A batalha sem campo

Em 22 de junho de 1941, teve início a invasão da União Soviética por tropas alemãs, quebrando o pacto de não-agressão acordado entre a Alemanha nazista e a URSS menos de dois anos antes. Os alemães adentraram ao território soviético de maneira arrasadora, visto que o ataque de forma alguma era esperado (diz-se que Josef Stalin demorou dias a emitir algum comunicado por sentir-se traído por Adolf Hitler). Somente onze dias após o início da invasão é que o ditador soviético finalmente falou: determinou o uso da chamada “tática de terra arrasada”, que consistia em destruir tudo o que pudesse servir aos alemães; consequentemente, os próprios soviéticos passaram a queimar casas e plantações, de modo a deixar as forças inimigas desabrigadas e sem alimentos à disposição, o que as prejudicaria principalmente quando tivesse início o inverno, que naquela região é rigorosíssimo. Foi a mesma tática utilizada para repelir a invasão napoleônica à Rússia em 1812, e que novamente deu certo na Segunda Guerra Mundial (ou “Grande Guerra Patriótica”, como chamam os russos).

Porém, a expulsão dos alemães demorou mais tempo, pois embora eles não estivessem preparados para as dificílimas condições impostas pelo inverno russo, ainda assim eram forças muito bem equipadas. Após o inverno de 1941-1942 a União Soviética continuava na defensiva frente à Alemanha, apesar dos invasores não terem conseguido tomar duas cidades de grande valor simbólico na operação: Moscou (por ser a capital) e Stalingrado (por seu nome homeagear Stalin). E foi justamente na “Cidade de Stalin” que se deu o “ponto de inflexão” na guerra: a famosa Batalha de Stalingrado, travada por vários meses nas ruas da cidade, culminou com uma decisiva vitória soviética em fevereiro de 1943. Dali em diante, a URSS tomou a ofensiva e por dois anos avançou até a conquista de Berlim em maio de 1945 e o consequente fim da guerra.


O leitor pode ser curioso e querer saber onde exatamente se deu tão importante batalha. Logicamente, vai ao Google Maps e digita “Stalingrado, Rússia”, mas percebe que a pesquisa dá como resultado uma cidade chamada “Volgogrado”, sugestivamente às margens do Rio Volga, um dos mais importantes da Rússia.

Estranho: afinal, não dizem que o Google sabe de tudo? Ou será que a Batalha de Stalingrado é apenas um mito e na verdade nunca aconteceu? Afinal, nunca se viu batalha sem campo (embora esta tenha se dado em área urbana).

Pois o Google sabe, sim. Tanto de Geografia como de História.

A cidade que ele encontrou já mudou de nome duas vezes. Fundada em 1589 com o nome de Tsaritsyn, em 1925 passou a chamar-se Stalingrado para homenagear Stalin, recém ascendido à liderança da União Soviética após a morte de Lenin (sem contar que não fazia mais sentido uma cidade com nome que remetesse ao deposto regime tsarista). Mas no ano de 1961 sua denominação foi novamente alterada: passou a chamar-se Volgogrado (“Cidade do Volga”), e não foi exatamente para homenagear o rio.

O que aconteceu foi o processo conhecido como “Desestalinização”, que consistiu na eliminação do culto à personalidade de Stalin (falecido a 5 de março de 1953) após seu sucessor Nikita Khrushchev denunciar no famoso “Discurso Secreto”, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956), os crimes cometidos pelo regime stalinista. Foi algo chocante aos que ouviram Khrushchev, dado que Stalin era visto como herói devido à sua liderança na Segunda Guerra, e não como um terrível ditador cuja política repressiva vitimou tanto opositores como muitos integrantes do próprio Partido Comunista.

As denúncias tornaram inaceitável manter qualquer homenagem a Stalin – e eram muitas. Incluindo o hino nacional (que continha referências ao ditador) e a cidade onde se dera tão importante batalha da “Grande Guerra Patriótica”.

A importância de tais homenagens não foi suficiente para mantê-las “intactas”. A letra do hino soviético foi suprimida e só readotada em 1977, mas sem as referências ao ditador. Já Stalingrado foi rebatizada como Volgogrado: a mudança provavelmente não agradou a todos os habitantes da cidade (desde simpatizantes do ditador até “pragmáticos” que preferiam o antigo nome por estarem acostumados a ele), mas não era mais possível homenagear Stalin e, por conta disso, ela não foi revertida.


Os parágrafos acima demonstram que mudar nomes de ruas por homenagearem ditadores não é “bobagem” ou “falta do que fazer”, como dizem muitos idiotas em caixas de comentários por aí acerca de uma grande vitória obtida hoje em Porto Alegre por quem defende a democracia: a aprovação pela Câmara de Vereadores de um projeto de lei da bancada do PSOL que altera o nome da principal entrada da cidade, de Avenida Castelo Branco para Avenida da Legalidade e da Democracia. Fernanda Melchionna e Pedro Ruas já tinham apresentado projeto semelhante em 2011, mas ele fora rejeitado por 16 votos contra 12. Hoje, a vitória foi acachapante: 25 a 5.

O projeto será enviado ao prefeito José Fortunati (PDT). Se sancionado, a principal entrada de Porto Alegre deixa de homenagear o “inaugurador” da ditadura militar e passa a fazer referência à democracia e a um movimento em sua defesa, a Legalidade – que, coincidentemente, aconteceu no mesmo ano em que Stalingrado foi rebatizada como Volgogrado (1961) e foi liderado pelo fundador do partido de Fortunati, Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.

Quem é contra a mudança provavelmente se utiliza de argumentos semelhantes a quem não quis que Stalingrado passasse a se chamar Volgogrado. Desde simpatia pela ditadura militar (autoritário é autoritário, independente de ideologia) até “pragmatismo”, por estarem acostumados ao nome que, espero, logo deixe de ser “atual”. Porém, reparem que é uma alteração com muito menos “tamanho”: não é uma cidade (que ainda por cima era famosa por uma das mais importantes batalhas da Segunda Guerra Mundial), apenas uma via que, inclusive, não tem nenhuma residência ou estabelecimento comercial, e cujos prédios mais próximos têm entradas por outras ruas (ou seja, em nada atrapalhará, pois não será preciso alteração de endereços devido à nova denominação).

Sem contar que a avenida é uma via expressa, praticamente sem esquinas. Logo, o custo da troca da sinalização viária (que muitos certamente questionarão) será imensamente inferior à dor causada por ditadores como Castelo Branco a muitos brasileiros – que em muitos casos se traduziu em prejuízo financeiro, pois várias pessoas perderam seus empregos pelo simples fato de serem contrárias à ditadura.


João Carlos Nedel (PP), um dos vereadores que votaram contra a proposta, disse que a alteração é uma tentativa de reescrever a História. Demonstrou assim que não entende nada de História: ela é constantemente reescrita a cada novo trabalho historiográfico produzido.

O debate da Band

Terminou agora há pouco (já passa de uma da manhã) o debate presidencial da Rede Bandeirantes. Muito longo e cansativo.

Definitivamente, ainda bem que existe o Twitter. Não fosse ele, eu teria desligado a televisão há bem mais tempo… Mas graças a ele, resisti até o final.

Algumas observações:

  • Luciana Genro (PSOL) mandou muito bem ao chamar o candidato do PSC apenas de Everaldo, lembrando que não se deve misturar religião e política. É assim que funciona um Estado laico;
  • Ainda estou tentando entender como Chico Mendes era “elite”. Marina Silva (PSB?) disse isso;
  • Incrível a insistência na promessa populista de cortar cargos em comissão (CCs). Esquecem que muitos CCs são servidores concursados (ou seja, não “caíram de paraquedas” lá), sem contar que não se pode sair nomeando CCs “a torto e direito”. Nesse debate felizmente não ouvi aquele blá-blá-blá de “governo técnico e não político” (o que criaturas assim fazem disputando eleições?);
  • É tanta gente falando em “renovar a política”, “promover uma nova política”, que a maior novidade que pode acontecer é alguém prometer “a velha política”;
  • Pessoal da direita fala em “Estado mínimo” mas ao mesmo tempo defende mais polícia como uma das “soluções mágicas” para criminalidade;
  • Perto do tom predominante nas perguntas dos jornalistas, William Bonner é apenas um “implicante”. Como disse Marcelo Rubens Paiva no Twitter, “jornalismo da Band está à direita da direita”;
  • Debate mostrou que, infelizmente, a questão indígena só é preocupação das candidaturas mais à esquerda. Dilma poderia ao menos prometer mais diálogo em um segundo mandato. Já para as candidaturas da direita, vale o senso comum de que “índio é vagabundo”;
  • Jornalista da Band (não recordo qual) chamou Política Nacional de Participação Social (PNPS), proposta pelo governo, de “bolivariana”. Avisem ele que para muitos (inclusive eu) isso é elogio;
  • E Aécio Neves (PSDB) concordou com o jornalista da Band;
  • Em um momento Marina se enganou e ao se referir ao PSDB no governo falou “PMDB”. Aí teria de falar dos últimos 30 anos, pois salvo breves interregnos o PMDB está no governo desde 1985;
  • Boris Casoy chamou regulação da mídia de “censura”. Alguém avisa o cara que é hora de “virar o disco”, por favor;
  • Outro jornalista da Band (não recordo qual) falou sobre propostas de ensinar criacionismo nas escolas públicas. Algo que sequer deveria ser cogitado em um Estado laico;
  • Marina disse que Ensino Religioso em escolas públicas não é obrigatório, mas não acho isso suficiente: deveria ser proibido. Já li propostas de que a disciplina ensinasse História das Religiões, mas para isso basta aumentar a carga horária de História;
  • Levy Fidélix (PRTB) falou em mais prisões para “atender aos anseios das ruas do ano passado”; Luciana Genro lembrou que junho de 2013 começou com as pessoas pedindo mais direitos e não mais prisões;
  • Em suas considerações finais, Aécio anunciou Armínio Fraga (presidente do Banco Central durante segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso): sorte dele é que boa parte dos eleitores já tinha ido dormir àquela altura;
  • Eduardo Jorge (PV) foi a surpresa positiva do debate. Único candidato a defender abertamente a descriminalização da maconha e do aborto, o que já lhe rendeu o apelido de “Mujica brasileiro” nas redes sociais;
  • Everaldo Pereira (PSC) é a favor da liberdade de imprensa “sem marco regulatório”, como diz defender o “Estado mínimo”. Exceto em relação aos direitos de mulheres e homossexuais: aí é Estado máximo e marco regulatório rígido.

E o debate acabou aí. Felizmente.

100 anos de um gênio

Júlio Cortázar (1914-1984)

Júlio Cortázar (1914-1984)

Nesta terça-feira, completam-se 100 anos do nascimento de Julio Cortazar, escritor argentino que, curiosamente, durante boa parte de sua vida morou fora da Argentina. Começando pelo próprio 26 de agosto de 1914: Cortázar nasceu na embaixada argentina em Bruxelas, Bélgica, nas primeiras semanas da Primeira Guerra Mundial. Mas a cidade onde mais viveu foi Paris: mudou-se para a capital francesa em 1951 e lá permaneceu até sua morte, em 12 de fevereiro de 1984.

Julio Cortázar foi um dos escritores mais originais de seu tempo, e dos mais geniais que já tive o prazer de ler. Muitas de suas obras cruzam a fronteira entre o real e o fantástico, como se vê nas “Histórias de Cronópios e de Famas” (sobre a lápide do túmulo de Cortázar no Cemitério de Montparnasse, em Paris, se ergue a imagem de um “cronópio”).

O conto abaixo é um dos que compõem “Histórias de Cronópios e de Famas”.

Ocupações Maravilhosas

Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.

Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços bem abertos, igual à ave cakuy que se vê nas árvores do norte da Argentina.

Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebradas que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.

Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer em frente ao Ministério, abrir caminho a golpes de envelope com selos, deixar para trás o último secretário e entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca e ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto.

Loucuras de agosto

Este domingo marca o 60º aniversário do suicídio de Getúlio Vargas. Mas houve outro acontecimento marcante justamente no dia em que a morte do mais importante político brasileiro do Século XX completou 30 anos: em 24 de agosto de 1984, uma sexta-feira, Porto Alegre registrou neve e temperatura de apenas 2°C no meio da tarde.

Capa da Zero Hora, 25/08/1984

Capa da Zero Hora, 25 de agosto de 1984

A matéria da MetSul sobre os 30 anos da neve de 1984 corrobora o relato do meu pai sobre aquele 24 de agosto: a temperatura que pela manhã era amena para a época começou a despencar, e a chuva que caía se transformou em neve no meio da tarde, dado o frio impressionante que era registrado. Ele trabalhava no Centro, e percebeu que nevava ao olhar pela janela: parecia que estavam “jogando algodão” e achou estranho que alguém fizesse aquilo, então notou que por toda parte caíam aqueles “algodões” e que eles eram, na verdade, flocos de neve. Ligou para casa, pediu que me enchessem de roupas e me levassem para a rua, para que eu pudesse ver algo que certamente não se repetiria tão cedo, já que é acontecimento raro e nem sequer é marca registrada do inverno no Rio Grande do Sul. Obviamente não me lembro de nada, já que tinha apenas 2 anos e 10 meses de idade.

30 anos depois, aquela nevada chega a parecer algo surreal. Pois este domingo em Porto Alegre em nada lembrava um dia de inverno e que até já registrou neve na mesma cidade. Mas não foi nada surpreendente neste ano de inverno “bipolar” (e que cheguei a achar que nem viria), como mostra a previsão para os próximos dias.

Isso já no começo da noite, no meio da tarde chegou a 35°C.

Isso já no começo da noite, no meio da tarde chegou a 35°C. Mas amanhã o frio já estará de volta…


Apesar de neve ser coisa rara em Porto Alegre, aquela nevada de 1984 não foi a última registrada na cidade. Em 8 de julho de 1994, uma sexta-feira e último dia de aulas antes das férias de inverno nas escolas estaduais (que naquela época duravam 50 dias, invenção do governo de Alceu Collares), fazia muito frio e chovia. Eu estava na sexta série e estudava à tarde no Marechal Floriano Peixoto, próximo à Brahma; lembro que quando descia as escadas do colégio para ir embora começou a “cair granizo” em grande quantidade, acumulando sobre calçadas e carros. Já na rua, cheguei a fazer “guerra de gelo” com meus colegas. Horas mais tarde, meu pai ligou para contar o que ouvira no rádio: que aquele “granizo” era na verdade neve, mas na forma granular (a de 1984 era a “clássica”, em flocos). Eu brinquei com neve e só depois soube disso…

A neve caiu novamente (na forma granular) em Porto Alegre no dia 4 de setembro de 2006. Meu pai estava doente naquela segunda-feira e acompanhei-o ao médico. No táxi, ele comentou ter ouvido no rádio que nevara em Santa Maria, algo bastante incomum já que a cidade tem altitude relativamente baixa (a área urbana fica em torno dos 100 metros). Imaginei que poderia acontecer o mesmo em Porto Alegre, já que caíam algumas pancadas de chuva e frio era o que não faltava. Dito e feito: quando o táxi estava defronte à Rodoviária começaram a cair os grãos de neve, que se “espatifavam” no para-brisa. Mas quando chegamos ao destino já tinha até sol, e sequer voltou a chover naquele dia.

Pastor Everaldo e a contradição de muitos liberais brasileiros

Fazia anos que eu não via um candidato a presidente defender abertamente as privatizações – caso de Everaldo Dias Pereira, o Pastor Everaldo, que concorre à presidência pelo PSC. Ontem, na entrevista ao Jornal Nacional, disse que privatizará a Petrobras caso seja eleito. Além de outras empresas estatais que ele considere como “foco de corrupção”.

Após o governo de Fernando Henrique Cardoso, que privatizou várias estatais e terminou com índices de reprovação que superavam os de aprovação, “privatização” virou uma espécie de “palavrão” no dicionário político brasileiro. Na campanha eleitoral de 2006 tivemos dois exemplos disso. O primeiro, foi na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul: a candidata Yeda Crusius (PSDB) tinha como vice o empresário Paulo Afonso Feijó (então PFL, depois DEM), que defendia abertamente as privatizações; a coordenação de campanha procurou forçá-lo a não falar o “palavrão”, temerosa de perder votos; no fim Yeda foi eleita, mas ao assumir o governo já tinha Feijó quase como um “opositor”. O outro foi na disputa pela presidência: o candidato tucano Geraldo Alckmin chegou a vestir uma jaqueta com logotipos de várias estatais, para tentar convencer os trabalhadores delas de que não tinha a pretensão de vender as empresas; não adiantou, e Alckmin conseguiu a façanha de perder obtendo menos votos no segundo turno do que recebera no primeiro.

Everaldo, por sua vez, não esconde o que pensa. Talvez pela baixíssima probabilidade de ser eleito, o que dá a qualquer candidato na mesma situação a tranquilidade de que não precisará cumprir sua promessa: lembro que anos atrás o PCO defendia em seus programas eleitorais o salário mínimo de R$ 1.500, algo que acharia sensacional mas sei que é politicamente inviável ainda nos dias de hoje. Mas a diferença é que Everaldo não é o PCO (esquerda), mas sim, representante da direita mais conservadora. Fosse eleito, não teria dificuldade alguma de aprovar suas propostas: independente de quem vença a disputa presidencial, me parece quase certo que, infelizmente, o Congresso que surgirá das urnas em outubro será bem mais conservador que o atual.

Pois as propostas de Everaldo não se resumem à retomada das privatizações. Na realidade, elas refletem bem uma das maiores contradições de parte considerável dos ditos “liberais” brasileiros, que tanto discursam a favor da “liberdade”: defendem o “Estado mínimo” na economia, mas em compensação pregam a intervenção estatal em assuntos de ordem realmente privada. Sim: como seria de se esperar de um candidato conservador e que prega a “defesa da família” (fica a dica para qualquer um que esteja concorrendo e queira abrir mão do meu voto: fale em “defesa da família”), Everaldo é contra o casamento homossexual, a legalização do aborto e das drogas. Até aí, nenhuma novidade.

Mas o fato é que temos uma candidatura de um típico liberal brasileiro, com um discurso que prioriza a “liberdade” a despeito da igualdade – como se fosse possível real liberdade em uma sociedade desigual – e ao mesmo tempo contrário à liberdade de homossexuais se casarem, de mulheres interromperem uma gravidez indesejada e de pessoas adultas decidirem se drogar com uma substância que não seja álcool, nicotina ou ritalina. Se há algo positivo nisso (ele não esconde o que realmente defende), por outro lado também mostra que a direita mais conservadora está perdendo a vergonha de ser “autêntica” (além de Everaldo há também o candidato do PRTB, Levy Fidélix, que quer “endireitar” o Brasil), justamente por perceber que isso não significa mais votações baixíssimas – o que é muito preocupante.


“Mas eu sou contra o aborto, o casamento homossexual e as drogas”, alguém poderá dizer. Tudo bem: isso se chama liberdade de opinião. Mas, pense um pouquinho: nem todas as pessoas são obrigadas a pensar como você.

A mulher grávida que aborta não “assassina” um bebê: ela interrompe uma gravidez, o que leva à morte o feto que carrega em seu útero. Cientificamente falando, é isso mesmo: aquele pequeno organismo não é um bebê (ou seja, um pequeno ser humano, que vive por conta própria mesmo que precisando de cuidados), é como se fosse qualquer outro órgão do corpo da mulher, tal como o apêndice (que quando inflama sempre é removido cirurgicamente). Claro que, no caso de uma mulher grávida e que deseja ser mãe, é diferente: metaforicamente, ela já se sente mãe de um bebê, mesmo que cientificamente ainda não seja. Mas para a mulher que tem uma gravidez indesejada (pelos mais variados motivos), aquele feto é um tormento e poderá continuar a sê-lo mesmo depois de bebê.

Você é heterossexual e por motivos óbvios não pretende casar com alguém do mesmo sexo? Eu também.

Toma uma cervejinha todas as semanas? Pois, assim como eu, você está usando drogas… A diferença é que a nossa não é proibida. (E, inclusive, é causa de incontáveis acidentes de trânsito, que todos os anos matam milhares de pessoas em nosso país.)

Repare que garantir tais direitos (aborto, casamento homossexual e liberação de drogas como a maconha) em nada nos prejudica. Só prestar atenção no que acontece com os já garantidos: drogas como álcool e tabaco são legalizadas e ninguém é obrigado a beber ou fumar, inúmeros casais héteros optam por não formalizarem a união mesmo que tenham direito a tal… Ou seja: o aborto legalizado não impedirá mulher alguma de ser mãe, o casamento homossexual não obrigará ninguém a deixar de ser hétero, assim como ter o direito de fumar maconha é exatamente isso, direito, não obrigação.

Ou seja, se você é mulher e contra o aborto, é só não interromper uma gravidez mesmo que seja indesejada; se é contra o casamento homossexual, não case com alguém do mesmo sexo; se é contra as drogas, antes de tudo seja coerente e nunca mais ponha na boca um cigarro ou um gole de cerveja. Mas para isso não é preciso obrigar todas as pessoas a fazerem o mesmo.

2014, ano “agourento”?

Em todos os anos, no dia 31 de dezembro, é de praxe eu postar um texto com minha mensagem de Ano Novo. Mas não o fiz no último dia de 2013: questionava o otimismo quanto a 2014.

Recordo de ter lido certa vez que muito do desgosto das pessoas em relação ao final de ano se deve principalmente ao “balanço” que se faz do período que acaba, voluntaria ou involuntariamente. Em geral, quando passamos a limpo o ano e percebemos que o “saldo” é negativo (o que é uma avaliação extremamente subjetiva), tendemos a ficar mais tristes com o seu término (mesmo que busquemos pensar que a partir de 1º de janeiro as coisas mudarão). E isso faz certo sentido: o meu 2013 foi ótimo até outubro, já novembro e dezembro foram tão ruins que terminei o ano “em baixa” (e da mesma forma comecei 2014, péssimo em seus primeiros meses). Em compensação o meu 2012 foi bom até o fim, com aquela sensação de que “podia ter sido mais”, mas de caráter positivo, e não por acaso em seu último dia postei uma mensagem otimista para 2013.

Ou seja, nosso estado de espírito em dezembro pode influenciar muito no nosso ânimo para as festas. Claro que só ele não é fator determinante: sempre acho o Natal um legítimo “pé no saco”, e mesmo em anos com final “deprê” como 2013 curto o Ano Novo (nem que seja para poder comemorar o fim das festas).

Pois bem: 2014 chega à metade de agosto e ultimamente andamos recebendo muitas notícias ruins. Acidentes aéreos, mortes “notáveis”, sem contar o fim do Impedimento.

Com tantas mortes de pessoas conhecidas em curto espaço de tempo é natural pensar que, de fato, 2014 está sendo um ano “aguorento” (e que fui “vidente” no final de 2013, embora não exatamente com essas “intenções”). Eu mesmo cheguei a postar algumas das notícias trágicas no Facebook dizendo “termina 2014″. Aliás, da mesma forma que semanas atrás, quando ainda estávamos em julho, cheguei a perguntar se não seria possível “pular” os últimos dias do mês que aparentava ser o único “amaldiçoado” do ano.

Mas, sejamos sinceros, tantas mortes “notáveis” em um curto espaço de tempo é apenas uma grande (e infeliz) coincidência. Todos sabemos disso. No fundo, isso incomoda muito é porque nos faz lembrar de outra coisa: diariamente, pessoas (além de outros incontáveis seres vivos) morrem em todas as partes do mundo e um dia chegará a nossa vez. Saber que o “eu” está fadado a deixar de existir e que em termos biológicos ele é apenas uma coisinha insignificante na Terra (que por sua vez é igualmente insignificante no Universo) é algo perturbador, e nos sentimos muito pequenos e “frágeis” diante dessa constatação.

Ou seja, não tem nada a ver com o ano, e sim com nós mesmos. Larguemos dessa de “pular” meses para que cheguemos logo a 2015 (aí teremos outras mortes de pessoas conhecidas e já começaremos a desejar a chegada de 2016), e aproveitemos os meses restantes de 2014: se está sendo um ano ruim, ainda há bastante tempo para “salvá-lo”.


Se bem que, caso fosse possível, todos os anos eu “pularia” o verão…

Dia de perdas

A política brasileira está de luto com a trágica morte de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência pelo PSB. É uma grande perda, a ser lamentada independente da opção política. (E, numa triste coincidência, Campos faleceu exatos nove anos depois de seu avô Miguel Arraes, que também governou Pernambuco e foi um dos nomes mais importantes da política brasileira no Século XX.)

Hoje o dia também é triste para o jornalismo esportivo. Conforme anunciado três semanas atrás, o site Impedimento deixa de ser atualizado após a final da Libertadores, que será jogada logo mais. Mas é uma perda que vai além do mero jornalismo esportivo: a partir do futebol (e com foco na América do Sul), o Impedimento fala também de cultura, sociedade, política etc. Foi lá que li alguns dos melhores textos sobre os protestos de 2013, por exemplo.

Quem não conhece o Impedimento deve estar achando que os dois parágrafos acima não têm relação alguma, relatam apenas (mais) uma triste coincidência. Mas sim, eles têm a ver um com o outro, conforme explicarei agora.

O Impedimento tem vários fatores que o diferenciam dos principais portais e páginas sobre futebol. Um deles é tratar o esporte por uma ótica que foge do senso comum (algo sobre o qual pretendo escrever mais). Uma das consequências disso é o outro diferencial: os comentários em alto nível (salvo raríssimas excessões), com muitas discordâncias, mas que constituem uma discussão em seu sentido original, de “trocar ideias”; não raramente ela acabava fugindo do tema original (ou seja, o artigo publicado), mas não porque algum “troll” o fazia com esse objetivo e sim por uma “evolução natural”, justamente porque os textos fugiam do senso comum e por conta disso atraiam leitores com características semelhantes. Se toda a internet fosse como o Impedimento, aquela máxima “nunca leia os comentários” não faria sentido.

Mas infelizmente a realidade é outra. A maioria dos comentários em portais de notícias é simplesmente odiosa. Mas isso não se resume aos portais: quem comenta lá tem seus perfis em redes sociais, e neles reproduzem as mesmas “opiniões”. Que, ao contrário dos comentários do Impedimento, exalam muito senso comum. É o caso daquela máxima tão difundida de que “político é tudo igual, nenhum presta” (como se eles “chegassem lá” sozinhos, sem necessitarem de votos). Cria-se uma ojeriza à política que tem como resultado comentários celebrando o falecimento de Eduardo Campos, assim como em 2011 comemoraram o câncer de Lula e torceram pela morte do ex-presidente. E tenho certeza de que a maioria que disse tais sandices sequer tem conhecimento do que ambos fizeram como governantes.

Ah, se toda a internet fosse como o Impedimento…

A imbecilidade na arquibancada

O Gre-Nal de domingo foi vergonhoso para nós, gremistas. Não pela derrota por 2 a 0 (perder é do jogo, apesar de estar se tornando muito comum recentemente, e de fazer quase dois anos que o Grêmio não vence o rival), e sim pela atitude de uma parcela da torcida gremista no Beira-Rio. Poderia até postar o vídeo aqui, mas acho que quem cantou “o Fernandão morreu” não merece mais publicidade, apenas as mais severas críticas e demonstrações de repúdio.

A trágica morte de Fernandão não deixou apenas os colorados tristes. Ele conseguiu ser admirado também pelos gremistas mesmo sem jamais ter vestido a camisa do Grêmio e, como se não bastasse, tendo sido fundamental nas maiores conquistas do Inter na década de 2000. Como diz o ditado, “uma imagem vale por mil palavras”, e esta abaixo, de um gremista indo ao Beira-Rio homenagear um dos maiores ídolos colorados naquele triste 7 de junho sintetiza tudo (infelizmente não sei a autoria da foto).

fernandão

Domingo, postei no Facebook um link para um “diagrama” que ensina a “ganhar” qualquer discussão sobre futebol. O “diagrama” é genial, mas ao mesmo tempo explica o motivo pelo qual não tenho mais saco para debater futebol a não ser acerca do jogo em si ou de seus aspectos sociais, culturais ou políticos. Tentar provar ao adversário que o meu time é maior que o dele (e ele defenderá até a morte o contrário) é algo totalmente sem sentido, pois não é uma discussão em termos racionais – e aí a própria palavra “discussão” fica totalmente desvirtuada, visto que ela significa “troca de ideias” e não “bate-boca”. Sim, muito já fiz isso, até mesmo aqui no blog, e não sinto nenhuma saudade daquelas trocas de comentários que tenderiam ao infinito se alguém não tomasse a iniciativa de parar com tanta idiotice (aliás, repararam como tenho falado menos de futebol de 2013 para cá?).

Pois tudo o que não precisamos é transformar o debate sobre a demência de domingo em “Gre-Nal”. É preciso discutir, sim, o que leva alguns idiotas a mandarem qualquer senso de humanidade para o espaço, ao ponto de apelarem para a crueldade pura e simples.

Muito se discute sobre o ser humano ser bom ou mau por natureza. É um debate que, creio, jamais chegará ao fim, até porque o conceito de “bom” e “mau” é muito subjetivo. Mas é fato que temos enorme potencial para praticar o mal. Muitas vezes, conseguimos nos conter, até que haja algum espaço onde “extravasamos” sem que isso seja malvisto da mesma maneira que no dia-a-dia. E um desses lugares é, sem dúvida alguma, o estádio de futebol (valendo o mesmo para qualquer ambiente onde se assista ou fale do esporte).

Na arquibancada vemos muitas vezes um homem calmo e bem-comportado “perder a cabeça”. Aquela pessoa que jura não ser racista e/ou homofóbica, no estádio chama o rival de “macaco imundo” e/ou de “viado”. Na internet, o pessoal fala merda e depois acaba recebendo muitas críticas, aí diz que “foi no calor do momento”. Mas a verdade é que “no calor do momento” costumamos revelar o que temos de pior, características reprimidas no cotidiano mas que, uma hora ou outra, virão à tona.


Não, a torcida do Grêmio não é toda como aqueles desvairados de domingo. E não foi só aquele grupelho que agiu de maneira tão baixa, conforme li em alguns comentários e mesmo em alguns livros – exemplos que cito abaixo.

Em 1993, o Grêmio contratou por empréstimo o jovem atacante Dener, revelado pela Portuguesa e que era considerado um dos jogadores mais promissores da época. O Tricolor não tinha dinheiro para comprar o passe de Dener e assim ele foi embora após jogar apenas três meses no clube, mas já como ídolo da torcida graças ao seu grande talento, que rendeu ao Tricolor o título estadual daquele ano. No ano seguinte Dener foi para o Vasco, e em 19 de abril morreu em um acidente de carro no Rio de Janeiro, causando luto no Olímpico. Dias depois, segundo comentários, torcedores colorados teriam ido a um Gre-Nal no Beira-Rio usando cintos de segurança (equipamento de segurança mas que acabou sendo o causador da morte de Dener, visto que o banco onde ele viajava estava reclinado, anulando a eficácia do cinto, que ainda por cima estrangulou o jogador), com a intenção de ironizar e provocar os gremistas.

Na crônica “Os cânticos do desprezo”, de seu excelente livro “Futebol ao sol e à sombra” (1995), Eduardo Galeano lembra algumas músicas de torcida que revelam os velhos preconceitos que encontram no futebol terreno extremamente fértil. Citando o caso do Napoli, clube que a partir da contratação de Maradona passou a jogar um belo futebol e ganhou dois Campeonatos Italianos em curto espaço de tempo (1987 e 1990), Galeano lembra o velho racismo que os italianos do norte dedicam aos do sul, com cânticos que iam do insulto (acusando os napolitanos de serem “sujos”) à pura e simples crueldade (“Vesúvio, contamos contigo”). O mesmo texto também lembra o preconceito no futebol da Argentina em relação ao Boca Juniors, clube mais popular do país em todos os sentidos (tamanho de torcida e extrato social): os “bosteros” (insulto que os boquenses adotaram como simbolo de identidade) seriam “todos negros, todos putos” que teriam de ser “jogados no Riachuelo” (rio extremamente poluído que passa próximo à Bombonera).

Em “Como o futebol explica o mundo” (2004), de Franklin Foer, achei outro exemplo, vindo da Hungria. Um dos clássicos de maior rivalidade da capital húngara, Budapeste, reune MTK e Ferencváros, fundados ainda no Século XIX e cuja rixa intensificou-se na década de 1920. O motivo? O MTK, cuja sigla significa Magyar Testgyakorlók Köre (Círculo Húngaro de Educação Física), foi fundado por judeus em 1888 e com eles se identifica, enquanto a torcida do Ferencváros era próxima à extrema-direita que muito se fortaleceu após a Primeira Guerra Mundial. No período anterior à guerra os judeus eram dos mais ardosoros defensores do nacionalismo húngaro e em consequência disso eram bem-recebidos na Hungria; a capital Budapeste chegou a reunir uma das maiores concentrações judaicas do mundo naquela época. Após a queda do Império Austro-Húngaro e uma fracassada revolução comunista em 1919, a situação mudou e os judeus passaram a ser os “bodes expiatórios” dos políticos nacionalistas, da mesma forma que em outras partes da Europa. Apesar de terem se passado muitas décadas, o ódio não arrefeceu por completo: nos clássicos, torcedores do Ferencváros costumam ofender aos rivais do MTK com cânticos os mais odiosos possíveis, com menções a Auschwitz e às câmaras de gás nas quais seis milhões de judeus foram assassinados pelo nazismo.

Decime qué se siente

Antes da seleção da Argentina embarcar para a Copa do Mundo no Brasil, os jogadores Lionel Messi, Javier Mascherano e Ezequiel Lavezzi, além do técnico Alejandro Sabella, participaram de um anúncio televisivo das Avós da Praça de Maio, que há 37 anos buscam por filhos de desaparecidos na última ditadura argentina.

A referência de Messi não foi apenas para “arredondar”. Sob sua mais brutal ditadura, que matou e sumiu com cerca de 30 mil pessoas, em 1978 a Argentina sediou a 11ª Copa do Mundo. Em 2014, o Brasil organizou a 20ª Copa. De fato, são dez Mundiais de ausência. Há quase 40 anos as Avós buscam por seus netos, cujas mães deram à luz na prisão e depois foram assassinadas, com as crianças sendo entregues a orfanatos ou a famílias de agentes da repressão (que, não raro, eram os algozes dos pais biológicos dos filhos adotivos).

Quando da gravação do anúncio com os jogadores, as Avós já tinham recuperado a identidade de 113 netos. Pois na terça-feira, 5 de agosto, surgiu o 114º: Ignacio Hurban, um músico que inclusive já tocou em um evento das Avós, sem imaginar que fosse neto justamente da presidente da associação, Estela de Carlotto. Ignacio decidiu fazer o exame de DNA após assistir ao anúncio no qual Messi disse que sua avó o procurava há dez Copas. A mãe de Ignacio, Laura, foi sequestrada e assassinada em 1978, ano da Copa na Argentina; ao filho que esperava, pretendia dar o nome de Guido.

Na coletiva de imprensa das Avós, ao ser questionada sobre o que faria após encontrar o neto que procurava havia 36 anos, Estela de Carlotto disse: “seguirei buscando os mais de 400 que restam”. Depois, os presentes cantaram uma música num ritmo que conhecemos muito bem durante a Copa:

Milico decime qué se siente
Que hayamos encontrado un nieto más
Te juro que aunque pasen los años
Siempre los vamos a buscar
Porque ahora somos más
Las viejas van a brindar
Y los pibes con nosotros van a estar

Uma provocação aos genocidas, mas bem que poderia mexer conosco aqui no Brasil da mesma forma que o “hit” da torcida argentina na Copa mexeu. Afinal, em termos de reparação histórica e políticas de memória, a Argentina nos mete uma goleada muito maior que 7 a 1. Ano passado, andando pelas ruas de Buenos Aires e lendo jornais argentinos, pude ter uma ideia disso.

Uma de várias placas em memória de desaparecidos políticos em torno do mesmo prédio - todos trabalhavam nele.

Uma de várias placas em memória de desaparecidos políticos em torno do mesmo prédio – todos trabalhavam nele.

No jornal Página 12 de 03/06/2013, pequenos anúncios lembravam desaparecimentos que faziam aniversário naquele dia.

No jornal Página 12 de 03/06/2013, pequenos anúncios lembravam desaparecimentos que faziam aniversário naquele dia.

Para além das políticas oficiais de reparação e memória, a Argentina também já produziu belíssimos filmes sobre o período ditatorial e, em especial, acerca da questão dos bebês de identidades roubadas pela ditadura. Um deles é A História Oficial (1985), ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Outro excelente filme sobre o assunto é Cautiva (2004). Até o momento em que foi finalizado, 74 netos tinham sido localizados.

Grenalização e generalização

Um dito popular do futebol gaúcho é “Gre-Nal arruma ou desarruma a casa”. Impressionante como, de fato, ele acaba fazendo sentido, devido ao enorme e desproporcional peso que tem tal partida para os dois principais clubes do Rio Grande do Sul.

Poderia citar como exemplo o Grêmio em 2014: o “divisor de águas” do time na temporada foi o Gre-Nal decisivo do Campeonato Gaúcho, perdido por 4 a 1 porque o Internacional “tirou o pé”, poupando o Tricolor de uma goleada histórica. Antes o Grêmio vinha relativamente bem, com boas atuações na Libertadores; depois, nada mais deu certo e o time foi eliminado nas oitavas-de-final do certame continental. Mas nada demonstra de forma mais clara a exagerada importância dada ao clássico do que o acontecido em 2009: após derrota por 2 a 1 e eliminação no Gauchão daquele ano, a direção gremista demitiu Celso Roth – que pode não ser o técnico dos sonhos de ninguém, mas é preciso ressaltar que o Grêmio não só estava invicto na Libertadores como também fazia a melhor campanha da fase de grupos. Todo um discurso de priorizar a competição continental foi por água abaixo devido a um jogo válido pelo menos importante certame daquele momento, só porque era Gre-Nal. O resto da história, todo gremista lembra: 40 dias de espera por Paulo Autuori e eliminação na semifinal contra o Cruzeiro, primeiro adversário realmente forte enfrentado – não digo que Roth levaria o Grêmio à final, mas ao menos daria mais trabalho ao time mineiro (com uma boa retranca o Tricolor não teria levado 3 a 1 no Mineirão).

Mas, para além do clássico propriamente dito, há a exagerada rivalidade que ultrapassa os limites daquela chamada “sadia” (que foi o motor do crescimento da dupla Gre-Nal, ultrapassando o âmbito regional). Muitas vezes, se dá tamanha importância ao rival que isso acaba por mascarar defeitos ou virtudes. Em 2003, por exemplo, o Grêmio fez um Campeonato Brasileiro horrível e passou um turno inteiro na zona do rebaixamento, enquanto o Internacional chegou a liderar o certame e quase se classificou para a Libertadores pela primeira vez em 11 anos. Só que na última rodada fomos nós gremistas que festejamos e ainda tocamos flauta: o Grêmio escapou da queda enquanto o Inter levou 5 a 0 do São Caetano quando um empate bastava para ir à Libertadores. Aquela rodada tão “anos 90″ me deu a errônea impressão de que 2003 era um “ponto fora da reta”: não percebia que outra linha já estava sendo traçada, como os anos seguintes demonstrariam de maneira tão dolorosa.

Costuma-se dizer que o Rio Grande do Sul é terra de extremos, sem meio-termo. É um fenômeno apelidado de “grenalização”, em óbvia referência à rivalidade que faz parecer que tudo gira em torno de Grêmio e Internacional no tocante ao futebol, como se não houvesse mais nenhum clube no Estado (não por acaso torcidas como a do Brasil de Pelotas costumam levar aos estádios faixas onde se lê “anti-grenal”). Mas o clima de “8 ou 80″ não se resume ao futebol. A política, que já teve guerras civis entre chimangos e maragatos no final do Século XIX e no início do XX, hoje se divide aparentemente entre o PT e o “anti-PT”, sendo que o último nem sempre é o mesmo partido: na maioria das vezes o(a) candidato(a) que encarnava o “anti-petismo” era do PMDB, mas já foi do PSDB (como acontece a nível nacional) e atualmente é do PP (que a nível nacional, ironicamente, apoia o governo do PT). Inúmeras questões no Rio Grande do Sul, para além da disputa partidária, geram debates acirrados entre “dois lados”, como se apenas duas opções fossem possíveis.

Quem dera tal prática ser “privilégio gaúcho”. Mas a grenalização está muito presente no debate de ideias em toda parte. Por exemplo, agora estamos em campanha eleitoral no Brasil, e para muitas pessoas isso se resume a uma insana disputa “entre o bem e o mal”, na qual literalmente “vale tudo”. Por anos os setores mais raivosos da direita apelaram para a baixaria contra os candidatos da esquerda (“Lula bêbado”, “Dilma terrorista” etc.) de modo a pintá-los como “a encarnação do mal”; atualmente é utilizado o “terrorismo econômico” devido à possibilidade de Dilma Rousseff ser reeleita no primeiro turno. Mas agora vemos, infelizmente, parte da esquerda também aderindo a esse modelo de disputa “entre o bem e o mal”: nada mais decepcionante (para dizer o mínimo) do que militantes petistas apelarem para a velha “moral de cuecas” conservadora para atacar Aécio Neves, aplicando exatamente os mesmos métodos tão criticados quando usados pelo “lado de lá”; entre setores da esquerda críticos ao governo Dilma (e razões à esquerda para criticar o governo não faltam) o clima de “Gre-Nal” também é forte, com um impressionante e assustador sectarismo. Sem contar a direita mais delirante, que considera até o PSDB “esquerdista”.

Vamos para a política internacional, e é a mesma coisa. Na questão da Palestina, então, a discussão chega às raias do absurdo. Sou favorável à causa palestina e condeno os ataques israelenses, mas por conta disso os mais cegos defensores de Israel dirão que eu defendo o Hamas e sou “antissemita”, como se criticar o Estado de Israel fosse o mesmo que pregar ódio aos judeus e defender o Hamas (aliás, como se todos os palestinos fossem apoiadores de tal organização). Ao mesmo tempo, em caixas de comentários por aí já vi críticos a Israel emitindo opiniões pavorosas, essas sim pregando ódio aos judeus (com direito a um mentecapto inclusive insinuar que o Holocausto não teria acontecido, o que ofende a inteligência de qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de História); sem contar que inúmeros judeus condenam os ataques contra o povo palestino, e que muitos jovens israelenses se recusam a prestar serviço militar pelo mesmo motivo. Ou seja, uma questão que é muito mais complexa do que parece acaba reduzida a este estúpido “8 ou 80″ – o que, vamos combinar, jamais trará a paz.

O maniqueísmo, a divisão de tudo em “dois lados” (sendo o nosso obviamente correspondente ao “bem”), só serve para perpetuar a ignorância e o ódio. Além de mascarar nossos próprios defeitos – e as virtudes dos outros. A grenalização generaliza, nos leva a esquecer a pluralidade e a acreditar numa falsa dualidade, além de, consequentemente, empobrecer a discussão de ideias. Afinal, é mais fácil acusar o adversário de ser isto, isso e aquilo (afinal, ele é “mau”) do que realmente debater.