Criança em tempos de eleição

Mais uma vez chega o dia das crianças e, claro, no Facebook boa parte dos meus contatos trocam a foto de perfil para remeter à infância. Fiz o mesmo com a minha, mas com o adendo de um selinho pedindo voto em Tarso e Dilma no segundo turno (ou seja, faça a vontade do bebê gordo da foto, do contrário ele não te deixa apertar as bochechas dele!).

A combinação entre “lembranças da infância” e “campanha eleitoral” obviamente me faz lembrar as eleições dos tempos em que eu era criança – e nas quais, obviamente, eu não votava. Embora isso não significasse exatamente que eu não tivesse alguma opinião.

A primeira eleição da qual tenho lembranças aconteceu em 15 de novembro de 1988: naquela terça-feira, foram eleitos vereadores e prefeitos municipais. Em Porto Alegre, Olívio Dutra venceu e deu início ao ciclo petista na prefeitura, que duraria 16 anos. Mas o que me marcou mais foi a “eleição” feita na minha turma do Jardim de Infância, no Esquilo Travesso: os coleguinhas pensavam diferente da maioria da população, e votaram majoritariamente em Guilherme Socias Vilella, do PDS; já eu era “brizolista” na época, por causa de minha avó (uma espécie de “retribuição” por ela fazer praticamente todas as minhas vontades, aliás, como as avós sempre costumam fazer), e assim dei meu voto a Carlos Araújo, do PDT – que acabou sendo o único que ele recebeu na turminha. Não recordo se Olívio recebeu algum voto, e se ninguém tiver optado pelo “bigode” eu nem estranharei: meu pai lembra que a escolinha era bastante cara para os padrões de nossa família e, pelo que a lógica indica, com predominância de alunos cujos país eram conservadores (tanto que o “eleito” pela turma foi um candidato da direita e da antiga ARENA, partido que apoiava a ditadura).

O ano de 1989 foi de mudanças. Ingressei na 1ª série do 1º grau, em novo colégio: fui para o Marechal Floriano Peixoto, estadual – como diz o meu pai, para aprender o conteúdo ministrado nas aulas e também para crescer sem ficar “apartado” da realidade brasileira (como, por exemplo, os problemas da educação), o que não aconteceria caso tivesse toda minha formação básica em escolas privadas. Na Europa Oriental o “socialismo real” baseado no modelo da União Soviética ruía, e tal dissolução era simbolizada pela abertura do Muro de Berlim, fato histórico que tive o privilégio de assistir pela televisão, embora sem entender qual era a importância de um (aparentemente) simples muro.

Já no Brasil, tinha eleição presidencial pela primeira vez desde 1960 (e foi também a última em um ano ímpar). Era o primeiro processo eleitoral totalmente regido pela Constituição promulgada no ano anterior, e o primeiro turno aconteceria justamente no dia em que o Brasil celebrava 100 anos da República (proclamada em 15 de novembro de 1889).

Na véspera do primeiro turno, novamente “votei” no colégio. Mas as “urnas” da minha turma no Floriano deram um resultado ideologicamente oposto aos de um ano antes, no Esquilo. Leonel Brizola, um dos dois principais nomes da esquerda naquela eleição (o outro era Lula), recebeu o meu voto e o da maioria dos colegas; se não me engano, só a professora votou em Lula e Fernando Collor não foi votado por ninguém. No dia seguinte, a eleição “para valer” consagrou Brizola no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (ambos Estados dos quais ele foi governador), mas quem foi para o segundo turno (realizado em 17 de dezembro) foram Lula e Collor. O último foi eleito, mas sem nenhum voto dos colegas: as aulas terminaram cerca de uma semana antes do segundo turno e assim não houve nova “votação” na turma.


Em 29 de setembro de 1992, dia em que a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment de Fernando Collor, novamente a minha turma no Floriano foi consultada, e ninguém votou favoravelmente ao presidente. Definitivamente, Collor não era popular lá no colégio…

O fim do Orkut

No início de 2009 fiquei sabendo que o Esquilo Travesso, escolinha onde fiz o Jardim de Infância, iria fechar as portas pois sua sede (uma antiga casa na Rua Dona Laura) havia sido vendida para, posteriormente, ser posta abaixo.

A notícia me despertou nostalgia por aqueles dias em que eu frequentava a escolinha, de meados de 1986 ao final de 1988. E também me fez decidir pela volta ao Orkut após quase três anos de ausência – cometi meu primeiro orkutcídio no início de 2006 – na esperança de quem sabe reencontrar os coleguinhas daquela época. (Acabei não reencontrando ninguém, lembro que abri um tópico na comunidade perguntando por alguém da turma que concluiu o Jardim em 1988 e não houve resposta…)

No fim, terça-feira foi a vez do próprio Orkut cometer seu orkutcídio. O meu segundo – e definitivo – aconteceu em algum dia em 2012 ou 2013, o que demonstra a decadência da rede que até quatro anos atrás era a mais acessada pelos brasileiros: minha última saída do Orkut não marcou como a primeira, em 2006. No início de 2014, quando a rede completou 10 anos, a Google não tinha pretensões de acabar com ela; mudou de ideia em junho, quando anunciou o fim para 30 de setembro.

Confesso que o fim do Orkut, em si, não me causou maior nostalgia. Afinal, eu já desfizera minha conta e, quando tentei voltar, deu erro. Parecia que o próprio não me queria mais lá.

Por mais cruel que possa parecer minha avaliação, o Orkut não chegou ao fim “por nada”. É preciso avaliar todos os motivos pelos quais uma imensa quantidade de pessoas decidiu trocá-lo pelo Facebook, mas alguns são facilmente identificáveis: excesso de spam (do qual, inclusive, não estamos livres no FB), falta de dinâmica (em 2010, antes do Facebook “bombar”, a rede na qual se compartilhava links e notícias era o Twitter, não o Orkut), sem contar os “benditos” gifs animados que chegavam a dar dor de cabeça.

O ruim mesmo é que no Facebook não tem comunidades e não há sinal de que Mark Zuckerberg pretenda adotar tal funcionalidade “orkutiana” em sua rede. E se nem no Orkut, onde havia uma comunidade do Esquilo Travesso, eu consegui encontrar aquela menininha simpática de quem eu tanto gostava, no Facebook certamente não vou achá-la. Pode parecer bobagem, mas eu adoraria reencontrar alguém que não vejo há quase 26 anos.

Pela família e pela vida

“Vou trabalhar em defesa da família”, dizem vários candidatos e candidatas a cargos parlamentares nas eleições do próximo dia 5 de outubro. Não é de hoje que esse chavão é repetido, mas aumentou bastante sua frequência no horário eleitoral em 2014. Eu até andava pensando: será que existe algum candidato “contra a família”? Ao menos seria algo diferente.

Esses dias, meu amigo Paulo Alcaraz fez um comentário genial sobre esse negócio de “defesa da família”: ora, o Don Corleone também era a favor da família… Não é verdade?

"Um homem que não gasta tempo com sua família nunca será um verdadeiro homem." (Don Corleone em "O poderoso chefão")

“Um homem que não gasta tempo com sua família nunca será um verdadeiro homem.” (Don Corleone, “O Poderoso Chefão”)

E não só o Don Corleone era (muito) a favor da família. Quem assistiu ao excelente “A Queda” certamente sabe o motivo pelo qual o filme foi alvo de muitas críticas: mostrava um Adolf Hitler “humano”, que inclusive era carinhoso com sua família, ao contrário da imagem “monstruosa” geralmente associada a ele e aos nazistas em geral. Afinal de contas, é mais fácil dizer que tragédias como o nazismo foram “monstruosidades” do que admitir o fato de que foram obras de seres humanos e que, consequentemente, todos nós somos suas “sementes”, como bem mostrou o excelente filme “A Onda” (em especial, a versão alemã lançada em 2008).

Mas para não falarmos só de um personagem de ficção e de um ditador, lembremos o traficante de drogas (aquelas que você não quer que sejam legalizadas de jeito nenhum, para a alegria do traficante que assim não perde sua clientela). Ele também tem família. E, obviamente, é a favor dela.

Acho que já deu para sacar o quão vazio é esse discurso de “defesa da família”. Serve apenas para esconder as verdadeiras intenções de quem o profere – em geral, aqueles políticos cuja principal bandeira é defender que “família” só pode ser de um jeito, e de nenhum outro. Na cabeça desses “pró-família”, só heterossexuais têm direito a serem felizes no amor, mas como pega mal ser contra a felicidade alheia, disfarçam com esse papo furado de “ameaça à família brasileira”.


E tem também as candidaturas que “defendem a vida”. Outro discursinho vazio: existe alguém que seja “a favor da morte”? Até mesmo donos de funerárias são “pela vida”: afinal, só vivos podem morrer.

Assim como os “defensores da família”, os “pró-vida” disfarçam suas verdadeiras intenções: que se mantenha a criminalização do aborto (e por eles, seria crime até mesmo interromper uma gravidez fruto de estupro ou de um feto anencéfalo, únicos casos em que o aborto é legalizado). Não é por realmente considerarem que o feto seja uma “vida” (tanto que no meu registro consta como data de nascimento o dia em que deixei o útero de minha mãe, não quando ela descobriu estar grávida), mas sim por que, na cabeça deles, “mulher decente não transa com qualquer um, gravidez indesejada é coisa de vadias e elas que se explodam!”. Ou seja, o bom e velho machismo, pensamento segundo o qual uma mulher não tem o direito a ser livre.

Não por acaso, a maioria das lideranças “pró-vida” é formada por homens: para nós, que não engravidamos, o aborto sempre foi legal.

aborto

O frio está a caminho

Porto Alegre dentro de algumas semanas

Porto Alegre dentro de algumas semanas

No colégio, aprendi que equinócios são os instantes em que o Sol cruza o equador celeste. Em tais ocasiões, que se dão apenas duas vezes a cada ano (20 de março e 22 de setembro), ambos os hemisférios da Terra recebem igual insolação.

Tais eventos também significam trocas de estação (variando conforme o hemisfério, norte ou sul). Em um lado da Terra o verão acaba e tem início o outono, enquanto no oposto é o inverno que dá lugar à primavera.

Hoje é dia de equinócio. E, pela lógica, está chegando o outono: afinal de contas, como pode começar a primavera sem que tenha havido inverno? Ou seja, preparemos os agasalhos pois agora sim vai começar a esfriar.


Quem dera fosse realmente o outono que estivesse chegando… Não que eu desgoste da primavera (térmica e visualmente falando, ela costuma ser agradável a maior parte do tempo): o problema é saber que um novo verão está há três meses de distância, ainda mais que em quase 33 anos de vida nunca sofri tanto com o calor como em 2014.

Já o “inverno” (se é que dá para chamar assim) que acaba às 23h29min de hoje, teve muitos gols da Alemanha e pouco frio.

Gauchismo é complexo de vira-lata às avessas

Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata”, que definiria o Brasil enquanto povo: por melhor que fosse, “tremeria” em momentos decisivos (sendo a derrota na decisão da Copa do Mundo de 1950 o maior exemplo disso). Seria essa a explicação para o “atraso” do Brasil em comparação com os Estados Unidos e países da Europa Ocidental.

Passaram-se mais de 60 anos e obviamente o Brasil não é mais o mesmo país “atrasado” daquela época, embora ainda haja muito a se fazer para que ele seja realmente justo (por mais que tenha melhorado nos últimos tempos). Mas, ainda assim o complexo de vira-lata persiste, e não falta quem encha a boca para falar dos problemas do Brasil como se eles fossem exclusividade brasileira. E não, definitivamente não são. Por exemplo, reclamamos (com razão) de sermos transportados “feito sardinhas em lata” no transporte público nos horários de pico, mas se trocássemos as sardinhas em lata por cidadãos de Tóquio, não deixaríamos de estar certos.

Já no Rio Grande do Sul, acontece um fenômeno aparentemente contrário. O tal “orgulho gaúcho”, presente o ano inteiro mas que tem ainda mais força em setembro, se alimenta de diversos mitos como, por exemplo, o de que “somos o povo mais politizado do Brasil”: uma olhadinha na lista de governadores derrubaria rapidamente essa lenda (basta lembrar quem governou o Rio Grande do Sul de 2007 a 2010 e o porquê disso); e além disso, as últimas pesquisas eleitorais mostram oportunistas (cujas histórias políticas se resumem a “aparecer na televisão”) ponteando as disputas ao governo estadual e ao Senado, quando um povo realmente politizado não lhes daria sequer 1% dos votos. Também adoramos nos gabar dizendo que “defendemos com bravura as fronteiras meridionais”, como se guerra para defender o Brasil de “invasores estrangeiros” fosse “privilégio” do Rio Grande do Sul. (Ao contrário do que sugere o chamado Grito do Ipiranga, o processo de emancipação política do Brasil em relação à Portugal não foi pacífico, e muito sangue foi derramado em diversas partes do país – em especial, na Bahia – para que a unidade territorial brasileira fosse mantida.)

Mas em geral, quem mora no Rio Grande do Sul acredita em tais mitos. E mais: reclama de um suposto pouco reconhecimento pelo restante dos brasileiros. “Somos os melhores, fazemos tanto pelo Brasil, e eles insistem em não reconhecer”, bradam em discursos inflamados.

No fundo, trata-se do complexo de vira-lata com uma aparência diferente. É como uma camiseta virada do lado avesso: você pode vesti-la e dizer que é outra, mas sabe que se trata da mesma.

Afinal, o Rio Grande do Sul como parte do Brasil que é, obviamente não ficaria imune ao “vira-latismo” que supostamente caracteriza o povo brasileiro. Mas, com a absurda mania que temos de querermos mostrar que somos tão “diferentes”, manifestamos nosso complexo de vira-latas de maneira também diferente: batendo no peito e gritando que “somos os melhores”. Pois da mesma maneira que o Brasil nas últimas décadas sempre buscou ser reconhecido como um “equivalente” pelos países considerados “mais importantes”, o Rio Grande do Sul pleiteia o mesmo em relação ao centro do país. O discurso é diferente, mas o objetivo é exatamente igual.

Breve comentário sobre o debate dos candidatos ao Senado

Se Lasier Martins for eleito, será um dos episódios mais vergonhosos da história política do Rio Grande do Sul. O ex-comentarista da RBS parece um disco arranhado: só fala em Ford (que foi embora porque quis e não por ter sido “expulsa” como ele diz) e, no debate da Bandeirantes, ficou óbvio seu desespero em desqualificar Olívio Dutra.

Foi tão deselegante, que chegou ao ponto de atacar Olívio nas considerações finais, quando este já não podia mais responder. Mas uma coisa certa Lasier falou: “vote contra o atraso” – ou seja, contra ele mesmo.

Para saciar a fome do Chaves

Pobre México, tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos. A frase, dita por Porfirio Díaz (ditador deposto pela Revolução Mexicana em 1911), sintetiza boa parte da história do México no Século XIX: considerável porção do território do país acabou nas mãos dos Estados Unidos, mediante guerras ou compras de terras. Não é por acaso que várias cidades estadunidenses têm nomes “espanhóis” (San Francisco, Los Angeles, San Diego, Las Vegas etc.): a Califórnia, por exemplo, pertenceu ao México até 1850.

Jugamos como nunca, perdimos como siempre. Tal frase é de Alfredo Di Stéfano (craque argentino naturalizado espanhol), mas é sempre lembrada pelos mexicanos a cada fracasso de sua seleção em Copas do Mundo. Afinal, o México sempre é um adversário difícil de ser batido (como a Seleção Brasileira bem sabe, no último Mundial ficou no 0 a 0 em uma jornada memorável do goleiro mexicano Ochoa), mas desde 1994 vem sendo eliminado nas oitavas-de-final. Aliás, vale lembrar a forma dramática como se deu a derrota de 2014: vencia a Holanda no Castelão por 1 a 0 até os 42 do segundo tempo, quando Sneijder empatou com um chutaço; nos acréscimos, Huntelaar virou o jogo com um gol de pênalti (incorretamente marcado, ao meu ver). E como se não bastasse, essa foi a terceira vez em que o México abriu o placar nas oitavas: já tinha saído na frente da Alemanha em 1998 e da Argentina em 2006.

Mas, se tem algo em que o México não perde de jeito nenhum, trata-se do seriado “Chaves”, cuja exibição no Brasil completou 30 anos no último dia 24 de agosto. O personagem principal é um tanto representativo da realidade mexicana e latino-americana como um todo: um menino pobre e esfomeado que não tem família (como o próprio Chaves diz sobre seus pais, “ainda não fomos apresentados”) e que depende muito da solidariedade alheia; talvez por isso tenhamos tanta identificação com o seriado a ponto dele ser tão adorado mesmo que os episódios se repitam desde 1984.

Se o México “joga como nunca e perde como sempre”, comigo na cozinha acontece o contrário. Ainda mais quando foi a minha vez de ir fazer a comida mexicana, mais um dos pratos da “Copa da Culinária”, nos almoços de sábado na casa da minha avó. Eu decidi o prato na madrugada de sábado: achei uma receita de Feijão Mexicano que tinha todo jeito de ser deliciosa. Porém, para poder fazê-la esqueci um detalhe: deixar o feijão de molho… Resultado: tive de trocar. Fui novamente à pesquisa na manhã de sábado, achei um prato chamado Frango à Mexicana, resolvi fazer, e ficou bom! Me atrapalhei como nunca, deu certo como sempre… Igual aos episódios do Chapolim, em que tudo acaba bem mesmo depois de incontáveis e hilárias trapalhadas.

Ingredientes:

  • 100ml de vinho branco;
  • 100g de amêndoas;
  • 2 dúzias de azeitonas;
  • 200g de tomates;
  • 250g de azeite;
  • 1 dente de alho;
  • Pimenta de Caiena;
  • Farinha de trigo;
  • 1 folha de louro;
  • 1 cebola;
  • 1 frango.

Modo de preparo:

Cortar o frango e condimentá-lo, passando-o pela farinha; fritar no azeite com a cebola em rodela e o alho esmagado; juntar o vinho branco, deixando cozinhar durante cerca de 30 minutos, condimentando-o com o louro e a pimenta de Caiena; pouco antes de servir, juntar as amêndoas cortadas em fatias finas, as azeitonas e os tomates.


Como em outras receitas que fiz, nem tudo correu conforme o script. Mas dessa vez, foi bem pouca coisa mesmo: a diferença principal foi a pimenta. Não achei a pimenta de Caiena, então optei pela vermelha; mas sem exagerar, devido às lembranças do “calorão” que foi a comida chilena.

O resultado, está abaixo. É ou não de saciar a fome do Chaves?

frango mexicano


Fazia mais de um mês que eu não postava nenhuma receita, mas não é por eu não ter feito mais nenhum prato. Nesse meio tempo eu fiz a comida italiana e não escrevi ainda… Em breve, publico aqui.

“Tá com pena, leva pra casa!”

Foi só os “juízes” das redes sociais descobrirem os perfis de Patrícia Moreira (torcedora gremista que as câmeras flagraram gritando “macaco” para o goleiro santista Aranha) que os ataques baixos começaram, logo após Grêmio x Santos. Ela teve de apagar suas contas no Facebook e no Instagram para se livrar das ofensas, a maior parte de cunho machista.

Na última quinta-feira, Patrícia prestou depoimento. E na sexta-feira, deu uma declaração à imprensa. Tanto na quinta como na sexta, ela chorava muito, e não acho que sejam “lágrimas de crocodilo” como alguns já disseram. A superexposição e o “linchamento virtual” (aos quais não foram submetidos os outros torcedores que também ofenderam Aranha) obviamente deixaram a jovem muito abalada.

Mas, adivinhem, pessoas que recordo muito bem de terem chamado Patrícia de “vagabunda” agora dizem sentir “pena” dela. Foram de um extremo ao outro: da fúria condenatória à total solidariedade. Acreditem se quiser, até uma página “solidária” a Patrícia foi criada no Facebook: quando recebi o convite para curti-la, pensei seriamente em ironizar e mandar uma mensagem ao amigo que me fez a “sugestão” dizendo o bom e velho “tá com pena, leva pra casa” – uma das frases mais repetidas pela turma da indignação seletiva e do “bandido bom é bandido morto”.

Por essa lógica, genialmente ironizada no vídeo acima, o brado nas redes sociais não deveria ser pelo “justiçamento” de Patrícia? Afinal, injúria racial é crime, quem comete crime é “bandido”, e “bandido bom é bandido morto”, logo…

Mas não, já mudou tudo. Primeiro, porque o Grêmio foi condenado, e boa parte da fúria dirigida por muitos gremistas a Patrícia passou a ser direcionada ao STJD (que merece muitas críticas, é verdade, mas não exatamente por este episódio). Segundo, por conta da postura “chorosa” da torcedora: como disse, não acredito que foram “lágrimas de crocodilo” que tinham por objetivo fazer com que se sentisse pena dela; mas ao mesmo tempo, é óbvio que ela pedir perdão aos prantos gera um sentimento de compaixão por parte de muitas pessoas. Afinal, quem nunca errou?


Sabem aquele velho senso comum sobre direitos humanos, segundo o qual seus defensores só se preocupam em “proteger bandidos”? Pois bem: quem milita pela causa dos direitos humanos têm por objetivo garanti-los a todas as pessoas.

Mas, então, por que eles não “defendem” os “cidadãos de bem” (detesto essa expressão mais do que o verão de Porto Alegre) contra a “maldade” dos “bandidos”?

Não, não é porque os defensores dos direitos humanos são “contra as pessoas honestas” (me pergunto como alguém pode pensar tamanha merda), e sim porque criminosos (ou pessoas que simplesmente foram acusadas) se encontram em uma situação de extrema vulnerabilidade: em geral, temos a tendência a vê-los como párias e mesmo “monstros”, e não como sintomas de uma desordem social (ainda mais em uma sociedade tão desigual como a brasileira), o que para não poucas pessoas “justifica” que se façam as piores barbaridades (afinal, são “bandidos” que põem em risco os “cidadãos de bem”).

Pois bem: não é exatamente a situação na qual Patrícia Moreira se enquadra atualmente? Basta lembrar o “linchamento virtual” do qual ela foi vítima: a jovem foi tratada como se fosse a “encarnação do mal” (no caso, o racismo) e não como produto de uma sociedade racista, e mesmo que seja crescente o sentimento de “pena” por ela, ainda há quem pense que a torcedora é o problema e não um sintoma dele.

Ou seja: quem se preocupa com Patrícia está defendendo os direitos humanos, mesmo que sem saber disso. Aliás, da mesma forma que eu fiz já no início de toda a polêmica: por mais que a jovem procure “se justificar” pelo que fez, não pode ficar impune; mas, ao mesmo tempo, não se pode usar isso como desculpa para cometer qualquer tipo de violência contra ela. Só que penso o mesmo sobre qualquer pessoa que cometa (ou seja acusada de cometer) crimes: minha defesa dos direitos humanos não é seletiva.