“Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár

Sábado passado, foi combinado que eu faria o almoço que alimentaria meu pai, minha avó, minha tia, meu irmão e eu próprio. Ao invés de comermos massa mais uma vez, saboreamos um goulash (gulyás, em húngaro), prato originado na Hungria e também bastante apreciado na Áustria (herança dos tempos de Império Áustro-Húngaro).

A simples decisão do que fazer de almoço no 1º de maio me fez lembrar o livro Os Meninos da Rua Paulo, do escritor húngaro Ferenc Molnár, lido por mim várias vezes. Mas cuja última leitura ocorrera há muito tempo – provavelmente antes de 2004, quando ingressei na faculdade de História – e então decidi o ler novamente, o que fiz rapidamente.

Lembro até hoje de como “descobri” o livro. Veio numa “leva” que foi dada por uma amiga da minha mãe. Um dia meu pai passou os olhos por aqueles livros (cuja maioria mantinha-se intocada por mim), e os olhos dele brilharam quando enxergaram Os Meninos da Rua Paulo. “Esse livro é SENSACIONAL!”, disse ele entusiasmado.

Foi só eu ler para comprovar o quanto meu pai estava certo. É uma história simplesmente fantástica, de um grupo de meninos de Budapeste que costumava brincar em um terreno baldio na Rua Paulo (Pál Utca, em húngaro), no final do século XIX. Aquele pequeno pedaço de chão, para os garotos, era mais do que um lugar onde eles se reuniam para jogar pela: era sua terra (grund, em húngaro), quase como uma espécie de “pátria” – o que fazia todo o sentido numa época em que a Europa inteira vivia uma intensificação do nacionalismo por todas as partes. Em alguns trechos, Molnár refere-se à turma da Rua Paulo como “nós”, o que mostra não só que o grupo existiu de verdade (provavelmente não com os mesmos nomes), como que ele próprio o integrava.

Porém, o grund dos meninos estava ameaçado. Pois um outro grupo de garotos, que costumava se reunir no Jardim Botânico da capital húngara, desejava apossar-se do terreno da Rua Paulo, devido à falta de espaço para jogar pela em seu “território”. Uma “guerra” entre crianças aproximava-se. De brincadeira, é claro (ninguém tinha intenção de matar), mas com todos os aspectos dos conflitos de verdade na época: espionagem, deserção, “missões diplomáticas” e até mesmo “declaração de guerra”. E ambos os grupos davam grande valor à honra: mesmo “inimigos”, havia muito respeito entre eles, além de reconhecimento por atos heroicos dos adversários.

Há também, como em outras histórias, aqueles personagens que mais se destacam. No caso de Os Meninos da Rua Paulo, tratam-se de János Boka e Ernõ Nemecsek – que encontram-se nos extremos da “hierarquia militar” da turma: Boka é o presidente do grupo e general, enquanto Nemecsek, mais pobre dos meninos, é soldado-raso.

A propósito, Nemecsek, mais que um personagem heroico (já falei demais, para saber o porquê, leia o livro!), representa também uma crítica à sociedade da época: num contexto de exaltação às “nacionalidades”, quem mais lutava por elas (ou seja, o povo) era pouco ou nada reconhecido, enquanto os que decidiam fazer as guerras não participavam das batalhas e ainda eram condecorados. Aliás, nada muito diferente da atualidade.

Outro aspecto que tem semelhança com a atualidade, refere-se à ameaça que pairava sobre o grund, devido ao interesse dos meninos do Jardim Botânico pela área. Pois o perigo maior, na verdade, não era a outra turma de garotos.

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Impossível ler um livro desses e não lembrar um pouco de minha própria infância. Quando, se não fazíamos “guerra”, tínhamos também aquele sentimento de pertencimento a um grupo, que tinha um “território” – que no nosso caso, correspondia a um pequeno trecho da Rua Pelotas entre a Rua São Carlos e a Avenida Cristóvão Colombo (mas sem necessariamente chegar às esquinas, o que inclusive não nos era recomendado por nossos pais). Inclusive, uma vez demos uma volta na quadra com nossas bicicletas, sozinhos, e a sensação foi de que íamos a um “país inimigo” – imaginem a nossa satisfação pelo ato de coragem que tínhamos cometido!

Era em nosso “território” que jogávamos futebol, apostávamos corrida de bicicleta… Pelo menos nunca precisamos fazer “guerra” para defendê-lo. Mas seria interessante que as crianças de hoje o conquistassem: por culpa da paranoia da segurança, só ficam dentro de casa, brincando com jogos eletrônicos e assistindo televisão.

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13 comentários sobre ““Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Molnár

  1. Rodrigo,

    Parabéns pelo belíssimo texto que escreveste!

    Partindo de um almoço aconchegante em família, discorreste as tranformções e as emoções da infância desde Budapeste até os nossos dias.

    Fazer esta síntese da história real, aliada com a boa literatura, é próprio de seres humanos que têm grande talento e formação familiar.

    Teu pai tem razão de estar orgulhoso!

    Um carinhoso abraço,

    Sandra.

  2. Li esse livro quando era criança, depois assisti o filme quando a TV da minha casa ainda era em P&B. É lindo.
    Sempre imaginei que esse romance, se adaptado a uma infância brasileira, contaria a história de meninos que se desafiariam para um jogo de futebol, que o jogo valeria o ‘campinho’ e que o menino, que seria o goleiro do time, mais tarde morreria vitimado pela pneumonia contraída em razão da chuvarada miserável que caiu na hora do jogo. No último lance do jogo ele, caído e abraçado à bola, seria pisoteado e chutado pelos adversários. Perderia os dentes, perderia o sangue, porém não perderia o jogo e nem o ‘campinho’.
    Bem coisa de guri gremista.
    Mas me digas: ficou bom o tal goulash?

  3. Destaco o comentário que V. faz:
    “E ambos os grupos davam grande valor à honra: mesmo “inimigos”, havia muito respeito entre eles, além de reconhecimento por atos heroicos dos adversários.”
    Parece que a ausência desse sentimento em nosso momento histórico, de desrespeito total ao outro – próximo ou distante, – e que é uma característica do neoliberalismo, feroz e predatório, tem muito a ver com a falta de perspectivas atual da juventude, que perde seus parâmetros éticos e afetivos, e, portanto, perde a esperança.
    É muito positivo, pois, encontrar uma referência de resgate de valores como essa no texto de um jovem de hoje. Vá em frente, Rodrigo, faça seu proselitismo.
    Sem esperança e sem esse sentimento de honra e respeito, estamos no mato sem cachorro – restam a paranóia e o ícone de Freddy Kruger às soltas sem remissão.
    Abrs
    Tania Jamardo Faillace

  4. Vale a pena relembrar o tradutor: Paulo Rónay, escritor, professor, imigrante húngaro radicado no Rio (pai de Cora Rónay), grande amigo de Aurélio Buarque de Holanda, cuja historia se reflete no livro de Chico Buarque – Budapeste: Um homem que sabe escrever, encontra nova pátria, nova lingua, nova identidade, mas nunca esquece suas raizes.

    • É verdade… Esqueci de citar Paulo Rónay no post. Não fosse ele, talvez o livro levasse muito mais tempo para ser traduzido para o português – e o meu pai não o tivesse lido durante a adolescência.

      Valeu pela lembrança!

  5. Rodrigo,
    Parabéns pelo texto! Há pouco conclui a leitura do livro, e estava a procura de comentários quando localizei teu texto. O livro é realmente um clássico, atemporal, metáfora das lutas da vida.
    Amanhã, 20 de maio de 2010, este livro será discutido na Livraria Saraiva do Moinhos, às 19h e 30 min., com comentários de Luiz Olyntho Telles da Silva. Acho que será um momento importante para os leitores que admiraram o texto de Molnár. Maristela

  6. Salve!

    Cara, já passei dos 30 e li esse livro aos 11, vindo pelas mãos de um grande amigo. Perdi as contas de quantas vezes o reli. Fico feliz em saber que Os Meninos da Rua Paulo é o livro do coração de tanta gente…

    Ei, você é historiador também? Legal… Somos colegas!

    Abração e belo post!

  7. Eu li este livro quando era menina e me lembro que chorei muito (de ficar com os olhos inchados) com a morte do Nemecsek que para mim era a encarnação do verdadeiro herói que se sacrifica pela pátria, no caso, o querido grund deles. Que saudade…

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