulando um computador, oferecia diversos jogos com questões sobre diversos temas – ou seja, além de divertido, era também didático. Bem mais interessante fazer contas num Pense Bem do que numa prova de Matemática, né?

O Pense Bem foi meu presente mais festejado no Natal de 1989, mas se não me engano ele passou a virada do ano já na assistência técnica. Não sei se era porque brincava demais com ele, se tinha defeito etc. Mas várias vezes ele foi parar no conserto. E eram um inferno as pilhas dele: seis grandes que gastavam com uma incrível rapidez. Tanto que, depois do Pense Bem, o presente mais festejado foi uma fonte de alimentação ligada diretamente na rede elétrica, que tornava as pilhas desnecessárias.

Abaixo, um vídeo que mostra o Pense Bem em funcionamento. Feliz 1990 a todos!

AGUANTE CELESTE!

Já se passaram três dias, mas eu não podia deixar de escrever sobre isso. O Uruguai, que começou tão desacreditado, já está entre as oito melhores seleções da Copa!

Algo que para o Brasil, é até pouco (afinal, anormal é a Seleção não ficar entre os oito primeiros: só aconteceu em 1934, 1966 e 1990). Já para o Uruguai, que ganhou duas Copas do Mundo, mas desde 1970 não chegava às quartas-de-final, é algo acima das expectativas.

Depois da bela campanha de 1970 (quando a Celeste acabou em 4º lugar), antes de 2010 o Uruguai só havia participado de quatro das nove Copas disputadas (1974, 1986, 1990 e 2002), e vencido uma mísera partida, 1 a 0 contra a Coreia do Sul em 1990 (quando o futebol coreano não existia), gol marcado por Daniel Fonseca no último minuto de jogo. Além disso, no âmbito clubístico o futebol uruguaio também declinou acentuadamente nos últimos tempos: para se ter uma ideia, ao chegar à semifinal da Libertadores do ano passado, o Nacional quebrou um tabu que durava desde 1989, última ocasião em que um clube do Uruguai havia alcançado tal fase.

Assim, é mais fácil compreender porque a campanha do Uruguai na África do Sul já é histórica mesmo que venha a acabar na próxima sexta diante de Gana (aliás, êta jogo para me deixar dividido, visto que também gostaria muito de ver uma seleção africana na semifinal). É o resgate da auto-estima de um futebol com tantas glórias, mas que há tanto tempo não chega perto de alguma grande conquista – a última taça da Celeste foi a Copa América de 1995, disputada no próprio Uruguai. Mesmo não conquistando a Copa, ao menos os uruguaios poderão voltar a dizer sí, se puede.

O que me deixa bastante feliz, por conta do grande carinho que nutro pelo país vizinho. É do Uruguai uma parte de minha própria origem: minha avó paterna, Luciana, é filha de uruguaios, nascida na zona rural de Santa Vitória do Palmar. Durante boa parte da infância, só falou espanhol (e ainda hoje, aos 88 anos de idade, conserva alguns traços do idioma na sua fala). Em 16 de julho de 1950, torceu pelo Brasil, assim como os irmãos, junto ao rádio. Já a mãe dela, minha bisavó, em silêncio desejou a vitória uruguaia.

E ao final, foi a minha bisavó que dançou e cantou, feliz da vida: ¡Viva el Uruguay! E todos celebraram juntos. O mesmo futebol que “separou” mãe e filhos durante 90 minutos por conta deles terem nascido “um pouco para cá” de uma linha imaginada, acabou por “uni-los” novamente, e deixando a todos felizes.

As Copas que eu vi: Itália 1990

A Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, é a primeira da qual eu tenho lembranças. Mesmo assim, não chegou a ser marcante para mim, visto que na época, mesmo que já com 8 anos de idade, eu não gostava muito de futebol – talvez por sempre ser o último escolhido na hora de montar os times nas aulas de Educação Física. Eu preferia ser “craque” em outras coisas, como em Matemática e Ciências (matéria na qual fui aprovado com média final 10 na 2ª série do 1º grau, que eu cursava naquele ano). Assim, acabei por não dar muita bola para a Copa.

Posso dizer que não perdi muita coisa em matéria de futebol. O Mundial da Itália foi o de menor média de gols por partida até hoje: 2,2 (115 em 52 jogos). O artilheiro foi “da casa”: o italiano Salvatore “Toto” Schillaci, com 6 gols.

Como eu disse, poucas coisas me marcaram desta Copa. Mas, vamos a elas.

Primeiro, a vinheta da RAI que sempre abria as transmissões dos jogos da Copa. Provavelmente a mais bacana dos Mundiais recentes.

Também foi marcante o “Amarelinho”. Aquele bonequinho redondo, de cor amarela, que me fazia sempre querer ver os jogos do Brasil no SBT. Ele reagia de diversas formas aos lances do jogo: vibrava e berrava a cada gol do Brasil, roía as unhas nas horas de sufoco, e chorava quando a Seleção perdia.

No dia 24 de junho de 1990, eu não vi o choro do Amarelinho, pois assistia o jogo pela Bandeirantes. Melhor, quase todo o jogo. Justo na hora do gol da Argentina que eliminou o Brasil nas oitavas-de-final, eu estava fazendo cocô… Então, 20 anos depois, aí está o vídeo (mas claro que eu já vi antes, meu pai gravou aquele jogo) – e reparem que na hora que Luciano do Valle narra o gol, ao fundo o comentarista (cujo nome esqueci) Juarez Soares diz um “puta que pariu”…

O Brasil, de qualquer jeito, não enchia os olhos de ninguém. Numa Copa marcada pelo defensivismo, quem chamou a atenção foi Camarões, que logo de cara surpreendeu a Argentina, campeã de 1986, na partida de abertura.

Com um futebol ofensivo e mais “brasileiro” do que o próprio Brasil, e ainda por cima contando com o veterano craque Roger Milla (jogando muito aos 38 anos), os Leões Indomáveis seguiram surpreendendo, chegando até as quartas-de-final, feito até então inédito para uma seleção da África (que seria igualado por Senegal em 2002). Camarões caiu diante da Inglaterra, mas só na prorrogação – e no tempo normal esteve a 10 minutos da semifinal.

A Copa de 1990 teve a participação do Uruguai, que foi eliminado pela anfitriã Itália nas oitavas-de-final, em partida que assisti com a minha avó, filha de uruguaios. Desde então, a Celeste só jogou uma Copa em 2002, e sem passar da primeira fase.

A taça ficou com a Alemanha Ocidental, que bateu a Argentina (que teve dois jogadores expulsos) na final por 1 a 0, gol marcado por Andreas Brehme em um pênalti que foi, no mínimo, duvidoso.

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Agora, algumas curiosidades sobre a Copa do Mundo de 1990 (não necessariamente ligadas à minha memória):

  • Três seleções fizeram sua estreia em Copas na Itália: Costa Rica, Emirados Árabes e Irlanda;
  • Três também se despediram. A Tchecoslováquia, que se dissolveu em 1º de janeiro de 1993, ainda disputou as eliminatórias para a Copa de 1994 (iniciadas em 1992), mas sem obter classificação. A União Soviética deixou de existir em dezembro de 1991, quando a tabela das eliminatórias para a Copa de 1994 já estava pronta, e foi substituída pela Rússia, considerada “herdeira” da URSS pela FIFA – às outras ex-repúblicas soviéticas não foi dado o mesmo direito. A outra despedida, mas em tom bem mais feliz, foi da Alemanha Ocidental, que durante a Copa “unificou” a torcida em um país que legalmente ainda era dividido; no dia 3 de outubro de 1990 a Alemanha voltou a ser uma só, e a seleção também;
  • O goleiro italiano Walter Zenga estabeleceu um recorde de invencibilidade em Copas, passando 517 minutos sem levar gol. O primeiro foi na semifinal contra a Argentina – justamente o do empate que levou a decisão aos pênaltis, na qual a Itália foi eliminada;
  • A estreante Irlanda conseguiu uma façanha: foi até as quartas-de-final sem vencer nenhum jogo e marcando apenas 2 gols;
  • O grupo F da Copa, formado por Inglaterra, Irlanda, Holanda e Egito, foi um dos piores da história dos Mundiais: em 6 partidas, foram marcados apenas 7 gols. O único jogo que não acabou empatado foi Inglaterra x Egito, vencido pelos ingleses por 1 a 0;
  • Em sua segunda participação em Copas, a Colômbia foi às oitavas-de-final, classificação obtida em um empate no último minuto contra a Alemanha Ocidental. O goleiro colombiano era o folclórico René Higuita, que tinha o hábito de ficar adiantado e, às vezes, sair driblando os atacantes adversários. Mas, foi inventar de fazer isso com o camaronês Roger Milla, na prorrogação… Resultado: Colômbia eliminada, Camarões nas quartas;

  • Na final, o gênio argentino Maradona foi hostilizado pelos torcedores italianos presentes ao Estádio Olímpico de Roma. Além do remorso pela eliminação da Itália diante da Argentina, havia também outro motivo: Maradona era o grande ídolo do Napoli, e também representava o anseio dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelos do norte – que, pelo visto, mantinham a mesma atitude. Quando o hino nacional argentino foi executado, os italianos vaiaram, apupos que nitidamente aumentam quando Maradona aparece na tela, e o craque não deixou barato, soltando um perceptível “hijos de puta”.

Quem vaia, ouve…

8 de julho de 1990, grande final da Copa do Mundo. A Alemanha conquistou seu terceiro título ao vencer por 1 a 0 (gol de Brehme, marcado de pênalti) a Argentina, que na semifinal havia eliminado nos pênaltis a anfitriã Itália.

A maior parte do público presente ao Estádio Olímpico de Roma torcia pela Alemanha: os próprios alemães, e os italianos que desejavam ver a Argentina derrotada. Durante a execução do hino nacional argentino, uma forte vaia se fez presente, e Maradona, ao ver a câmera de televisão passar, não pensou duas vezes e desabafou…