Para saciar a fome do Chaves

Pobre México, tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos. A frase, dita por Porfirio Díaz (ditador deposto pela Revolução Mexicana em 1911), sintetiza boa parte da história do México no Século XIX: considerável porção do território do país acabou nas mãos dos Estados Unidos, mediante guerras ou compras de terras. Não é por acaso que várias cidades estadunidenses têm nomes “espanhóis” (San Francisco, Los Angeles, San Diego, Las Vegas etc.): a Califórnia, por exemplo, pertenceu ao México até 1850.

Jugamos como nunca, perdimos como siempre. Tal frase é de Alfredo Di Stéfano (craque argentino naturalizado espanhol), mas é sempre lembrada pelos mexicanos a cada fracasso de sua seleção em Copas do Mundo. Afinal, o México sempre é um adversário difícil de ser batido (como a Seleção Brasileira bem sabe, no último Mundial ficou no 0 a 0 em uma jornada memorável do goleiro mexicano Ochoa), mas desde 1994 vem sendo eliminado nas oitavas-de-final. Aliás, vale lembrar a forma dramática como se deu a derrota de 2014: vencia a Holanda no Castelão por 1 a 0 até os 42 do segundo tempo, quando Sneijder empatou com um chutaço; nos acréscimos, Huntelaar virou o jogo com um gol de pênalti (incorretamente marcado, ao meu ver). E como se não bastasse, essa foi a terceira vez em que o México abriu o placar nas oitavas: já tinha saído na frente da Alemanha em 1998 e da Argentina em 2006.

Mas, se tem algo em que o México não perde de jeito nenhum, trata-se do seriado “Chaves”, cuja exibição no Brasil completou 30 anos no último dia 24 de agosto. O personagem principal é um tanto representativo da realidade mexicana e latino-americana como um todo: um menino pobre e esfomeado que não tem família (como o próprio Chaves diz sobre seus pais, “ainda não fomos apresentados”) e que depende muito da solidariedade alheia; talvez por isso tenhamos tanta identificação com o seriado a ponto dele ser tão adorado mesmo que os episódios se repitam desde 1984.

Se o México “joga como nunca e perde como sempre”, comigo na cozinha acontece o contrário. Ainda mais quando foi a minha vez de ir fazer a comida mexicana, mais um dos pratos da “Copa da Culinária”, nos almoços de sábado na casa da minha avó. Eu decidi o prato na madrugada de sábado: achei uma receita de Feijão Mexicano que tinha todo jeito de ser deliciosa. Porém, para poder fazê-la esqueci um detalhe: deixar o feijão de molho… Resultado: tive de trocar. Fui novamente à pesquisa na manhã de sábado, achei um prato chamado Frango à Mexicana, resolvi fazer, e ficou bom! Me atrapalhei como nunca, deu certo como sempre… Igual aos episódios do Chapolim, em que tudo acaba bem mesmo depois de incontáveis e hilárias trapalhadas.

Ingredientes:

  • 100ml de vinho branco;
  • 100g de amêndoas;
  • 2 dúzias de azeitonas;
  • 200g de tomates;
  • 250g de azeite;
  • 1 dente de alho;
  • Pimenta de Caiena;
  • Farinha de trigo;
  • 1 folha de louro;
  • 1 cebola;
  • 1 frango.

Modo de preparo:

Cortar o frango e condimentá-lo, passando-o pela farinha; fritar no azeite com a cebola em rodela e o alho esmagado; juntar o vinho branco, deixando cozinhar durante cerca de 30 minutos, condimentando-o com o louro e a pimenta de Caiena; pouco antes de servir, juntar as amêndoas cortadas em fatias finas, as azeitonas e os tomates.


Como em outras receitas que fiz, nem tudo correu conforme o script. Mas dessa vez, foi bem pouca coisa mesmo: a diferença principal foi a pimenta. Não achei a pimenta de Caiena, então optei pela vermelha; mas sem exagerar, devido às lembranças do “calorão” que foi a comida chilena.

O resultado, está abaixo. É ou não de saciar a fome do Chaves?

frango mexicano


Fazia mais de um mês que eu não postava nenhuma receita, mas não é por eu não ter feito mais nenhum prato. Nesse meio tempo eu fiz a comida italiana e não escrevi ainda… Em breve, publico aqui.

“Tá com pena, leva pra casa!”

Foi só os “juízes” das redes sociais descobrirem os perfis de Patrícia Moreira (torcedora gremista que as câmeras flagraram gritando “macaco” para o goleiro santista Aranha) que os ataques baixos começaram, logo após Grêmio x Santos. Ela teve de apagar suas contas no Facebook e no Instagram para se livrar das ofensas, a maior parte de cunho machista.

Na última quinta-feira, Patrícia prestou depoimento. E na sexta-feira, deu uma declaração à imprensa. Tanto na quinta como na sexta, ela chorava muito, e não acho que sejam “lágrimas de crocodilo” como alguns já disseram. A superexposição e o “linchamento virtual” (aos quais não foram submetidos os outros torcedores que também ofenderam Aranha) obviamente deixaram a jovem muito abalada.

Mas, adivinhem, pessoas que recordo muito bem de terem chamado Patrícia de “vagabunda” agora dizem sentir “pena” dela. Foram de um extremo ao outro: da fúria condenatória à total solidariedade. Acreditem se quiser, até uma página “solidária” a Patrícia foi criada no Facebook: quando recebi o convite para curti-la, pensei seriamente em ironizar e mandar uma mensagem ao amigo que me fez a “sugestão” dizendo o bom e velho “tá com pena, leva pra casa” – uma das frases mais repetidas pela turma da indignação seletiva e do “bandido bom é bandido morto”.

Por essa lógica, genialmente ironizada no vídeo acima, o brado nas redes sociais não deveria ser pelo “justiçamento” de Patrícia? Afinal, injúria racial é crime, quem comete crime é “bandido”, e “bandido bom é bandido morto”, logo…

Mas não, já mudou tudo. Primeiro, porque o Grêmio foi condenado, e boa parte da fúria dirigida por muitos gremistas a Patrícia passou a ser direcionada ao STJD (que merece muitas críticas, é verdade, mas não exatamente por este episódio). Segundo, por conta da postura “chorosa” da torcedora: como disse, não acredito que foram “lágrimas de crocodilo” que tinham por objetivo fazer com que se sentisse pena dela; mas ao mesmo tempo, é óbvio que ela pedir perdão aos prantos gera um sentimento de compaixão por parte de muitas pessoas. Afinal, quem nunca errou?


Sabem aquele velho senso comum sobre direitos humanos, segundo o qual seus defensores só se preocupam em “proteger bandidos”? Pois bem: quem milita pela causa dos direitos humanos têm por objetivo garanti-los a todas as pessoas.

Mas, então, por que eles não “defendem” os “cidadãos de bem” (detesto essa expressão mais do que o verão de Porto Alegre) contra a “maldade” dos “bandidos”?

Não, não é porque os defensores dos direitos humanos são “contra as pessoas honestas” (me pergunto como alguém pode pensar tamanha merda), e sim porque criminosos (ou pessoas que simplesmente foram acusadas) se encontram em uma situação de extrema vulnerabilidade: em geral, temos a tendência a vê-los como párias e mesmo “monstros”, e não como sintomas de uma desordem social (ainda mais em uma sociedade tão desigual como a brasileira), o que para não poucas pessoas “justifica” que se façam as piores barbaridades (afinal, são “bandidos” que põem em risco os “cidadãos de bem”).

Pois bem: não é exatamente a situação na qual Patrícia Moreira se enquadra atualmente? Basta lembrar o “linchamento virtual” do qual ela foi vítima: a jovem foi tratada como se fosse a “encarnação do mal” (no caso, o racismo) e não como produto de uma sociedade racista, e mesmo que seja crescente o sentimento de “pena” por ela, ainda há quem pense que a torcedora é o problema e não um sintoma dele.

Ou seja: quem se preocupa com Patrícia está defendendo os direitos humanos, mesmo que sem saber disso. Aliás, da mesma forma que eu fiz já no início de toda a polêmica: por mais que a jovem procure “se justificar” pelo que fez, não pode ficar impune; mas, ao mesmo tempo, não se pode usar isso como desculpa para cometer qualquer tipo de violência contra ela. Só que penso o mesmo sobre qualquer pessoa que cometa (ou seja acusada de cometer) crimes: minha defesa dos direitos humanos não é seletiva.

Quem nunca?

“Que atire a primeira pedra quem nunca…”, começa assim um famoso ditado citado por muitas pessoas. Que podemos “resumir” na expressão “quem nunca?”, pois tem bastante semelhança.

Certa vez, em conversa com uma amiga eu lembrava de um porre homérico que tomei e demonstrava incômodo com aquilo: minha amiga respondeu que eu não devia me atucanar por aquilo e disse “quem nunca?”, o que foi de certa forma reconfortante. Afinal, qual pessoa que consome ou já consumiu bebidas alcoolicas nunca exagerou?

O “quem nunca?” pode ser aplicado às mais diversas situações em que alguém “passa do limite”. Pode ser na bebida, na comida (quem nunca passou mal depois de encher a pança de lasanha, por exemplo?)… Mas também em questões mais sérias.

Quinta, algumas pessoas na torcida do Grêmio ofenderam de forma racista o goleiro Aranha, do Santos. O assunto virou polêmica nacional, e não falta quem defenda severa punição ao Tricolor (inclusive eu, que sou gremista). Mas, ainda assim há quem ache exagero e diz “quem nunca gritou ‘macaco’ no ‘calor do momento’?”.

Foram algumas pessoas que ofenderam Aranha. Mas quem está “pagando o pato” é apenas uma torcedora que, não bastasse as consequências óbvias (será indiciada e, devido à publicidade negativa, corre risco de perder o emprego), teve de ouvir todo tipo de ofensas machistas nas redes sociais (a ponto de apagar suas contas no Facebook e no Instagram). Mas, “quem nunca xingou uma mulher de ‘vadia’ ou ‘vagabunda’ alguma vez?”, muitos devem questionar.

Entre os colorados, há a maioria sensata, que defende a punição ao Grêmio mas faz questão de lembrar, corretamente, que aquele grupo não representa toda a torcida gremista. Só que sempre tem aquela galera “que faz barulho” e acusa todos os “gaymistas” (sim, é isso mesmo que costumam dizer) de serem racistas. Aí ouvem em resposta que estão agindo de forma homofóbica (sem contar os que certamente dirão que todos os colorados são homofóbicos), e então lá vem o “quem nunca chamou o adversário de ‘viado’ no estádio?”, dizendo que sem tais gritos o futebol vai acabar e etc. e tal.

Já deu para perceber o óbvio: o “quem nunca?” é sempre usado como atenuante para nossos erros. Afinal, “quem nunca” errou? O problema é por conta disso achar que tudo está bem, quando na verdade não está.


“Mas tu falas disso e certamente já cantou ‘chora macaco imundo’ junto com a Geral e o estádio inteiro”, alguém poderá dizer – com toda a razão, diga-se de passagem. Todos nós já agimos de forma preconceituosa, justamente porque vivemos em uma sociedade cheia de preconceitos e acabamos tendo-os como “naturais”. Porém, isso não nos tira a responsabilidade por agirmos de tal maneira.

Sim, já cantei a infame música da Geral (“e quem nunca cantou aquilo no estádio?”), assim como já tive inúmeras outras atitudes que podem ser caracterizadas como racistas, machistas, homofóbicas etc. Sempre “no calor do momento” (“e quem nunca falou merda ‘no calor do momento’?”), ofendi muitas pessoas, sejam próximas ou desconhecidas: elas podem nem saber, mas foi isso que minhas atitudes significaram, mesmo que “involuntariamente”. A todas, peço desculpas.

“Ah, mas desse jeito o mundo vai ficar muito chato, essa patrulha do politicamente correto etc.”, alguém poderá dizer. Pois olhe: eu não tenho medo algum de tal “patrulha do politicamente correto”. Primeiro porque há diferenças entre respeitar e ser “politicamente correto”. Segundo porque ao repensar minhas atitudes, também aprendi a me “policiar”: penso bem antes de dizer qualquer coisa, procuro ter certeza de que aquilo não vai ofender ninguém. Afinal, eu não gostaria nem um pouco que alguém falasse algo ofensivo à minha pessoa: por que então eu teria o direito a fazer o mesmo com outras?

“Mas no calor do momento sempre acabamos exagerando”. Fica a dica, então: sempre que estiveres de “cabeça quente”, espera ela esfriar antes de falar qualquer coisa.

Racismo, machismo e irresponsabilidade

O Grêmio perdeu para o Santos por 2 a 0 na Arena e praticamente deu adeus à Copa do Brasil. Mas o destaque, infelizmente, são os insultos racistas contra o goleiro santista Aranha. Espero que dessa vez haja punições – inclusive ao Grêmio, para que idiotas pensem muitas vezes e não mais cometam atos racistas.

Várias pessoas chamaram Aranha de “macaco”, mas só uma está “pagando o pato”. Muitos, que provavelmente não ligam nem um pouco para racismo mas adoram “xingar muito” e curtem “fazer justiça com as próprias mãos”, atacam com insultos machistas a torcedora gremista que teve divulgados perfis nas redes sociais, telefone, fotografia, endereço residencial e de trabalho. Ela sofre um “linchamento virtual” e corre risco de sofrer agressões físicas graças a um bando de irresponsáveis.

Não esqueçam de uma coisa: racismo é crime, mas linchamento também. Aliás, só os insultos que ela sofre também já configuram ações criminosas.

A batalha sem campo

Em 22 de junho de 1941, teve início a invasão da União Soviética por tropas alemãs, quebrando o pacto de não-agressão acordado entre a Alemanha nazista e a URSS menos de dois anos antes. Os alemães adentraram ao território soviético de maneira arrasadora, visto que o ataque de forma alguma era esperado (diz-se que Josef Stalin demorou dias a emitir algum comunicado por sentir-se traído por Adolf Hitler). Somente onze dias após o início da invasão é que o ditador soviético finalmente falou: determinou o uso da chamada “tática de terra arrasada”, que consistia em destruir tudo o que pudesse servir aos alemães; consequentemente, os próprios soviéticos passaram a queimar casas e plantações, de modo a deixar as forças inimigas desabrigadas e sem alimentos à disposição, o que as prejudicaria principalmente quando tivesse início o inverno, que naquela região é rigorosíssimo. Foi a mesma tática utilizada para repelir a invasão napoleônica à Rússia em 1812, e que novamente deu certo na Segunda Guerra Mundial (ou “Grande Guerra Patriótica”, como chamam os russos).

Porém, a expulsão dos alemães demorou mais tempo, pois embora eles não estivessem preparados para as dificílimas condições impostas pelo inverno russo, ainda assim eram forças muito bem equipadas. Após o inverno de 1941-1942 a União Soviética continuava na defensiva frente à Alemanha, apesar dos invasores não terem conseguido tomar duas cidades de grande valor simbólico na operação: Moscou (por ser a capital) e Stalingrado (por seu nome homeagear Stalin). E foi justamente na “Cidade de Stalin” que se deu o “ponto de inflexão” na guerra: a famosa Batalha de Stalingrado, travada por vários meses nas ruas da cidade, culminou com uma decisiva vitória soviética em fevereiro de 1943. Dali em diante, a URSS tomou a ofensiva e por dois anos avançou até a conquista de Berlim em maio de 1945 e o consequente fim da guerra.


O leitor pode ser curioso e querer saber onde exatamente se deu tão importante batalha. Logicamente, vai ao Google Maps e digita “Stalingrado, Rússia”, mas percebe que a pesquisa dá como resultado uma cidade chamada “Volgogrado”, sugestivamente às margens do Rio Volga, um dos mais importantes da Rússia.

Estranho: afinal, não dizem que o Google sabe de tudo? Ou será que a Batalha de Stalingrado é apenas um mito e na verdade nunca aconteceu? Afinal, nunca se viu batalha sem campo (embora esta tenha se dado em área urbana).

Pois o Google sabe, sim. Tanto de Geografia como de História.

A cidade que ele encontrou já mudou de nome duas vezes. Fundada em 1589 com o nome de Tsaritsyn, em 1925 passou a chamar-se Stalingrado para homenagear Stalin, recém ascendido à liderança da União Soviética após a morte de Lenin (sem contar que não fazia mais sentido uma cidade com nome que remetesse ao deposto regime tsarista). Mas no ano de 1961 sua denominação foi novamente alterada: passou a chamar-se Volgogrado (“Cidade do Volga”), e não foi exatamente para homenagear o rio.

O que aconteceu foi o processo conhecido como “Desestalinização”, que consistiu na eliminação do culto à personalidade de Stalin (falecido a 5 de março de 1953) após seu sucessor Nikita Khrushchev denunciar no famoso “Discurso Secreto”, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956), os crimes cometidos pelo regime stalinista. Foi algo chocante aos que ouviram Khrushchev, dado que Stalin era visto como herói devido à sua liderança na Segunda Guerra, e não como um terrível ditador cuja política repressiva vitimou tanto opositores como muitos integrantes do próprio Partido Comunista.

As denúncias tornaram inaceitável manter qualquer homenagem a Stalin – e eram muitas. Incluindo o hino nacional (que continha referências ao ditador) e a cidade onde se dera tão importante batalha da “Grande Guerra Patriótica”.

A importância de tais homenagens não foi suficiente para mantê-las “intactas”. A letra do hino soviético foi suprimida e só readotada em 1977, mas sem as referências ao ditador. Já Stalingrado foi rebatizada como Volgogrado: a mudança provavelmente não agradou a todos os habitantes da cidade (desde simpatizantes do ditador até “pragmáticos” que preferiam o antigo nome por estarem acostumados a ele), mas não era mais possível homenagear Stalin e, por conta disso, ela não foi revertida.


Os parágrafos acima demonstram que mudar nomes de ruas por homenagearem ditadores não é “bobagem” ou “falta do que fazer”, como dizem muitos idiotas em caixas de comentários por aí acerca de uma grande vitória obtida hoje em Porto Alegre por quem defende a democracia: a aprovação pela Câmara de Vereadores de um projeto de lei da bancada do PSOL que altera o nome da principal entrada da cidade, de Avenida Castelo Branco para Avenida da Legalidade e da Democracia. Fernanda Melchionna e Pedro Ruas já tinham apresentado projeto semelhante em 2011, mas ele fora rejeitado por 16 votos contra 12. Hoje, a vitória foi acachapante: 25 a 5.

O projeto será enviado ao prefeito José Fortunati (PDT). Se sancionado, a principal entrada de Porto Alegre deixa de homenagear o “inaugurador” da ditadura militar e passa a fazer referência à democracia e a um movimento em sua defesa, a Legalidade – que, coincidentemente, aconteceu no mesmo ano em que Stalingrado foi rebatizada como Volgogrado (1961) e foi liderado pelo fundador do partido de Fortunati, Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.

Quem é contra a mudança provavelmente se utiliza de argumentos semelhantes a quem não quis que Stalingrado passasse a se chamar Volgogrado. Desde simpatia pela ditadura militar (autoritário é autoritário, independente de ideologia) até “pragmatismo”, por estarem acostumados ao nome que, espero, logo deixe de ser “atual”. Porém, reparem que é uma alteração com muito menos “tamanho”: não é uma cidade (que ainda por cima era famosa por uma das mais importantes batalhas da Segunda Guerra Mundial), apenas uma via que, inclusive, não tem nenhuma residência ou estabelecimento comercial, e cujos prédios mais próximos têm entradas por outras ruas (ou seja, em nada atrapalhará, pois não será preciso alteração de endereços devido à nova denominação).

Sem contar que a avenida é uma via expressa, praticamente sem esquinas. Logo, o custo da troca da sinalização viária (que muitos certamente questionarão) será imensamente inferior à dor causada por ditadores como Castelo Branco a muitos brasileiros – que em muitos casos se traduziu em prejuízo financeiro, pois várias pessoas perderam seus empregos pelo simples fato de serem contrárias à ditadura.


João Carlos Nedel (PP), um dos vereadores que votaram contra a proposta, disse que a alteração é uma tentativa de reescrever a História. Demonstrou assim que não entende nada de História: ela é constantemente reescrita a cada novo trabalho historiográfico produzido.

O debate da Band

Terminou agora há pouco (já passa de uma da manhã) o debate presidencial da Rede Bandeirantes. Muito longo e cansativo.

Definitivamente, ainda bem que existe o Twitter. Não fosse ele, eu teria desligado a televisão há bem mais tempo… Mas graças a ele, resisti até o final.

Algumas observações:

  • Luciana Genro (PSOL) mandou muito bem ao chamar o candidato do PSC apenas de Everaldo, lembrando que não se deve misturar religião e política. É assim que funciona um Estado laico;
  • Ainda estou tentando entender como Chico Mendes era “elite”. Marina Silva (PSB?) disse isso;
  • Incrível a insistência na promessa populista de cortar cargos em comissão (CCs). Esquecem que muitos CCs são servidores concursados (ou seja, não “caíram de paraquedas” lá), sem contar que não se pode sair nomeando CCs “a torto e direito”. Nesse debate felizmente não ouvi aquele blá-blá-blá de “governo técnico e não político” (o que criaturas assim fazem disputando eleições?);
  • É tanta gente falando em “renovar a política”, “promover uma nova política”, que a maior novidade que pode acontecer é alguém prometer “a velha política”;
  • Pessoal da direita fala em “Estado mínimo” mas ao mesmo tempo defende mais polícia como uma das “soluções mágicas” para criminalidade;
  • Perto do tom predominante nas perguntas dos jornalistas, William Bonner é apenas um “implicante”. Como disse Marcelo Rubens Paiva no Twitter, “jornalismo da Band está à direita da direita”;
  • Debate mostrou que, infelizmente, a questão indígena só é preocupação das candidaturas mais à esquerda. Dilma poderia ao menos prometer mais diálogo em um segundo mandato. Já para as candidaturas da direita, vale o senso comum de que “índio é vagabundo”;
  • Jornalista da Band (não recordo qual) chamou Política Nacional de Participação Social (PNPS), proposta pelo governo, de “bolivariana”. Avisem ele que para muitos (inclusive eu) isso é elogio;
  • E Aécio Neves (PSDB) concordou com o jornalista da Band;
  • Em um momento Marina se enganou e ao se referir ao PSDB no governo falou “PMDB”. Aí teria de falar dos últimos 30 anos, pois salvo breves interregnos o PMDB está no governo desde 1985;
  • Boris Casoy chamou regulação da mídia de “censura”. Alguém avisa o cara que é hora de “virar o disco”, por favor;
  • Outro jornalista da Band (não recordo qual) falou sobre propostas de ensinar criacionismo nas escolas públicas. Algo que sequer deveria ser cogitado em um Estado laico;
  • Marina disse que Ensino Religioso em escolas públicas não é obrigatório, mas não acho isso suficiente: deveria ser proibido. Já li propostas de que a disciplina ensinasse História das Religiões, mas para isso basta aumentar a carga horária de História;
  • Levy Fidélix (PRTB) falou em mais prisões para “atender aos anseios das ruas do ano passado”; Luciana Genro lembrou que junho de 2013 começou com as pessoas pedindo mais direitos e não mais prisões;
  • Em suas considerações finais, Aécio anunciou Armínio Fraga (presidente do Banco Central durante segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso): sorte dele é que boa parte dos eleitores já tinha ido dormir àquela altura;
  • Eduardo Jorge (PV) foi a surpresa positiva do debate. Único candidato a defender abertamente a descriminalização da maconha e do aborto, o que já lhe rendeu o apelido de “Mujica brasileiro” nas redes sociais;
  • Everaldo Pereira (PSC) é a favor da liberdade de imprensa “sem marco regulatório”, como diz defender o “Estado mínimo”. Exceto em relação aos direitos de mulheres e homossexuais: aí é Estado máximo e marco regulatório rígido.

E o debate acabou aí. Felizmente.

100 anos de um gênio

Júlio Cortázar (1914-1984)

Júlio Cortázar (1914-1984)

Nesta terça-feira, completam-se 100 anos do nascimento de Julio Cortazar, escritor argentino que, curiosamente, durante boa parte de sua vida morou fora da Argentina. Começando pelo próprio 26 de agosto de 1914: Cortázar nasceu na embaixada argentina em Bruxelas, Bélgica, nas primeiras semanas da Primeira Guerra Mundial. Mas a cidade onde mais viveu foi Paris: mudou-se para a capital francesa em 1951 e lá permaneceu até sua morte, em 12 de fevereiro de 1984.

Julio Cortázar foi um dos escritores mais originais de seu tempo, e dos mais geniais que já tive o prazer de ler. Muitas de suas obras cruzam a fronteira entre o real e o fantástico, como se vê nas “Histórias de Cronópios e de Famas” (sobre a lápide do túmulo de Cortázar no Cemitério de Montparnasse, em Paris, se ergue a imagem de um “cronópio”).

O conto abaixo é um dos que compõem “Histórias de Cronópios e de Famas”.

Ocupações Maravilhosas

Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.

Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços bem abertos, igual à ave cakuy que se vê nas árvores do norte da Argentina.

Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebradas que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.

Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer em frente ao Ministério, abrir caminho a golpes de envelope com selos, deixar para trás o último secretário e entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca e ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto.