“O Corte”, de Costa-Gavras

Assisti na tarde de segunda-feira ao filme “O Corte”, de Constantin Costa-Gavras. É a história de Bruno Davert (interpretado por José Garcia), um típico pai de classe média na França, que era executivo de uma fábrica de papel mas foi demitido porque a empresa queria “cortar despesas”. Depois de passar dois anos e meio desempregado, decidiu solucionar o problema de forma drástica: eliminando – diga-se matando – seus prováveis concorrentes a uma vaga de emprego.

O filme começa com Davert fazendo uma “confissão” em um gravador, arrependido depois de ter cometido seu terceiro assassinato. Depois volta no tempo, ao ponto em que o ex-executivo toma a decisão de matar seus concorrentes. Aí Costa-Gavras pecou: poderia ter explorado mais o período em que Davert buscava emprego e fracassava nas entrevistas para mostrar melhor o drama do desemprego, que afeta também os países desenvolvidos.

Mas isto não impede que “O Corte” seja um bom filme, que sirva para fazer uma ótima reflexão sobre o mundo do trabalho na atualidade: para termos “sucesso”, devemos ser extremamente competitivos, precisamos viver para trabalhar. Era o que Davert fazia até sua demissão: o trabalho era sua vida, sem emprego ele se sentia uma pessoa “sem valor”. Personagem principal, Bruno Davert é um “anti-herói”: nos sensibilizamos com seu drama, mas ficamos chocados com o meio que ele utiliza para resolver seu problema, visto que seus concorrentes a uma vaga, “inimigos” no seu ponto de vista, são pessoas que também enfrentam o desemprego, algumas há até mais tempo do que ele.

Por fim, um diálogo que considero central no filme: quando Bruno Davert almoça com a esposa e os filhos, surge o questionamento sobre o fato dos meios utilizados serem ou não justificados pelos objetivos desejados. Logo vem uma resposta: “os fins não justificam os meios, exceto nas guerras”. Davert está em guerra, e fará qualquer coisa para conseguir um emprego.

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4 comentários sobre ““O Corte”, de Costa-Gavras

  1. “Hoje em dia, a pessoa tem que dar 110% pela empresa” “Se tem que trabalhar no fim de semana, então tem que trabalhar no fim de semana, ora” “Muitos aí fora matariam só pra ter um emprego”

  2. poisé, um emprego hoje não é fácil de encontrar. Então, quando se tem um, não pode-se perde-lo, mas se isso acontece: a vontade de fazer loucuras para recuperá-lo é da natureza humana contemporânea. Infelismente, há indivíduos que não medem esforços para conseguir o que lhes é desejado, assim: o filme não retrata nada do “além” e, sim, uma realidade que nos assombra e nos deslumbra muitas vezes.
    PS: o filme é muito bom mesmo. Eu nunca tinha assistido um filme desta linhagem, mas gostei devido sua interação real com a realidade (e que, muitas vezes, nos é meio imcompreensivo).

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