Pastor Everaldo e a contradição de muitos liberais brasileiros

Fazia anos que eu não via um candidato a presidente defender abertamente as privatizações – caso de Everaldo Dias Pereira, o Pastor Everaldo, que concorre à presidência pelo PSC. Ontem, na entrevista ao Jornal Nacional, disse que privatizará a Petrobras caso seja eleito. Além de outras empresas estatais que ele considere como “foco de corrupção”.

Após o governo de Fernando Henrique Cardoso, que privatizou várias estatais e terminou com índices de reprovação que superavam os de aprovação, “privatização” virou uma espécie de “palavrão” no dicionário político brasileiro. Na campanha eleitoral de 2006 tivemos dois exemplos disso. O primeiro, foi na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul: a candidata Yeda Crusius (PSDB) tinha como vice o empresário Paulo Afonso Feijó (então PFL, depois DEM), que defendia abertamente as privatizações; a coordenação de campanha procurou forçá-lo a não falar o “palavrão”, temerosa de perder votos; no fim Yeda foi eleita, mas ao assumir o governo já tinha Feijó quase como um “opositor”. O outro foi na disputa pela presidência: o candidato tucano Geraldo Alckmin chegou a vestir uma jaqueta com logotipos de várias estatais, para tentar convencer os trabalhadores delas de que não tinha a pretensão de vender as empresas; não adiantou, e Alckmin conseguiu a façanha de perder obtendo menos votos no segundo turno do que recebera no primeiro.

Everaldo, por sua vez, não esconde o que pensa. Talvez pela baixíssima probabilidade de ser eleito, o que dá a qualquer candidato na mesma situação a tranquilidade de que não precisará cumprir sua promessa: lembro que anos atrás o PCO defendia em seus programas eleitorais o salário mínimo de R$ 1.500, algo que acharia sensacional mas sei que é politicamente inviável ainda nos dias de hoje. Mas a diferença é que Everaldo não é o PCO (esquerda), mas sim, representante da direita mais conservadora. Fosse eleito, não teria dificuldade alguma de aprovar suas propostas: independente de quem vença a disputa presidencial, me parece quase certo que, infelizmente, o Congresso que surgirá das urnas em outubro será bem mais conservador que o atual.

Pois as propostas de Everaldo não se resumem à retomada das privatizações. Na realidade, elas refletem bem uma das maiores contradições de parte considerável dos ditos “liberais” brasileiros, que tanto discursam a favor da “liberdade”: defendem o “Estado mínimo” na economia, mas em compensação pregam a intervenção estatal em assuntos de ordem realmente privada. Sim: como seria de se esperar de um candidato conservador e que prega a “defesa da família” (fica a dica para qualquer um que esteja concorrendo e queira abrir mão do meu voto: fale em “defesa da família”), Everaldo é contra o casamento homossexual, a legalização do aborto e das drogas. Até aí, nenhuma novidade.

Mas o fato é que temos uma candidatura de um típico liberal brasileiro, com um discurso que prioriza a “liberdade” a despeito da igualdade – como se fosse possível real liberdade em uma sociedade desigual – e ao mesmo tempo contrário à liberdade de homossexuais se casarem, de mulheres interromperem uma gravidez indesejada e de pessoas adultas decidirem se drogar com uma substância que não seja álcool, nicotina ou ritalina. Se há algo positivo nisso (ele não esconde o que realmente defende), por outro lado também mostra que a direita mais conservadora está perdendo a vergonha de ser “autêntica” (além de Everaldo há também o candidato do PRTB, Levy Fidélix, que quer “endireitar” o Brasil), justamente por perceber que isso não significa mais votações baixíssimas – o que é muito preocupante.


“Mas eu sou contra o aborto, o casamento homossexual e as drogas”, alguém poderá dizer. Tudo bem: isso se chama liberdade de opinião. Mas, pense um pouquinho: nem todas as pessoas são obrigadas a pensar como você.

A mulher grávida que aborta não “assassina” um bebê: ela interrompe uma gravidez, o que leva à morte o feto que carrega em seu útero. Cientificamente falando, é isso mesmo: aquele pequeno organismo não é um bebê (ou seja, um pequeno ser humano, que vive por conta própria mesmo que precisando de cuidados), é como se fosse qualquer outro órgão do corpo da mulher, tal como o apêndice (que quando inflama sempre é removido cirurgicamente). Claro que, no caso de uma mulher grávida e que deseja ser mãe, é diferente: metaforicamente, ela já se sente mãe de um bebê, mesmo que cientificamente ainda não seja. Mas para a mulher que tem uma gravidez indesejada (pelos mais variados motivos), aquele feto é um tormento e poderá continuar a sê-lo mesmo depois de bebê.

Você é heterossexual e por motivos óbvios não pretende casar com alguém do mesmo sexo? Eu também.

Toma uma cervejinha todas as semanas? Pois, assim como eu, você está usando drogas… A diferença é que a nossa não é proibida. (E, inclusive, é causa de incontáveis acidentes de trânsito, que todos os anos matam milhares de pessoas em nosso país.)

Repare que garantir tais direitos (aborto, casamento homossexual e liberação de drogas como a maconha) em nada nos prejudica. Só prestar atenção no que acontece com os já garantidos: drogas como álcool e tabaco são legalizadas e ninguém é obrigado a beber ou fumar, inúmeros casais héteros optam por não formalizarem a união mesmo que tenham direito a tal… Ou seja: o aborto legalizado não impedirá mulher alguma de ser mãe, o casamento homossexual não obrigará ninguém a deixar de ser hétero, assim como ter o direito de fumar maconha é exatamente isso, direito, não obrigação.

Ou seja, se você é mulher e contra o aborto, é só não interromper uma gravidez mesmo que seja indesejada; se é contra o casamento homossexual, não case com alguém do mesmo sexo; se é contra as drogas, antes de tudo seja coerente e nunca mais ponha na boca um cigarro ou um gole de cerveja. Mas para isso não é preciso obrigar todas as pessoas a fazerem o mesmo.

2014, ano “agourento”?

Em todos os anos, no dia 31 de dezembro, é de praxe eu postar um texto com minha mensagem de Ano Novo. Mas não o fiz no último dia de 2013: questionava o otimismo quanto a 2014.

Recordo de ter lido certa vez que muito do desgosto das pessoas em relação ao final de ano se deve principalmente ao “balanço” que se faz do período que acaba, voluntaria ou involuntariamente. Em geral, quando passamos a limpo o ano e percebemos que o “saldo” é negativo (o que é uma avaliação extremamente subjetiva), tendemos a ficar mais tristes com o seu término (mesmo que busquemos pensar que a partir de 1º de janeiro as coisas mudarão). E isso faz certo sentido: o meu 2013 foi ótimo até outubro, já novembro e dezembro foram tão ruins que terminei o ano “em baixa” (e da mesma forma comecei 2014, péssimo em seus primeiros meses). Em compensação o meu 2012 foi bom até o fim, com aquela sensação de que “podia ter sido mais”, mas de caráter positivo, e não por acaso em seu último dia postei uma mensagem otimista para 2013.

Ou seja, nosso estado de espírito em dezembro pode influenciar muito no nosso ânimo para as festas. Claro que só ele não é fator determinante: sempre acho o Natal um legítimo “pé no saco”, e mesmo em anos com final “deprê” como 2013 curto o Ano Novo (nem que seja para poder comemorar o fim das festas).

Pois bem: 2014 chega à metade de agosto e ultimamente andamos recebendo muitas notícias ruins. Acidentes aéreos, mortes “notáveis”, sem contar o fim do Impedimento.

Com tantas mortes de pessoas conhecidas em curto espaço de tempo é natural pensar que, de fato, 2014 está sendo um ano “aguorento” (e que fui “vidente” no final de 2013, embora não exatamente com essas “intenções”). Eu mesmo cheguei a postar algumas das notícias trágicas no Facebook dizendo “termina 2014″. Aliás, da mesma forma que semanas atrás, quando ainda estávamos em julho, cheguei a perguntar se não seria possível “pular” os últimos dias do mês que aparentava ser o único “amaldiçoado” do ano.

Mas, sejamos sinceros, tantas mortes “notáveis” em um curto espaço de tempo é apenas uma grande (e infeliz) coincidência. Todos sabemos disso. No fundo, isso incomoda muito é porque nos faz lembrar de outra coisa: diariamente, pessoas (além de outros incontáveis seres vivos) morrem em todas as partes do mundo e um dia chegará a nossa vez. Saber que o “eu” está fadado a deixar de existir e que em termos biológicos ele é apenas uma coisinha insignificante na Terra (que por sua vez é igualmente insignificante no Universo) é algo perturbador, e nos sentimos muito pequenos e “frágeis” diante dessa constatação.

Ou seja, não tem nada a ver com o ano, e sim com nós mesmos. Larguemos dessa de “pular” meses para que cheguemos logo a 2015 (aí teremos outras mortes de pessoas conhecidas e já começaremos a desejar a chegada de 2016), e aproveitemos os meses restantes de 2014: se está sendo um ano ruim, ainda há bastante tempo para “salvá-lo”.


Se bem que, caso fosse possível, todos os anos eu “pularia” o verão…

Dia de perdas

A política brasileira está de luto com a trágica morte de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência pelo PSB. É uma grande perda, a ser lamentada independente da opção política. (E, numa triste coincidência, Campos faleceu exatos nove anos depois de seu avô Miguel Arraes, que também governou Pernambuco e foi um dos nomes mais importantes da política brasileira no Século XX.)

Hoje o dia também é triste para o jornalismo esportivo. Conforme anunciado três semanas atrás, o site Impedimento deixa de ser atualizado após a final da Libertadores, que será jogada logo mais. Mas é uma perda que vai além do mero jornalismo esportivo: a partir do futebol (e com foco na América do Sul), o Impedimento fala também de cultura, sociedade, política etc. Foi lá que li alguns dos melhores textos sobre os protestos de 2013, por exemplo.

Quem não conhece o Impedimento deve estar achando que os dois parágrafos acima não têm relação alguma, relatam apenas (mais) uma triste coincidência. Mas sim, eles têm a ver um com o outro, conforme explicarei agora.

O Impedimento tem vários fatores que o diferenciam dos principais portais e páginas sobre futebol. Um deles é tratar o esporte por uma ótica que foge do senso comum (algo sobre o qual pretendo escrever mais). Uma das consequências disso é o outro diferencial: os comentários em alto nível (salvo raríssimas excessões), com muitas discordâncias, mas que constituem uma discussão em seu sentido original, de “trocar ideias”; não raramente ela acabava fugindo do tema original (ou seja, o artigo publicado), mas não porque algum “troll” o fazia com esse objetivo e sim por uma “evolução natural”, justamente porque os textos fugiam do senso comum e por conta disso atraiam leitores com características semelhantes. Se toda a internet fosse como o Impedimento, aquela máxima “nunca leia os comentários” não faria sentido.

Mas infelizmente a realidade é outra. A maioria dos comentários em portais de notícias é simplesmente odiosa. Mas isso não se resume aos portais: quem comenta lá tem seus perfis em redes sociais, e neles reproduzem as mesmas “opiniões”. Que, ao contrário dos comentários do Impedimento, exalam muito senso comum. É o caso daquela máxima tão difundida de que “político é tudo igual, nenhum presta” (como se eles “chegassem lá” sozinhos, sem necessitarem de votos). Cria-se uma ojeriza à política que tem como resultado comentários celebrando o falecimento de Eduardo Campos, assim como em 2011 comemoraram o câncer de Lula e torceram pela morte do ex-presidente. E tenho certeza de que a maioria que disse tais sandices sequer tem conhecimento do que ambos fizeram como governantes.

Ah, se toda a internet fosse como o Impedimento…

A imbecilidade na arquibancada

O Gre-Nal de domingo foi vergonhoso para nós, gremistas. Não pela derrota por 2 a 0 (perder é do jogo, apesar de estar se tornando muito comum recentemente, e de fazer quase dois anos que o Grêmio não vence o rival), e sim pela atitude de uma parcela da torcida gremista no Beira-Rio. Poderia até postar o vídeo aqui, mas acho que quem cantou “o Fernandão morreu” não merece mais publicidade, apenas as mais severas críticas e demonstrações de repúdio.

A trágica morte de Fernandão não deixou apenas os colorados tristes. Ele conseguiu ser admirado também pelos gremistas mesmo sem jamais ter vestido a camisa do Grêmio e, como se não bastasse, tendo sido fundamental nas maiores conquistas do Inter na década de 2000. Como diz o ditado, “uma imagem vale por mil palavras”, e esta abaixo, de um gremista indo ao Beira-Rio homenagear um dos maiores ídolos colorados naquele triste 7 de junho sintetiza tudo (infelizmente não sei a autoria da foto).

fernandão

Domingo, postei no Facebook um link para um “diagrama” que ensina a “ganhar” qualquer discussão sobre futebol. O “diagrama” é genial, mas ao mesmo tempo explica o motivo pelo qual não tenho mais saco para debater futebol a não ser acerca do jogo em si ou de seus aspectos sociais, culturais ou políticos. Tentar provar ao adversário que o meu time é maior que o dele (e ele defenderá até a morte o contrário) é algo totalmente sem sentido, pois não é uma discussão em termos racionais – e aí a própria palavra “discussão” fica totalmente desvirtuada, visto que ela significa “troca de ideias” e não “bate-boca”. Sim, muito já fiz isso, até mesmo aqui no blog, e não sinto nenhuma saudade daquelas trocas de comentários que tenderiam ao infinito se alguém não tomasse a iniciativa de parar com tanta idiotice (aliás, repararam como tenho falado menos de futebol de 2013 para cá?).

Pois tudo o que não precisamos é transformar o debate sobre a demência de domingo em “Gre-Nal”. É preciso discutir, sim, o que leva alguns idiotas a mandarem qualquer senso de humanidade para o espaço, ao ponto de apelarem para a crueldade pura e simples.

Muito se discute sobre o ser humano ser bom ou mau por natureza. É um debate que, creio, jamais chegará ao fim, até porque o conceito de “bom” e “mau” é muito subjetivo. Mas é fato que temos enorme potencial para praticar o mal. Muitas vezes, conseguimos nos conter, até que haja algum espaço onde “extravasamos” sem que isso seja malvisto da mesma maneira que no dia-a-dia. E um desses lugares é, sem dúvida alguma, o estádio de futebol (valendo o mesmo para qualquer ambiente onde se assista ou fale do esporte).

Na arquibancada vemos muitas vezes um homem calmo e bem-comportado “perder a cabeça”. Aquela pessoa que jura não ser racista e/ou homofóbica, no estádio chama o rival de “macaco imundo” e/ou de “viado”. Na internet, o pessoal fala merda e depois acaba recebendo muitas críticas, aí diz que “foi no calor do momento”. Mas a verdade é que “no calor do momento” costumamos revelar o que temos de pior, características reprimidas no cotidiano mas que, uma hora ou outra, virão à tona.


Não, a torcida do Grêmio não é toda como aqueles desvairados de domingo. E não foi só aquele grupelho que agiu de maneira tão baixa, conforme li em alguns comentários e mesmo em alguns livros – exemplos que cito abaixo.

Em 1993, o Grêmio contratou por empréstimo o jovem atacante Dener, revelado pela Portuguesa e que era considerado um dos jogadores mais promissores da época. O Tricolor não tinha dinheiro para comprar o passe de Dener e assim ele foi embora após jogar apenas três meses no clube, mas já como ídolo da torcida graças ao seu grande talento, que rendeu ao Tricolor o título estadual daquele ano. No ano seguinte Dener foi para o Vasco, e em 19 de abril morreu em um acidente de carro no Rio de Janeiro, causando luto no Olímpico. Dias depois, segundo comentários, torcedores colorados teriam ido a um Gre-Nal no Beira-Rio usando cintos de segurança (equipamento de segurança mas que acabou sendo o causador da morte de Dener, visto que o banco onde ele viajava estava reclinado, anulando a eficácia do cinto, que ainda por cima estrangulou o jogador), com a intenção de ironizar e provocar os gremistas.

Na crônica “Os cânticos do desprezo”, de seu excelente livro “Futebol ao sol e à sombra” (1995), Eduardo Galeano lembra algumas músicas de torcida que revelam os velhos preconceitos que encontram no futebol terreno extremamente fértil. Citando o caso do Napoli, clube que a partir da contratação de Maradona passou a jogar um belo futebol e ganhou dois Campeonatos Italianos em curto espaço de tempo (1987 e 1990), Galeano lembra o velho racismo que os italianos do norte dedicam aos do sul, com cânticos que iam do insulto (acusando os napolitanos de serem “sujos”) à pura e simples crueldade (“Vesúvio, contamos contigo”). O mesmo texto também lembra o preconceito no futebol da Argentina em relação ao Boca Juniors, clube mais popular do país em todos os sentidos (tamanho de torcida e extrato social): os “bosteros” (insulto que os boquenses adotaram como simbolo de identidade) seriam “todos negros, todos putos” que teriam de ser “jogados no Riachuelo” (rio extremamente poluído que passa próximo à Bombonera).

Em “Como o futebol explica o mundo” (2004), de Franklin Foer, achei outro exemplo, vindo da Hungria. Um dos clássicos de maior rivalidade da capital húngara, Budapeste, reune MTK e Ferencváros, fundados ainda no Século XIX e cuja rixa intensificou-se na década de 1920. O motivo? O MTK, cuja sigla significa Magyar Testgyakorlók Köre (Círculo Húngaro de Educação Física), foi fundado por judeus em 1888 e com eles se identifica, enquanto a torcida do Ferencváros era próxima à extrema-direita que muito se fortaleceu após a Primeira Guerra Mundial. No período anterior à guerra os judeus eram dos mais ardosoros defensores do nacionalismo húngaro e em consequência disso eram bem-recebidos na Hungria; a capital Budapeste chegou a reunir uma das maiores concentrações judaicas do mundo naquela época. Após a queda do Império Austro-Húngaro e uma fracassada revolução comunista em 1919, a situação mudou e os judeus passaram a ser os “bodes expiatórios” dos políticos nacionalistas, da mesma forma que em outras partes da Europa. Apesar de terem se passado muitas décadas, o ódio não arrefeceu por completo: nos clássicos, torcedores do Ferencváros costumam ofender aos rivais do MTK com cânticos os mais odiosos possíveis, com menções a Auschwitz e às câmaras de gás nas quais seis milhões de judeus foram assassinados pelo nazismo.

Decime qué se siente

Antes da seleção da Argentina embarcar para a Copa do Mundo no Brasil, os jogadores Lionel Messi, Javier Mascherano e Ezequiel Lavezzi, além do técnico Alejandro Sabella, participaram de um anúncio televisivo das Avós da Praça de Maio, que há 37 anos buscam por filhos de desaparecidos na última ditadura argentina.

A referência de Messi não foi apenas para “arredondar”. Sob sua mais brutal ditadura, que matou e sumiu com cerca de 30 mil pessoas, em 1978 a Argentina sediou a 11ª Copa do Mundo. Em 2014, o Brasil organizou a 20ª Copa. De fato, são dez Mundiais de ausência. Há quase 40 anos as Avós buscam por seus netos, cujas mães deram à luz na prisão e depois foram assassinadas, com as crianças sendo entregues a orfanatos ou a famílias de agentes da repressão (que, não raro, eram os algozes dos pais biológicos dos filhos adotivos).

Quando da gravação do anúncio com os jogadores, as Avós já tinham recuperado a identidade de 113 netos. Pois na terça-feira, 5 de agosto, surgiu o 114º: Ignacio Hurban, um músico que inclusive já tocou em um evento das Avós, sem imaginar que fosse neto justamente da presidente da associação, Estela de Carlotto. Ignacio decidiu fazer o exame de DNA após assistir ao anúncio no qual Messi disse que sua avó o procurava há dez Copas. A mãe de Ignacio, Laura, foi sequestrada e assassinada em 1978, ano da Copa na Argentina; ao filho que esperava, pretendia dar o nome de Guido.

Na coletiva de imprensa das Avós, ao ser questionada sobre o que faria após encontrar o neto que procurava havia 36 anos, Estela de Carlotto disse: “seguirei buscando os mais de 400 que restam”. Depois, os presentes cantaram uma música num ritmo que conhecemos muito bem durante a Copa:

Milico decime qué se siente
Que hayamos encontrado un nieto más
Te juro que aunque pasen los años
Siempre los vamos a buscar
Porque ahora somos más
Las viejas van a brindar
Y los pibes con nosotros van a estar

Uma provocação aos genocidas, mas bem que poderia mexer conosco aqui no Brasil da mesma forma que o “hit” da torcida argentina na Copa mexeu. Afinal, em termos de reparação histórica e políticas de memória, a Argentina nos mete uma goleada muito maior que 7 a 1. Ano passado, andando pelas ruas de Buenos Aires e lendo jornais argentinos, pude ter uma ideia disso.

Uma de várias placas em memória de desaparecidos políticos em torno do mesmo prédio - todos trabalhavam nele.

Uma de várias placas em memória de desaparecidos políticos em torno do mesmo prédio – todos trabalhavam nele.

No jornal Página 12 de 03/06/2013, pequenos anúncios lembravam desaparecimentos que faziam aniversário naquele dia.

No jornal Página 12 de 03/06/2013, pequenos anúncios lembravam desaparecimentos que faziam aniversário naquele dia.

Para além das políticas oficiais de reparação e memória, a Argentina também já produziu belíssimos filmes sobre o período ditatorial e, em especial, acerca da questão dos bebês de identidades roubadas pela ditadura. Um deles é A História Oficial (1985), ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Outro excelente filme sobre o assunto é Cautiva (2004). Até o momento em que foi finalizado, 74 netos tinham sido localizados.

Grenalização e generalização

Um dito popular do futebol gaúcho é “Gre-Nal arruma ou desarruma a casa”. Impressionante como, de fato, ele acaba fazendo sentido, devido ao enorme e desproporcional peso que tem tal partida para os dois principais clubes do Rio Grande do Sul.

Poderia citar como exemplo o Grêmio em 2014: o “divisor de águas” do time na temporada foi o Gre-Nal decisivo do Campeonato Gaúcho, perdido por 4 a 1 porque o Internacional “tirou o pé”, poupando o Tricolor de uma goleada histórica. Antes o Grêmio vinha relativamente bem, com boas atuações na Libertadores; depois, nada mais deu certo e o time foi eliminado nas oitavas-de-final do certame continental. Mas nada demonstra de forma mais clara a exagerada importância dada ao clássico do que o acontecido em 2009: após derrota por 2 a 1 e eliminação no Gauchão daquele ano, a direção gremista demitiu Celso Roth – que pode não ser o técnico dos sonhos de ninguém, mas é preciso ressaltar que o Grêmio não só estava invicto na Libertadores como também fazia a melhor campanha da fase de grupos. Todo um discurso de priorizar a competição continental foi por água abaixo devido a um jogo válido pelo menos importante certame daquele momento, só porque era Gre-Nal. O resto da história, todo gremista lembra: 40 dias de espera por Paulo Autuori e eliminação na semifinal contra o Cruzeiro, primeiro adversário realmente forte enfrentado – não digo que Roth levaria o Grêmio à final, mas ao menos daria mais trabalho ao time mineiro (com uma boa retranca o Tricolor não teria levado 3 a 1 no Mineirão).

Mas, para além do clássico propriamente dito, há a exagerada rivalidade que ultrapassa os limites daquela chamada “sadia” (que foi o motor do crescimento da dupla Gre-Nal, ultrapassando o âmbito regional). Muitas vezes, se dá tamanha importância ao rival que isso acaba por mascarar defeitos ou virtudes. Em 2003, por exemplo, o Grêmio fez um Campeonato Brasileiro horrível e passou um turno inteiro na zona do rebaixamento, enquanto o Internacional chegou a liderar o certame e quase se classificou para a Libertadores pela primeira vez em 11 anos. Só que na última rodada fomos nós gremistas que festejamos e ainda tocamos flauta: o Grêmio escapou da queda enquanto o Inter levou 5 a 0 do São Caetano quando um empate bastava para ir à Libertadores. Aquela rodada tão “anos 90″ me deu a errônea impressão de que 2003 era um “ponto fora da reta”: não percebia que outra linha já estava sendo traçada, como os anos seguintes demonstrariam de maneira tão dolorosa.

Costuma-se dizer que o Rio Grande do Sul é terra de extremos, sem meio-termo. É um fenômeno apelidado de “grenalização”, em óbvia referência à rivalidade que faz parecer que tudo gira em torno de Grêmio e Internacional no tocante ao futebol, como se não houvesse mais nenhum clube no Estado (não por acaso torcidas como a do Brasil de Pelotas costumam levar aos estádios faixas onde se lê “anti-grenal”). Mas o clima de “8 ou 80″ não se resume ao futebol. A política, que já teve guerras civis entre chimangos e maragatos no final do Século XIX e no início do XX, hoje se divide aparentemente entre o PT e o “anti-PT”, sendo que o último nem sempre é o mesmo partido: na maioria das vezes o(a) candidato(a) que encarnava o “anti-petismo” era do PMDB, mas já foi do PSDB (como acontece a nível nacional) e atualmente é do PP (que a nível nacional, ironicamente, apoia o governo do PT). Inúmeras questões no Rio Grande do Sul, para além da disputa partidária, geram debates acirrados entre “dois lados”, como se apenas duas opções fossem possíveis.

Quem dera tal prática ser “privilégio gaúcho”. Mas a grenalização está muito presente no debate de ideias em toda parte. Por exemplo, agora estamos em campanha eleitoral no Brasil, e para muitas pessoas isso se resume a uma insana disputa “entre o bem e o mal”, na qual literalmente “vale tudo”. Por anos os setores mais raivosos da direita apelaram para a baixaria contra os candidatos da esquerda (“Lula bêbado”, “Dilma terrorista” etc.) de modo a pintá-los como “a encarnação do mal”; atualmente é utilizado o “terrorismo econômico” devido à possibilidade de Dilma Rousseff ser reeleita no primeiro turno. Mas agora vemos, infelizmente, parte da esquerda também aderindo a esse modelo de disputa “entre o bem e o mal”: nada mais decepcionante (para dizer o mínimo) do que militantes petistas apelarem para a velha “moral de cuecas” conservadora para atacar Aécio Neves, aplicando exatamente os mesmos métodos tão criticados quando usados pelo “lado de lá”; entre setores da esquerda críticos ao governo Dilma (e razões à esquerda para criticar o governo não faltam) o clima de “Gre-Nal” também é forte, com um impressionante e assustador sectarismo. Sem contar a direita mais delirante, que considera até o PSDB “esquerdista”.

Vamos para a política internacional, e é a mesma coisa. Na questão da Palestina, então, a discussão chega às raias do absurdo. Sou favorável à causa palestina e condeno os ataques israelenses, mas por conta disso os mais cegos defensores de Israel dirão que eu defendo o Hamas e sou “antissemita”, como se criticar o Estado de Israel fosse o mesmo que pregar ódio aos judeus e defender o Hamas (aliás, como se todos os palestinos fossem apoiadores de tal organização). Ao mesmo tempo, em caixas de comentários por aí já vi críticos a Israel emitindo opiniões pavorosas, essas sim pregando ódio aos judeus (com direito a um mentecapto inclusive insinuar que o Holocausto não teria acontecido, o que ofende a inteligência de qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de História); sem contar que inúmeros judeus condenam os ataques contra o povo palestino, e que muitos jovens israelenses se recusam a prestar serviço militar pelo mesmo motivo. Ou seja, uma questão que é muito mais complexa do que parece acaba reduzida a este estúpido “8 ou 80″ – o que, vamos combinar, jamais trará a paz.

O maniqueísmo, a divisão de tudo em “dois lados” (sendo o nosso obviamente correspondente ao “bem”), só serve para perpetuar a ignorância e o ódio. Além de mascarar nossos próprios defeitos – e as virtudes dos outros. A grenalização generaliza, nos leva a esquecer a pluralidade e a acreditar numa falsa dualidade, além de, consequentemente, empobrecer a discussão de ideias. Afinal, é mais fácil acusar o adversário de ser isto, isso e aquilo (afinal, ele é “mau”) do que realmente debater.

2014, ano sem inverno?

Verões e invernos mais frios ou mais quentes que o normal são, ironicamente, normais, visto que um ano nunca é igual ao outro. Por aqui, o último verão teve calor muito acima do normal, e espero nunca mais passar por algo semelhante na minha vida. Em compensação, ano passado o verão foi ameno, apesar do início muito quente (aquela noite de Natal em 2012 foi algo traumatizante pelo calor).

O verão ameno de 2013 não foi sucedido por um inverno ameno, muito antes pelo contrário. Além de duas fortes nevadas nas regiões mais altas (uma em julho e outra em agosto), tivemos vários dias dignos de serem chamados “de inverno”: gélidos, cinzentos e com o vento minuano “uivando”. Ruim para quem detesta frio, ótimo para quem adora (meu caso).

Já em 2014, a impressão que se tem é de que o inverno ainda não deu as caras, quando já estamos às portas de agosto. Até tivemos alguns dias frios, mas nenhum como os do ano passado. Nem falo de nevadas (o que aconteceu em 2013 foi atípico), mas sim daquele “frio de renguear cusco”. E que, segundo a previsão do tempo para os próximos dias, ainda não está por chegar.

O ano de 1816 teve um verão tão frio no Hemisfério Norte que acabou conhecido como “ano sem verão”. Em contrapartida, parece que 2014 se encaminha para ser o nosso “ano sem inverno”. Alguns ipês já estão até florescendo, quando o normal seria que isso ocorresse em setembro para anunciar a primavera.

Sim, tirada hoje, 31 de julho, na Praça Dom Sebastião (ao lado do Colégio Rosário)

Sim, tirada hoje, 31 de julho, na Praça Dom Sebastião (ao lado do Colégio Rosário)

Se você odeia frio e está adorando esse inverno “ausente”, pense: que graça vai ter a primavera se quando ela chegar (23 de setembro) todas as árvores já tiverem florescido?

É só pelos cinco segundos

A Avenida Cristóvão Colombo começa na Rua Dr. Barros Cassal e se estende até a Avenida Plínio Brasil Milano, ultrapassando (e muito) os limites do Bairro Floresta, do qual foi a via mais importante até a inauguração da Avenida Farrapos em 1940. Ainda assim, permanece como uma das principais referências do bairro. Em outubro, é garantido que um domingo terá o trânsito de veículos interrompido em um trecho para a realização do Criança na Avenida (muito me diverti “no meio da rua” durante minha infância); de 1984 a 1995, o trecho defronte à antiga fábrica da Brahma (hoje Shopping Total) foi palco do Festival do Chopp, que acontecia sempre em um sábado de abril e se estendia madrugada de domingo adentro (a festa deixou de ser realizada quando um menino morreu atropelado por um caminhão na montagem da estrutura para a não realizada 13ª edição, em 1996).

Em outros dias, porém, a rotina da Cristóvão Colombo é a mesma de tantas outras ruas e avenidas movimentadas de Porto Alegre. Muitos carros, muitos congestionamentos… E muito estresse, independentemente da situação do trânsito. Como o que presenciei hoje, na confluência da Cristóvão com a Alberto Bins, próximo ao Centro.

Ambas as ruas têm sentido em direção ao Centro naquele ponto, mas devido ao corredor de ônibus no contrafluxo, há a necessidade de um semáforo no local. Veículos que transitam pela Cristóvão e desejam seguir reto até a Barros Cassal precisam parar no sinal vermelho, já para pegar a Alberto Bins não há necessidade de parar.

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Vista do local referido (reprodução Google Street View)

Pois bem: quando passei a pé pelo local, algumas horas atrás, dois carros aguardavam que o sinal abrisse. Porém, o motorista de trás estava impaciente e começou a buzinar, em consequência o da frente tirou o braço para fora do carro e apontou para o semáforo com a luz vermelha acesa (no momento nenhum ônibus transitava pelo corredor, mas isso não faz o sinal vermelho perder seu significado de “parada obrigatória”).

O “estressadinho” de trás decidiu passar de qualquer jeito. Manobrou o carro para a pista à direita, diminuiu a velocidade para falar um impropério ao motorista da frente (não consegui entender o que foi dito), e seguiu reto, sem ligar para o semáforo.

Menos de cinco segundos depois, o sinal abriu.

Uma receita de Camarões: Zom

zom

Camarões disputou sua primeira Copa do Mundo em 1982, na Espanha. A campanha não foi brilhante (eliminação na primeira fase), mas ao mesmo tempo foi histórica: os camaroneses voltaram para casa invictos (feito inédito e jamais repetido por nenhuma seleção africana), após empatarem as três partidas disputadas – uma delas foi contra a Itália, que acabaria campeã (e o empate em 1 a 1 que levou a Azzurra adiante só aconteceu devido a uma falha do bom goleiro Thomas N’Kono).

Alem de N’Kono, outro destaque daquele time de 1982 era Roger Milla. Oito anos depois, o já veterano atacante (38 anos de idade em 1990) foi fundamental na Copa do Mundo da Itália: Camarões chegou às quartas-de-final (feito até então inédito para uma seleção africana) e só perdeu para a Inglaterra na prorrogação. Mas engana-se que a história de Roger Milla em Mundiais acabou ali: já quarentão, o atacante ainda foi aos Estados Unidos em 1994.

Na última rodada da primeira fase, Rússia e Camarões enfrentaram-se pelo grupo B sonhando com uma improvável classificação às oitavas-de-final entre os melhores terceiros colocados (ambos os times acabaram eliminados). Os russos venceram por 6 a 1, na maior goleada daquela Copa; e o atacante Oleg Salenko estabeleceu o recorde ainda não superado de cinco gols em um só jogo (Salenko também foi artilheiro do Mundial, junto com o búlgaro Hristo Stoichkov). Mas aquele jogo disputado em 28 de junho de 1994 ainda teve mais dois recordes, ambos de Roger Milla, com 42 anos e 39 dias de idade: jogador mais velho a atuar em uma Copa (marca superada em 25 de junho de 2014 pelo goleiro colombiano Faryd Mondragon, 43 anos e 3 dias de idade ao entrar em campo nos minutos finais da partida contra o Japão) e a marcar gol em um Mundial (essa escrita continua intacta).

A campanha ruim de 1994 não foi exceção. Desde então, Camarões não mais superou a primeira fase da Copa do Mundo – e, em 2006, sequer foi à Alemanha. Em 2014, os Leões Indomáveis (apelido da seleção) foram facilmente “domados”: três jogos e três derrotas (duas delas de goleada, 4 a 0 da Croácia e 4 a 1 do Brasil). Assim como “uma andorinha só não faz verão”, apenas um craque (Samuel Eto’o) não faz timaço.

Porém, se Camarões não tem feito bonito no futebol, na cozinha os camaroneses vão muito bem, obrigado. No último final de semana, foi a minha vez de fazer o tradicional almoço de sábado (que mais uma vez foi adiado para o domingo) na casa da minha avó, e a tabela me designava um prato de Camarões. Ao contrário das ocasiões anteriores, não foi preciso fazer pesquisas no Google: meu amigo Hélio Paz (que escreveu o texto lá do primeiro link) é fã dos Leões Indomáveis desde a Copa de 1982, e me passou várias receitas quando comentei que faria comida camaronesa. Escolhi o Zom, receita que acabei não seguindo à risca, mas que ficou muito boa.

Ingredientes:

  • 900g de agulha cortada em cubos
  • 4 colheres de sopa de óleo vegetal
  • 1 cebola grande picada
  • 900g de espinafre lavado e picado (ou outra verdura qualquer)
  • 2 tomates bem picados
  • 2 colheres de sopa de purê de tomate
  • 2 colheres de sopa de manteiga de amendoim
  • Sal a gosto
  • Pimenta preta a gosto

Modo de preparo:

  1. Ferva a carne na panela com um pouco de sal e água suficiente para cobri-la. Tampe a panela e deixe por 100 minutos ou até a carne ficar macia;
  2. Retire a carne mas mantenha o caldo na panela;
  3. Em outra panela, aqueça o óleo. Use-o para fritar a cebola até ficar macia. Adicione a carne e cozinhe por 2 minutos;
  4. Ponha de volta a carne junto com a cebola na panela com o caldo de carne;
  5. Misture o espinafre, o tomate, o purê de tomate e a manteiga de amendoim e ponha para ferver. Abaixe o fogo e mantenha por 30 min. na panela fechada.
  6. Sirva a carne com o molho e a cebola sobre uma travessa de arroz e cubra a carne com a mistura de verduras e legumes.

Não segui a receita com rigor devido a uma troca intencional, à falta de um ingrediente e a um engano.

A troca intencional foi da carne. Ao invés de agulha, usei cordão do filé mignon, mais macio, para que a comida demorasse menos tempo a ficar pronta.

O que faltou foi a manteiga de amendoim. Fui ao supermercado e não encontrei. Assim, o prato ficou “incompleto”.

Anotei a receita no celular e acabei memorizando. Porém, muitas vezes não “decoramos” corretamente, e assim me confundi com o final: a mistura de tomate, massa de tomate e espinafre deveria ser cozida separadamente e adicionada ao final como uma “cobertura” para a carne, mas acabei misturando tudo ainda na panela. A carne foi servida com arroz, mas em panelas separadas e não na mesma travessa.

Ainda assim, o resultado foi ótimo. E considerando que a motivação disso tudo é a Copa do Mundo (que acabou só no campo, na cozinha ela vai até outubro), podemos dizer que foi uma vitória da culinária-arte: o improviso (mesmo que involuntário) superou a burocracia (seguir à risca o que está escrito). O que não quer dizer que não pretenda fazer novamente o Zom, sendo mais fiel à receita.

Panfleto da juventude

Caminhando pela rua, uma moça me chamou, e pediu licença para me entregar um panfleto. Como de costume, aceitei: o pessoal que distribui panfletos de propaganda nas ruas é pago para isso, então nada mais justo do que dar uma força para que terminem o serviço o mais rápido possível.

Só depois é que decidi ver o que dizia o papel: “vestibular, inscrições até dia 25, prova dia 27″.

Me senti como se estivesse de volta aos 17 anos de idade. Embora com muito menos cabelo e já com alguns fios de barba brancos. (Sem contar que fazer vestibular não é “privilégio” adolescente.)

Aliás, como seria bom ter 17 anos com a mesma experiência dos 32…