Acabou

Foi numa época em que eu gostava de Natal, e estava mais preocupado em brincar com os presentes do que assistir televisão (sábia preferência). No dia 25 de dezembro de 1991, Mikhail Gorbachev renunciava à presidência da União Soviética que, sem ninguém para sucedê-lo, deixava de existir. Na prática, o país já era uma ficção desde 8 de dezembro, quando Rússia, Bielorrúsia e Ucrânia assinaram o tratado que deu origem à CEI, Comunidade de Estados Independentes, que reuniria as ex-repúblicas soviéticas agora independentes, como o próprio nome do bloco dizia.

Aquele Natal gerou diferentes sentimentos, de acordo com o ponto de vista de cada pessoa. Os comunistas ficaram arrasados. Afinal, era o fim do sonho onde ele havia começado. Podia não ser o socialismo mais desejável, mas era o pioneiro. A queda dele, significava muito. Mesmo que já fosse algo de certa forma esperado: o próprio Gorbachev apontava para essa direção; e após o frustrado golpe de agosto de 1991, a Rússia, cada vez mais autônoma sob a liderança do Fluminense bebum presidente Bóris Yelstin, proibira atividades do Partido Comunista: no dia 7 de novembro de 1991, não houve parada militar para comemorar os 74 anos da Revolução de Outubro.

Já os liberais de plantão, conservadores e direitosos (sim, há diferenças entre eles, conforme já expliquei aqui) sentiam-se o máximo, estavam em êxtase. Enfim, haviam comprovarado que o capitalismo é parte da natureza humana, que aqueles comunas idiotas estavam errados e o Estado mínimo é o máximo.

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Acabou-se também, infelizmente, o inverno. Que, assim como o socialismo soviético, divide opiniões.

Assim como os comunistas críticos à URSS, eu sou um adorador do inverno que reconhece o sofrimento da população mais pobre durante o período mais frio do ano. O que é culpa não das baixas temperaturas, mas justamente da má distribuição de renda no Brasil, que impede muitas pessoas de adquirirem mais agasalhos e terem um lugar mais quente para se abrigarem.

E da mesma forma que há quem sinta saudades da URSS – e não são poucos – ou mesmo quem apoiou seu fim e depois se arrependeu, é capaz de ter gente feliz que o inverno acabou, e daqui três meses estar reclamando do calor de quase 40 graus, das baratas, dos mosquitos, dos banhos de suor… Pessoas que adoram reclamar de tudo.

Para não dizerem que sou um reclamão, digo tudo agora: odeio verão e quero que chegue logo o outono.

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Claro que gostar de frio ou calor não tem a ver com posição política. Eu sou de esquerda e amo as baixas temperaturas, mas tem gente de esquerda que detesta frio. Há também gente de direita que adora inverno.

Agora, brabo mesmo é o direitoso que ama verão. Se for colorado então, com esse jamais eu vou concordar!

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2 comentários sobre “Acabou

  1. Camarada Rodrigo, o que os liberais e demais defensores do capitalismo não conseguem explicar é porque se o capitalismo é o melhor dos mundos e superior à todos os demais sistemas econômicos porque russos, alemães orientais, europeus do leste apresentam índices enormes de insatisfação com o benéfico capitalismo?

    Já coloquei essa questão em sites de debates com direitontos e eles só esbravejam, tergiversam, xingam, mas não dão uma única resposta decente. Deve ser porque a resposta decente afronta o que eles pensavam… KKK

    Um outro mundo socialista é possível e necessário!

  2. Não fosse o rigoroso inverno da Europa e do norte dos Estados Unidos e não sei se o regime de escravidão absoluta em que viviam os homens negros não existiria ainda nos dias de hoje. Manter uma população de escravos aquecida e alimentada durante todo o tempo em que a neve cobria o solo e impedia o trabalho acabou sendo economicamente inviável, por isso é que estes países frios lutaram tanto pela abolição da escravatura, para que os países de regiões tropicais não mais pudessem contar com essa ‘vantagem’. No mundo capitalista, já sabemos, não há lugar para a ética ou os sentimentos, tudo é uma questão de relacionar custos e benefícios. Então, concluimos que o inverno, que eu não gosto, não é de todo ruim e faz mais do que apenas controlar as pragas de insetos, mas é capaz de controlar, ao menos em parte, a babárie dos homens sobre a terra.
    Quanto ao comunismo acredito que a mais perfeita civilização comunista que já existiu, viveu e prosperou por séculos na América do Sul, mas começou a se extinguir logo que o primeiro homem branco pisou por aqui. Outra igual aquela jamais existirá.

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