Cotas, sim!

Na última quinta-feira, o STF tomou uma histórica decisão, ao definir que as cotas “raciais” em universidades não são inconstitucionais. Pois embora todos os humanos formem apenas uma raça (daí o uso de aspas em “raciais”), muita gente ainda acredita que a humanidade se divida em diferentes raças. E pior ainda: tem o costume de achar que as pessoas de pele branca são superiores.

Já fui crítico à adoção de cotas com base na cor da pele dos candidatos à vaga nas universidades. Achava que o critério mais justo seria o de renda, pois isso também beneficiaria a população negra – que em sua maioria é pobre, uma herança da escravidão. Também me baseava em uma exceção – negros de classe média, que tinham condições de pagar por uma escola particular, além dos caríssimos cursinhos pré-vestibular – para defender que os brancos pobres seriam prejudicados.

Minha visão não podia ser mais errada. Primeiro, porque a comprovação de renda poderia ser facilmente fraudada. E em segundo lugar, as políticas de ação afirmativa, pelo menos como foram adotadas na UFRGS, não prejudicam os brancos pobres. Afinal, as cotas não são simplesmente para negros e indígenas, mas sim, em primeiro lugar, para estudantes vindos de escolas públicas, que tradicionalmente têm desvantagem em comparação com os alunos de colégios particulares. Das vagas reservadas a quem cursou o Ensino Médio numa escola pública, metade é destinada a candidatos negros – ou seja, eles perdem o direito a concorrer pelas cotas caso tenham estudado em colégio particular.

Aí o leitor pode vir com um argumento muito válido, mas que não considero adequado: “mas o governo tinha é de melhorar o ensino público ao invés de ficar dando cota”. Concordo que as escolas públicas estão de chorar, só que isso não se resolve de uma hora para outra. Obviamente as cotas não acabam com o problema (aliás, quem dera fosse fácil solucioná-lo). Mas são uma maneira de enfrentar o preconceito.

Afinal, a má qualidade do ensino nas escolas públicas faz com que a universidade não reflita a diversidade da sociedade brasileira – ou seja, não há convivência entre os diferentes, tão necessária para que eles se conheçam e assim haja menos preconceito. Nas escolas particulares, com raros alunos negros, é que isso não acontece; já nas públicas sim, o problema era que os alunos de escolas públicas dificilmente conseguiam chegar à universidade.

Com as cotas, eles conseguem – mesmo que ainda sejam poucas as vagas reservadas. E numa prova de que desempenho no vestibular não quer dizer nada, os alunos cotistas não só têm se saído melhor em muitos cursos, como também desistem menos. Ou seja, valorizam mais a oportunidade que têm.

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Já prevejo a alta probabilidade de aparecer alguém para dizer que já estou formado, não preciso mais me preocupar que minha vaga na faculdade seja “roubada”, dentre outras idiotices. Pois respondo antes mesmo de vir um comentário tosco desses: graças às cotas, muitas famílias não precisam pagar caro para pôr seus filhos – sejam eles brancos ou negros – em colégios particulares.

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3 comentários sobre “Cotas, sim!

  1. A elite sempre tem argumentos… recomendo assistir na tv câmara a reprise de uma Audiência Pública da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço público a respeito de discriminação no trabalho e outros assuntos relativos.. Audiência do dia 12 de abril, reprisada dia 1º de maio de 2012.

  2. O problema não é o pobre ou o rico e sim o intermediário.
    Meu namorado abriu mão de sua residência, passando a morar no seu escritório e dormir em um colchão no chão, passou necessidade e tudo isso para que os filhos tivessem um ensino melhor em escola particular. Foi assim até concluírem o ensino médio. Ensino médio concluído, eles tiveram que entrar no acesso universal e lá ficaram 4 anos tentando uma vaga porque o pai podia pagar a escola privada mas não a universidade privada e eles não tinham direito a cotas. Sendo assim o sistema de cotas não é justo. O ensino do Bom Conselho é muito inferior ao ensino do Anchieta e outros do gênero.
    Meu filho juntou 12 meses de soldo do quartel para pagar o pré vestibular sem passeio, festas ou viagens e entrou pelo sistema de cotas para escola pública. O que este país precisa é de pessoas dispostas a lutar por um futuro melhor. A escravidão acabou a muitos anos, o que não acabou é a mania do brasileiro de arrumar desculpa apara tudo. Arregaçar as mangas e ir a luta é o suficiente para vencer.
    Direitos iguais para todos como manda a Constituição Brasileira.

    • Direitos iguais para os iguais e diferentes para os diferentes… isto sim seria democracia e não a balela da nossa “democrática” Constituição da República que iguala a todos, inclusive quem nunca teve o direito de lutar por seus direitos. A isto se chama de COVARDIA. O que falta no país é a oportunidade para que TODOS possam começar do zero e não com vantagens sobre os outros, e para que TODOS tenham que arregaçar as mangas e não somente os menos favorecidos. O que temos o país é uma oligarquia. Basta abrir os olhos para ver. Cotas, SIM!!!

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