Julho amaldiçoado

Acabo de saber que um avião da Air Algérie que se dirigia de Burkina Faso para a Argélia caiu, com 116 pessoas a bordo. Mais um…

Neste julho de 2014 já tivemos outros dois aviões no chão. Além daquele da Malaysia Airlines lá na Ucrânia (e que ainda não se sabe quem o derrubou), ontem uma outra aeronave caiu em Taiwan após tentativa de pouso em meio a um tufão que atingia a região.

Este mês também é péssimo para a literatura brasileira. Três escritores se foram: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna.

No futebol, mais perdas. A Copa do Mundo teve sua organização elogiada, mas a Seleção Brasileira levou 7 a 1 da Alemanha (que ainda ganhou o título, quebrando a escrita de nunca uma seleção europeia ter sido campeã na América). No tocante à crônica esportiva, tivemos a triste notícia de que o Impedimento (melhor página de futebol do país) deixará de ser atualizado após a Libertadores.

Relacionada à Copa, a questão dos ativistas presos e processados, acusados por violência em protestos antes mesmo deles acontecerem (não me parece coincidência as prisões terem se dado na véspera da final da Copa, e as razões para elas seguem nebulosas). A “Sininho” não é a “Che Guevara” que os esquerdistas mais cegos dizem que é, mas também não é uma “Bin Laden” como a velha imprensa procura pintar – discurso repetido, tristemente, por alguns petistas tão cegos quanto os ultraesquerdistas, não percebendo que quem sai mais prejudicado com a polêmica é justamente o governo Dilma, dado que muitas pessoas não sabem distinguir as diversas esferas governamentais (federal, estadual e municipal) e também esquecem que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são independentes uns dos outros.

Tudo isso num só mês, e que ainda tem uma semana pela frente… Será que não dá para “pular” estes sete dias e começar agosto amanhã?

Henry, o salvador do mundo

Mês passado, postei aqui sobre como os números poderiam levar a um novo “Maracanazo” na Copa do Mundo de 2014. Não refarei toda a conta, o link anterior explica como funciona. Só digo que segundo a fórmula original (e também com as que inventei na hora) o campeão mundial de 2014 seria o mesmo de 1950, ou seja, o Uruguai. O que bem sabemos, não aconteceu, visto que a Celeste foi embora nas oitavas-de-final.

Para a fórmula continuar válida, também seria necessário que o Brasil tivesse sido campeão em 2006 e a Alemanha em 2010; mas como bem lembramos, deu respectivamente Itália e Espanha nessas duas Copas. Porém, vamos supor que tivesse saído tudo conforme os números previam, e tivesse dado Brasil em 2006, Alemanha em 2010 e Uruguai em 2014.

Na próxima Copa, para sabermos o campeão teríamos de subtrair 2018 de 3964, e o resultado seria 1946. Porém, ao olharmos a tabela com os resultados de todos os Mundiais, não encontramos campeão em 1946. E o mesmo acontece com 1942, que indicaria o vencedor de 2022.

A Copa do Mundo de 1942 não aconteceu devido à Segunda Guerra Mundial, que tornava impossível a realização de qualquer torneio internacional de futebol a nível mundial. O conflito só acabou em 1945, o que também inviabilizou a disputa do Mundial no ano seguinte: a Copa só retornaria em 1950, no Brasil, que era um dos candidatos a sede para 1942 (o outro era a Alemanha, que foi proibida de participar em 1950).

Percebam, assim, a importância que teve aquele gol de Thierry Henry marcado contra o Brasil nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006: foi o que enterrou definitivamente aquela “fórmula”. Caso ela continuasse válida, seria um sinal indiscutível da aproximação da Terceira Guerra Mundial. Ainda mais no atual contexto internacional: a região oriental da Ucrânia vive uma guerra civil, com rebeldes lutando pela anexação das províncias do leste à Rússia.

Com a queda de um avião da Malaysia Airlines justamente na área conflagrada, com suspeitas de que teria sido abatido por um míssil terra-ar, há acusações de lado a lado: o Ocidente acusa os separatistas de terem lançado o míssil que derrubou a aeronave e, de quebra, a Rússia por ter fornecido-lhes armas; já uma fonte do Kremlin diz que o ataque teria sido ordenado pelo governo ucraniano e que o verdadeiro alvo seria o avião presidencial russo (semelhante à aeronave derrubada), ou seja, que o objetivo seria matar Vladimir Putin, que retornava da reunião de cúpula do BRICS acontecida no Brasil (as rotas dos dois aviões eram coincidentes no leste da Europa). Claro que em ambas as versões há coisas estranhas: na primeira, é preciso entender o que levaria os rebeldes a abaterem uma aeronave que não é de uso militar; já na segunda, é de se questionar por que a Ucrânia teria optado por uma maneira tão pouco discreta para tentar assassinar Putin, ainda mais sabendo que um atentado desse nível pode ter consequências seríssimas - há 100 anos, a “faísca inicial” da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato do herdeiro do trono da Áustria-Hungria, que nem era a principal potência europeia em 1914 (enquanto a Rússia atual é uma superpotência dotada de milhares de ogivas nucleares). Mas, ainda assim, trata-se de um acontecimento que ainda terá muitos desdobraentos.

Tivesse dado Brasil, Alemanha e Uruguai nas últimas três Copas, a essa altura eu já estaria pensando seriamente em construir um abrigo subterrâneo para me proteger de possíveis ataques nucleares que viriam na iminente Terceira Guerra Mundial. Mas, graças àquele gol que eliminou o Brasil em 2006 e enterrou a “fórmula mágica”, confio em uma solução diplomática que impeça o fim do mundo.

Obrigado, Henry.

De volta à realidade

Acabou a Copa do Mundo do Brasil, com resultado mais do que justo. A Alemanha, primeira seleção europeia a ser campeã na América, mereceu pelo que fez não só no Mundial (onde somou ao belo futebol uma simpatia incomparável que, seja ou não jogada de marketing, conquistou a torcida brasileira de maneira que nem aqueles 7 a 1 reverteram), como também nos últimos anos.

Torci pela Argentina (por ser sul-americana), que com a derrota segue em seu jejum de títulos: o último foi a Copa América de 1993. Já os alemães voltaram a ganhar uma taça depois de 18 anos (a última fora a Eurocopa de 1996), graças à total reformulação iniciada após o fiasco na Euro 2000 – um modelo que, se não é para ser seguido à risca pelo Brasil (afinal, somos diferentes da Alemanha), ao menos deveria servir de inspiração para a reconstrução do futebol brasileiro.

Agora, é voltar à realidade:

  • Depois da Copa do Mundo com segunda melhor média de público de todos os tempos, marcada por grandes jogos, é hora de voltar a assistir partidas de baixo nível técnico em estádios que muito raramente lotam. Algo do tipo Coritiba x Figueirense, que jogam quarta-feira às 19h30min pelo Campeonato Brasileiro;
  • Na Argentina, o segundo semestre de 2014 terá o Torneo Transición, e em 2015 o Campeonato Argentino abandonará o calendário europeu. Mas, passará a ser disputado por 30 clubes numa fórmula que não entendi, mostrando que o futebol no país vizinho (sob o comando de Julio Grondona desde 1979) também precisa de uma “arejada”;
  • Semana que vem, recomeça a Libertadores em sua fase semifinal. Sem nenhum clube brasileiro: é verdade que a maioria dos convocados para a Seleção Brasileira hoje em dia jogam na Europa, mas não ter nenhum representante do Brasil nas semifinais da principal competição de clubes da América do Sul poderia ter servido de alerta para o que nos aguardava na Copa, né? E reparemos que a Seleção passou por Chile e Colômbia “com as calças na mão” como diz o ditado – para depois ser humilhada diante da Alemanha;
  • Os protestos contra a Copa não chegaram nem perto de igualar as grandes multidões que foram às ruas em 2013, é verdade. O que cresceu foi a repressão, e nada faz crer que ela diminuirá porque o Mundial já é passado;
  • Enquanto acompanhávamos as partidas decisivas da Copa do Mundo, Israel atacava novamente a Faixa de Gaza, matando mais de 100 palestinos com a desculpa de reagir a foguetes lançados pelo Hamas contra território israelense. Uma reação, para variar, desproporcional de um país dono de um dos exércitos mais bem preparados do mundo contra um povo oprimido há décadas;
  • E a campanha eleitoral já começou, com direito a desmiolados querendo culpar Dilma pela derrota da Seleção. Isso é só o começo do que veremos até outubro…

Sobre os “bodes expiatórios” do Brasil no momento

Fazer análise histórica “no calor do momento” é algo por demais difícil. Pois lidamos com fatos dos quais ainda não sabemos o real significado, sendo necessário um certo tempo para que se tenha um melhor entendimento. Portanto, da mesma forma que nenhum jornal do dia 15 de julho de 1789 anunciava o acontecimento do dia anterior (Tomada da Bastilha) como marco inícial da Idade Contemporânea, ainda não podemos dizer com exatidão o que significou o Brasil levar 7 a 1 numa semifinal de Copa do Mundo em casa, para além do óbvio: foi uma humilhação. Pouco importa o adversário: uma derrota dessas é humilhante porque é 7 a 1 e “ao natural”, mesmo que contra a poderosíssima Alemanha.

Logo, mesmo que eu não seja exatamente um apaixonado pela Seleção (muitas vezes fui indiferente e nesta Copa torci, mas não com a mesma intensidade que pelo Grêmio), o que escrevo abaixo carece do necessário distanciamento histórico. Por isso prefiro me concentrar em alguns personagens que estão sendo transformados em “bodes expiatórios” por essa derrota: nenhum deles pode carregar a culpa sozinho, e há quem nada tenha a ver com o que aconteceu.

1. Fred. Não jogou absolutamente nada nessa Copa, é verdade. Mas, se pensarmos apenas no vexame de ontem, precisamos lembrar que centroavante tem de marcar gols, e não impedir que os adversários cheguem a ele. Verdade que Fred também foi inoperante em sua função, mas não podemos esquecer que nenhum jogador escala a si mesmo.

2. Luiz Felipe Scolari. Ele convocou e manteve Fred como titular incontestável, escalou (muito) mal o time contra a Alemanha, e na entrevista coletiva de ontem demonstrou que simplesmente não entendeu o que se passou no Mineirão (da mesma forma que Carlos Alberto Parreira). E o que aconteceu em 2012, no Palmeiras, ajuda a demonstrar que Felipão já não era mais o mesmo de antes: em junho ganhou a Copa do Brasil (quebrando escrita alviverde de títulos relevantes, o último fora a Libertadores de 1999), mas em setembro o treinador deixou o clube na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro (de onde o Palmeiras não mais sairia naquele ano); dois meses após a demissão, tornou-se técnico da Seleção em virtude da vitoriosa campanha de 2002, não de seus resultados em 2012. Felipão teria sido rebaixado caso não deixasse o Palmeiras, visto que não conseguia fazer o time reagir: definitivamente, isso não era um bom presságio. Mas, assim como Fred não escalou a si mesmo, Luiz Felipe não foi contratado por si mesmo.

3. José Maria Marin. Sim, transformar o detestado presidente da Confederação Brasileira de Futebol em “bode expiatório” (afinal, foi ele que contratou a atual comissão técnica e, sobretudo, é o mandatário-mor do futebol nacional) também é um erro. Marin não deveria de forma alguma ser presidente da CBF, mas é uma ilusão achar que basta ele sair para as coisas tomarem jeito. Toda a estrutura do futebol brasileiro é arcaica, amadora: “de cima a baixo”, da CBF aos clubes. Verdade que maus dirigentes não são “privilégio” brasileiro: uma possível vitória da Argentina nesta Copa não pode apagar o fato de que desde 1979 o futebol argentino tem como mandatário Julio Grondona, indicado por Carlos Alberto Lacoste (militar diretamente envolvido com a brutal ditadura que assolou nossos vizinhos). Mas não pode servir de justificativa para que as coisas continuem do mesmo jeito.

4. Torcida. Uma das queixas mais corretas, embora não completamente. Não sou fã do termo “coxinha” (muitas vezes ele é usado em um debate para “desqualificar” o oponente, o que demonstra falta de argumentos para continuar a troca de ideias: “não discuto mais pois você é um ‘coxinha’”, e saio achando que “ganhei” a discussão), mas ele é perfeito para descrever boa parte dos que foram aos jogos da Copa do Mundo: um bando de “coxinhas” cuja maior preocupação não era torcer, e sim tirar “selfies” para alimentar o ego nas redes sociais. Enquanto alguns torcedores de verdade se desesperavam no Mineirão por conta do vexame (caso de meu amigo Leonardo Sato, um dos maiores apaixonados por futebol que conheço), no mesmo estádio os “patriotas de ocasião” estavam felizes porque suas “selfies” ganhavam muitas “curtidas” no Facebook e no Instagram. É no que dá ter ingressos tão caros (e nem me refiro só à Copa do Mundo, que ofereceu certa quantidade de ingressos a R$ 60, o que pode ser considerado barato para um torneio desta magnitude): com isso, os estádios têm cada vez menos torcedores e mais “exibicionistas”.

5. Dilma Rousseff. Sim, acreditem: já tem gente passando atestado de burrice ao associar a derrota brasileira na Copa ao governo Dilma. O pessoal “esquece” (no fundo, sabem que são oportunistas de quinta categoria) que a Seleção é controlada pela CBF (uma entidade privada) e que em caso de intromissão governamental ela pode ser suspensa ou mesmo desfiliada pela FIFA (outra entidade privada). Culpar qualquer governante por uma derrota no futebol é tão estúpido quanto cobrar o técnico de qualquer time por problemas sem relação com o esporte (aliás, o que mais vejo são pessoas culpando Dilma por coisas que nada têm a ver com o governo federal, e inclusive que sequer aconteceram no Brasil, numa mostra de que não há limites para a estupidez). Aliás, também é burrice tentar associar o fracasso futebolístico ao governo acreditando em dividendos eleitorais pois, desde que se tornou “regra” as eleições presidenciais acontecerem meses após a Copa do Mundo, só em 1994 houve coincidência entre vitória da Seleção e do candidato do governo (Fernando Henrique Cardoso, que ganhou a eleição devido ao Plano Real e não por conta dos gols de Romário). Depois sempre “deu o contrário”, com a situação vencendo em anos de derrota brasileira (1998, 2006 e 2010) e com o oposicionista Lula sendo eleito poucos meses após a vitória da Seleção na Copa de 2002. O que obviamente não quer dizer que Dilma já esteja reeleita, mas sim que o povo sabe separar as coisas, ao contrário do que alguns “ilustrados” pensam.


Por fim, resta agora torcer pela Argentina. Apesar dos dirigentes (e me pergunto se alguém torceu contra seu clube alguma vez por não gostar do presidente) e do futebol apresentado (a Alemanha jogou muito mais durante a Copa, e é favorita na final), fico com minha identidade latino-americana. Ultimamente os europeus têm levado nossos jogadores embora cada vez mais jovens (muito por incompetência dos clubes em segurá-los por mais tempo) e os confrontos interclubes entre América do Sul e Europa estão a cada ano mais desiguais, então que ganhemos deles pelo menos nas disputas entre seleções.

Mas reconheço que vai ser bem difícil…

Cão Uivador descobre segredo da ótima geração belga

A Bélgica chegou à Copa do Mundo bem cotada, credenciada por uma ótima campanha nas eliminatórias. Os belgas terminaram a fase de classificação invictos e vários comentaristas diziam que os “Diabos Vermelhos” poderiam ir longe no Brasil, talvez repetindo a campanha de 1986, quando alcançaram as semifinais.

Há 28 anos a campanha belga terminou contra a Argentina, fato repetido em 2014, só faltou ser na mesma fase – desta vez foi nas quartas-de-final. Não apresentou um futebol de encher os olhos: a única partida realmente boa foi contra os Estados Unidos (oitavas-de-final), de resto a Bélgica foi apenas eficiente (exceto contra a Argentina, claro). Mas trata-se realmente de uma ótima geração, a melhor dos últimos anos (a última Copa disputada pelos “Diabos Vermelhos” fora a de 2002, para se ter uma ideia), e que por ser ainda jovem poderá render mais bons resultados nos próximos anos. E, só para variar, conta com um ótimo goleiro: Thibaut Courtois ocupa o posto que na Copa de 1994 pertenceu a Michel Preud’homme, a quem eu gostava de me comparar sempre que defendia um chute (mesmo que deixando passar outros mil).

Mas, se a Bélgica já foi embora da Copa dando a sensação de que rendeu menos do que o esperado, o mesmo não se pode dizer de sua comida: essa não decepcionou. No outro final de semana, foi minha vez de cozinhar o tradicional almoço de sábado (que excepcionalmente aconteceu no domingo) na casa da minha avó, e o prato da vez era belga. Pesquisei e dentre as opções achei uma receita chamada Carne Belga – que é uma espécie de carne de panela, simples de preparar, mas diferente das que costumamos comer por aqui. O segredo é um ingrediente comum a várias receitas belgas que encontrei: cerveja. Fiz o prato duas vezes: a primeira no outro final de semana, a segunda ontem – e por conta disso, após passar a receita e o modo de preparo falarei de algumas adaptações que tomei a liberdade de fazer, em especial na segunda vez.

A receita original é a seguinte:

  • Duas colheres de sopa de farinha de trigo;
  • Três colheres de sopa de banha;
  • Duas xícaras de chá de cerveja;
  • 200 gramas de cebolas cortadas;
  • Tempero a gosto;
  • Um quilo de lagarto (tatu).

Modo de preparo:

  • Fritar a cebola até dourar;
  • Fritar a carne (cortada em fatias) até dourar bem dos dois lados;
  • Juntar a farinha de trigo e misturar a cerveja aos poucos, para não engrossar;
  • Cozinhar em panela tampada por pelo menos duas horas.

Como já tinha falado mais acima, fiz algumas adaptações na receita. A primeira disse respeito à banha: decidi usar óleo normal.

Quanto aos temperos, como a própria receita dizia, era “a gosto”. Assim, antes de fritar temperei a carne com aceto balsâmico e cerveja (depois de fritar juntei a farinha com mais cerveja), misturando também um pouco de pimenta – mas só um pouco, para não repetir o “calorão” que passaram todos (inclusive eu, claro) que comeram o prato chileno que cozinhei no início de junho.

A maior adaptação foi quanto à carne utilizada. Na primeira vez, se deu apenas na quantidade: achei que um quilo era demais, então comprei algo em torno de 500 gramas. Usei a mesma quantidade na segunda vez, mas de outro tipo de carne: ao invés de lagarto, optei por entrecot, mais macio – e que, assim, não precisa cozinhar tanto tempo (a receita original fala em duas horas).

Quanto ao tempo, é um problema ter de cozinhar a carne por duas horas – ainda mais que a cerveja dá ao molho um cheiro irresistível. Por isso, vale mais a pena optar por cortes mais macios. Ainda mais que justamente no dia em que preparei a receita com lagarto o gás acabou quando eu mal começara a fritar as cebolas: o que já seria demorado tornou-se ainda mais demorado, e dada a fome de todos, a carne não cozinhou o tempo necessário, ficando um pouco “dura”.


Para beber, a sugestão é óbvia, né? Mesmo que inverno combine com vinho, essa receita “pede” para ser acompanhada por uma boa cerveja – de preferência a deliciosa Stella Artois, uma das mais famosas da Bélgica.

O prato principal do almoço de domingo. Pena que não deu para anexar o cheiro junto...

Pena que não deu para anexar o cheiro junto…

A “hospitalidade” brasileira

A Copa do Mundo no Brasil se aproxima do final, e os estrangeiros elogiam muito a “hospitalidade” do povo brasileiro. O que não é novidade: nosso país sempre teve fama de ser “hospitaleiro”, de receber bem os visitantes.

Porém, a própria Copa mostra que não é bem assim. Basta ver o que se sucedeu ao jogo Brasil x Colômbia, no qual a Seleção garantiu presença na semifinal ao vencer por 2 a 1, mas também marcado pela lesão que tirou Neymar do Mundial.

O lateral Juán Camilo Zúñiga, autor da joelhada nas costas de Neymar que fraturou uma vértebra do jogador, já disse que o lance não foi intencional. E a meu ver, realmente não foi: houve, sim, muita imprudência por parte do colombiano. Já que a FIFA suspendeu o atacante uruguaio Luis Suárez por nove jogos internacionais e inclusive o proibiu de treinar por quatro meses devido à mordida no zagueiro italiano Giorgio Chiellini durante a partida entre Uruguai e Itália (pena considerada excessiva até mesmo pelo “mordido”), espero que Zúñiga sofra uma punição mais severa, para que não se fique com a impressão de que morder uma adversário é pior do que acertá-lo com uma joelhada que pode ter consequências graves.

Instantes depois do apito final, o zagueiro brasileiro David Luiz teve uma bela atitude: consolou o meia James Rodriguez, destaque da Colômbia, e pediu ao público que aplaudisse o jogador adversário. Um exemplo que infelizmente a maioria das pessoas não segue.

Após a partida os jogadores colombianos decidiram ir a um restaurante. Reconhecidos, foram hostilizados por torcedores brasileiros, com o ônibus que transportava os atletas da Colômbia sendo alvo de latas.

Nas redes sociais, Zúñiga sofre um verdadeiro linchamento virtual (o que, vamos combinar, não é muito surpreendente, dado o apoio de tantos brasileiros à “justiça com as próprias mãos”). No Instagram, o perfil do jogador foi “invadido” por brasileiros, que lhe dirigiram todo o tipo de impropérios. No Twitter, o lateral foi alvo de insultos racistas.

Enfim: é esta a “hospitalidade” que temos a oferecer?

A outra Copa

Porto Alegre despediu-se hoje da Copa do Mundo com uma emocionante partida, como tem sido regra neste Mundial. O favoritismo da Alemanha foi posto à prova pela brava Argélia, que merece todos os aplausos de quem gosta de futebol e, em especial, do povo argelino, que pela primeira vez comemorou a classificação de sua seleção às oitavas-de-final e viu o time fazer frente a uma das favoritas ao título.

Durante o período de 15 a 30 de junho a cidade viveu alguns momentos memoráveis, como a “Orange Square” e a “invasão hermana”, devido aos jogos de Holanda e Argentina em Porto Alegre. Foi bacana a vinda de tantas pessoas de outros países, algo que deixa saudades em muitos de nós.

Porém, nem tudo foram flores em Porto Alegre e nas outras cidades-sede (seis das quais ainda receberão jogos, visto que o Mundial termina apenas em 13 de julho). Quem saiu às ruas para protestar, por exemplo, foi violentamente reprimido: em nome de garantir o direito das pessoas curtirem a Copa, foi cerceado o direito à manifestação de outras pessoas (algo já dito e que é importante repetir: concorde-se ou não com os protestos, não se pode proibi-los em um dito país democrático). E os problemas não se restringiram a isso.

Inúmeras famílias foram obrigadas a abandonar suas casas por conta de obras que, diziam, eram de “fundamental importância” para a realização do Mundial. E o pior de tudo, com a prefeitura descumprindo a promessa de que haveria a troca de “chave por chave” – ou seja, de que as famílias removidas dos lugares onde moravam há décadas receberiam novas casas. O que realmente aconteceu é que os removidos por conta das “obras da Copa” tiveram de se abrigar em casas de parentes, pensões, albergues etc. Tudo em nome do “progresso” que seria o maior “legado da Copa”.

As obras “fundamentais para a Copa” mostraram que não o eram. A duplicação da Avenida Tronco, que serviria para “desafogar” a região do Beira-Rio, simplesmente parou e não tem data para ser concluída. A ampliação da pista do Aeroporto Salgado Filho não aconteceu. A Copa do Mundo chegou, já foi embora, e ficou provado que não havia a necessidade de tais obras para a realização do evento. O verdadeiro propósito delas era outro: remover as famílias pobres que mais cedo ou mais tarde seriam o maior entrave aos interesses do poder econômico, aproveitando a oportunidade para “escondê-las”, mandando-as para bem longe da região central. Como em “circunstâncias normais” elas teriam maior possibilidade de chamar a atenção para a injustiça de que foram vítimas, nada melhor do que “passar por cima” com a desculpa do Mundial: em caso de reclamações, era só acusá-las de “serem contra o progresso” e de “quererem mandar a Copa embora”.

É disso que trata o excelente documentário “A Copa que o mundo perdeu em Porto Alegre”, produzido em parceria entre o Comitê Popular da Copa de Porto Alegre, a ONG Amigos da Terra e o Coletivo Catarse. Assista:

Guerra Fria em campo

Neste domingo, completaram-se 40 anos de uma partida histórica. Em Hamburgo, duas seleções alemãs entraram em campo na noite de 22 de junho de 1974 para um jogo de Copa do Mundo. Os únicos “estrangeiros” dentro de campo eram os integrantes do trio de arbitragem: a partida foi apitada pelo uruguaio Ramon Barreto Ruiz, com o brasileiro Armando Marques e o argentino Luis Pestarino como auxiliares.

O jogo reunia as seleções das Alemanhas Ocidental e Oriental, que jamais tinham se enfrentado até então. E tal confronto aconteceu pela primeira (e única) vez justamente em uma Copa do Mundo. Mas todos os 22 jogadores que iniciaram a partida serem alemães não queria dizer que era um confronto “entre iguais”, e isso não tem a ver com o fato de serem dois países rivais por motivos ideológicos. Enquanto a anfitriã capitalista Alemanha Ocidental já tinha uma seleção respeitadíssima (ganhara a Copa de 1954 batendo a fantástica Hungria de Puskas, e dificilmente não ficava entre as semifinalistas dos Mundiais que disputava), a socialista Alemanha Oriental disputava apenas a sua primeira Copa (e que acabaria sendo a única). A lógica, portanto, pesava a favor do oeste.

As duas seleções já estavam classificadas, e o que restava em disputa era a liderança do grupo 1 da primeira fase – que ficaria com os ocidentais caso o jogo acabasse empatado. E assim parecia que ia acontecer: mais da metade do segundo tempo já tinha se passado e o placar permanecia fechado. Mas aos 32 minutos, o meio-campista Jürgen Sparwasser tratou de abri-lo, fazendo 1 a 0 para a Alemanha… Oriental.

E assim acabou o jogo: com uma inesperada vitória do leste sobre o oeste. Após o apito final não houve a tradicional troca de camisetas entre os jogadores, tamanha era a tensão (obviamente por motivos políticos) em torno da partida.

Reza a lenda que a Alemanha Ocidental teria facilitado as coisas para a Oriental (fato nunca comprovado e altamente improvável, visto que até os 32 do segundo tempo o placar permanecia em 0 a 0). Mas não pelos jogadores ocidentais simpatizarem com o comunismo, e sim para terem um caminho mais fácil na segunda fase - que naquela Copa era disputada em grupos, não em confrontos eliminatórios - e, em especial, para escaparem do Brasil - mesmo que a Seleção não estivesse jogando grande coisa.

Com o primeiro lugar no grupo 1, coube à Alemanha Oriental enfrentar não só os brasileiros, como também a Holanda (sensação da Copa) e a Argentina no grupo A da segunda fase; enquanto a Ocidental ficou no grupo B com Iugoslávia, Suécia e Polônia. Os orientais foram eliminados (mas acabaram à frente da Argentina), já os ocidentais ficaram em primeiro lugar no grupo, foram à final contra a Holanda e acabaram campeões com uma vitória por 2 a 1, de virada.

Antes de compartilhar, cheque a informação

No momento, a maioria das pessoas está dando bastante atenção à Copa do Mundo, o que é absolutamente normal. É assim em todas as Copas e nesta não se poderia esperar algo diferente, já que é no Brasil.

Porém, dentro de algumas semanas terá início algo que sempre se segue às Copas do Mundo: campanha eleitoral. E não é qualquer uma: em 5 de outubro votaremos para deputados estaduais e federais, senadores, governadores de Estado e presidente da República. E, em especial, é a disputa pela presidência que mais mobilizará os brasileiros: afinal, é o cargo máximo da política nacional.

Na eleição de 2010 (e na de 2006 também), a rede social mais usada pelos brasileiros era o Orkut, mas lá não havia a opção “compartilhar”. Assim, boa parte das informações (e também dos boatos) era passada e repassada via e-mail, e na “caça ao voto” o Twitter teve um papel muito mais relevante que o Orkut. Perdi as contas de quantas “correntes” recebi na minha caixa de e-mail…

Em 2014 temos uma situação diferente. Não apenas porque agora a rede social mais usada é o Facebook, mas principalmente por conta de suas particularidades: o botão “compartilhar” (que facilita muito o repasse de informação: ao invés de clicar em “encaminhar”, selecionar os contatos e depois clicar em “enviar”, o compartilhamento do Facebook atinge, com menos cliques, mais pessoas – eu, pelo menos, tenho muito mais contatos no FB do que na minha lista do e-mail) e a “economia” de palavras, como provam inúmeras imagens com textos curtos – afinal, se diz que as pessoas têm “preguiça” de ler na internet. Sem contar que muitos não clicam em links que levem para fora do Facebook (o que é um problema, pois isso tira tráfego de muitos sites e pode acabar por inviabilizá-los), e assim compartilhar “memes” é muito mais eficaz do que repassar um e-mail apenas com texto.

O Facebook é, portanto, um facilitador na tarefa de desmentir inverdades divulgadas pela mídia conservadora (imaginem se ele existisse na campanha eleitoral de 1989, por exemplo). Porém, as mesmas características que favorecem o desmentido também contribuem para que sejam divulgados ainda mais boatos, mais mentiras. Ainda mais com tantos “memes” que em poucas palavras “explicam” tudo. Pois como já disse, muitas pessoas perderam o hábito de acessar outras páginas que não o FB.

Porém, está chegando a hora em que não limitar sua navegação na internet ao Facebook será extremamente necessário. Pois a campanha eleitoral de 2014 tem tudo para ser a mais suja que o Brasil já viu, tornando 2010 “brincadeira de criança” (e olhem que já foi feia a coisa quatro anos atrás). Mais do que nunca, será preciso checar a informação recebida antes de clicar em “compartilhar”. E não é no FB que se faz isso – ele deve ser usado sim para espalhar os desmentidos a muitos boatos que serão difundidos.

Já detonei diversos boatos por aqui, tantos que nem recordo de todos. Mas certamente voltarei a fazê-lo durante a campanha eleitoral, e pretendo também buscar postagens antigas em que desmenti inverdades para organizá-las em uma lista, para facilitar o combate à desinformação nos próximos meses.

E também vale sempre uma visita ao E-farsas, que há anos desmente diversas farsas que circulam pela internet. E aqui, algumas dicas sobre como checar informações.

Como estou vendo a Copa

Em 2007, quando a FIFA confirmou que o Brasil sediaria a Copa do Mundo de 2014, me declarei contra a decisão devido aos diversos problemas que o país tinha – e continua a ter. Não fui exatamente uma “voz solitária”: várias outras pessoas que conhecia também diziam ser contra o Mundial acontecer por aqui; mas de forma geral, os brasileiros celebraram em 2007.

Diversos motivos fizeram com que eu não me empolgasse com a Copa no Brasil mesmo com a aproximação do momento da bola rolar. Desde questões pessoais (o final de 2013 e o começo de 2014 simplesmente não precisavam ter existido na minha vida), políticas (os abusos da FIFA são inaceitáveis, por mais que se goste de futebol), chegando até a previsões de que o Mundial seria um desastre (mesmo sabendo que em geral tais prognósticos eram supervalorizados pela oposição que sonhava com um caos na Copa para poder culpar o governo, com tanta gente martelando a mesma coisa era difícil não ser influenciado de alguma maneira).

Pois bem: a Copa começou, e então passei a, enfim, curti-la. Afinal de contas, gosto de futebol. Não é toda hora que se tem a oportunidade de assistir a grandes jogos (embora eu não tenha comprado ingresso para nenhum), e também de presenciar momentos memoráveis como a “Orange Square” (tradicional festa dos torcedores da Holanda antes dos jogos de sua seleção); e depois a caminhada da “massa laranja” em direção ao Beira-Rio embalada pelo ritmo empolgante da sensacional banda Factor 12.

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Isso quer dizer que mudei de ideia em relação à Copa, que considero um erro minha contrariedade em 2007? Claro que não. Ainda prefiro um Brasil melhor do que o Mundial. Porém, algo que andei pensando muito ultimamente foi: e se a Copa não tivesse vindo para cá, será que o país teria melhorado mais nestes últimos sete anos? Respondo: provavelmente não…

Minhas críticas à Copa do Mundo não se resumem em “ela tirou dinheiro da saúde e da educação”: tal frase corresponde a uma meia-verdade. As reformas e construções de estádios tiveram dinheiro público, mas boa parte dele corresponde a empréstimos do BNDES, ou seja, é grana que voltará aos cofres do governo. A “perda” foi em impostos que deixaram de ser arrecadados, visto que várias obras tiveram isenção fiscal – logo, menos arrecadação pelo poder público. Mas, os problemas da Copa não são apenas esses.

Afinal, muitos dos que criticam os gastos da Copa o fazem por puro e simples moralismo (aquela história de “abaixo a corrupção”, mas apenas atacando os agentes públicos corruptos sem se dar um pio quanto aos corruptores privados). Mas não estão “nem aí” para famílias que sofreram remoções forçadas por conta de “obras da Copa”, acham boa a “higienização social” nas cidades-sede do Mundial, e vibram quando a PM “desce a porrada” nos manifestantes (concorde-se ou não com suas pautas, eles têm todo o direito a protestar, a não ser que a democracia tenha sido revogada). Sem contar os operários que morreram nas obras dos estádios da Copa, alguns dos quais se tornarão “elefantes brancos” após o Mundial.


“Enquanto te exploram tu grita gol!”, diz uma frase que li em vários muros. Eis algo que considero o principal erro de muitos que não gostam de futebol: tratar quem gosta como “burros”, “alienados” etc. Aliás, declarando isso muitas vezes pelo Facebook: se o futebol é o “ópio do povo” como tantos gostam de dizer, a rede de Mark Zuckerberg (na qual a imensa maioria das postagens é pura bobagem) é o quê? Beber até cair, então, deveria ser atestado de “alienação” eterna.

Se há pessoas que gostam de futebol e são “alienadas”, isso não se deve ao esporte bretão: no lugar dele haveria outro “ópio do povo” (Facebook?). Assim como existem diversos casos de torcidas e mesmo clubes politicamente engajados. Um dos mais famosos é o St. Pauli, da Alemanha, que baniu de seu estádio quaisquer membros de movimentos extremistas de direita e por conta disso passou a ser cultuado por militantes anarquistas, socialistas e comunistas em vários outros países; em entrevista ao programa “Futebol, uma viagem”, o chefe de segurança do clube disse algo sensacional: “eu não jogo fora meu cérebro quando vou para um estádio”.

Mas não é preciso ir tão longe: o Ferroviário Atlético Clube, de Fortaleza, foi fundado em 1933 por trabalhadores da Rede de Viação Cearense (RVC) – ou seja, é um clube operário inclusive em suas origens. Terceiro maior vencedor do Campeonato Cearense, o Ferroviário revelou jogadores como Jardel (campeão e artilheiro da Libertadores de 1995 pelo Grêmio) e Iarley (campeão da Libertadores e do Mundo pelo Inter em 2006), e também tem uma torcida declaradamente de esquerda: a Ultras Resistência Coral, criada em 2005 por torcedores anarquistas e comunistas, combatendo o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância comum a diversas organizadas.